No trabalho de apuração, o cuidado em cruzar informações foi fundamental. Isso porque, entre os bandidos, quanto mais perigosa a ação, maior o poder atribuído a eles. Por isso, era comum o jornalista ouvir a narração exagerada de crimes, no intuito de impressioná-lo.
Para Barcellos, a experiência de acompanhar de perto o cotidiano da favela com a maior concentração humana do País - os dados do IBGE apontam cerca de 12 mil habitantes, ultrapassando até a Rocinha - foi muito rica. Um dos fatos surpreendentes foi perceber que os moradores da Santa Marta têm um nível de informação bem maior sobre a cidade em relação aos da classe média. "A saída para o trabalho os faz conhecer a região, mas o inverso não acontece, pois ninguém passa pela favela. Além disso, as mães deles trabalham em casas de família e repassam as informações".
Esses fatos, analisa, reforçam para os favelados a constatação da desigualdade social e ratificam a decisão de ingressar na criminalidade, cujo retorno financeiro é garantido: "Nãoconheci nenhum traficante com salário digno antes de realizar as atividades ilícitas. A sociedade não conseguiu equacionar a distância entre os dois universos. A apuração dessas histórias reforçou a certeza da associação direta entre economia e violência".
Apostando no sucesso de Abusado, a Record saiu com uma tiragem inicial de 20 mil exemplares. E as expectativas se confirmaram. A editora já providenciou a segunda edição. Este é o terceiro livro do jornalista, autor de A Revolução das Crianças e Rota 66.