Homenagem adiada por quatro décadas pode, agora, sair do papel
Luciana Veras
DA EQUIPE DO DIARIO
De número 7436, a lei municipal é datada de 21 de novembro de 1961, porém nunca executada. Dispõe da autorização dada pela Câmara de Vereadores do Recife para o município conceber e construir um mausoléu a um filho ilustre, de vida breve ceifada por acidente em 1º/7/1960. Mais de 40 anos depois, a legislação criada na gestão de Miguel Arraes na prefeitura para homenagear o poeta Carlos Pena Filho está prestes a virar fato graças ao empenho do vereador Liberato Costa Junior.
Foi do veterano político, líder do PMDB na Câmara, o requerimento de número 912 aprovado pelo presidente da casa, Waldemar Borges (PPS), na última quarta-feira, e endereçado ao prefeito João Paulo. Diz o texto: "O presente requerimento visa com que a edilidade resgate dívida cívica com a família do consagrado poeta Carlos Pena Filho, cujos restos mortais se encontram em terreno do Cemitério de Santo Amaro, já definido por Lei para homenagear a figura do poeta que tanto decantou o Recife sua terra, projetando-a através da poesia além das suas fronteiras".
Na época da colisão automobilística que matou Pena, Liberato era primeiro secretário da Câmara. "Vendo meus arquivos e conversando com familiares do poeta, como o irmão Fernando Pena, vi que a lei já existia. Se não tivesse sido feita, eu a teria. É importante homenageá-lo porque ele é, rigorosamente, o poeta do Recife", diz Liberato, que justifica a autoria do requerimento como uma marca "da minha presença nesse processo".
Ele explica que, antes mesmo de redigir o texto, contactou o secretário de Serviços Públicos, Dilson Peixoto, e levou a cabo o pedido de Fernando Pena para interferir no caso. "Dilson então falou com o prefeito e ele atendeu a solicitação, tendo inclusive já falado com a URB e mandado fazer um projeto", destaca o vereador. Costa Junior decidiu-se por registrar sua "presença nesse processo" na forma do requerimento. "Como representante do povo do Recife, tenho o sentimento de que se deve resgatar essa dívida com a cultura e poesia pernambucana. Pedi apenas para a lei ser cumprida e o projeto, executado".
Para Tânia Carneiro Leão, viúva do poeta e mãe de sua única filha, Clara (na época do acidente, com apenas dois anos), o mausoléu é mais um justo tributo a uma pessoa "que fez tanto pela cidade mas é pouco homenageada". "Ele é mais lembrado no Sul, onde consta de todas as antologias de melhores poetas e poemas brasileiros do século", afirma Tânia. "Até recebo quase semanalmente correspondências de pessoas pedindo para ele constar em livros didáticos. Não acho que Pernambuco não tenha lembrado Carlos, por isso acho ótima mais essa homenagem", acrescenta a viúva.
Caso a prefeitura cumpra a lei ainda este ano, será a segunda significativa iniciativa, em dois anos, de recuperar a memória de Carlos Pena Filho e/ou apresentá-las às novas gerações. No ano passado, três estudantes de Jornalismo da Unicap- Anneliese Pires, Juliana Aragão e Milena Vital - produziram o documentário Pena, com trechos de Soneto do Desmantelo Azul e depoimentos de Tânia Carneiro Leão, Ariano Suassuna, Francisco Brennand e outros amigos do poeta. Resultado: singelo e emocionante, o vídeo ganhou, em dezembro, o Prêmio Cristina Tavares na categoria.