Edição de Domingo, 8 de Junho de 2003
 
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Livro de jornalista revela cotidiano de crime no morro

Autor traduz sentimentos dos traficantes da Favela Santa Marta, no Rio

Maria Eduarda Antunes
DA EQUIPE DO DIARIO

Favela Santa Marta, zona Sul do Rio de Janeiro. Lugar onde traficantes de drogas ditam regras e o crime é atividade corriqueira. O que faria um jornalista entrar nesta área e decifrar o cotidiano de bandidos perigosos? Para Caco Barcellos, a motivação foi a vontade de apresentar as histórias do mundo cujo desconhecimento aumenta na sociedade os sentimentos de repúdio e medo. Na próxima terça-feira, às 19h, ele estará no Recife para lançar o resultado dessa incursão no livro Abusado, o Dono do Morro Dona Marta (editora Record). O evento ocorrerá às 19h, na livraria Arraial.

  Na obra, escrita em forma de romance-reportagem, o fio condutor é a trajetória de Marcinho VP, apresentado como Juliano VP, e seus companheiros. "Ele é um dos principais da terceira geração do Comando Vermelho, que levou a cocaína aos morros cariocas e do Brasil", explica Barcellos. A partir de relatos dos moradores da favela, o autor mostra como o CV ocupou a área e a forma de organização da comunidade, cujos mutirões levaram condiçõesbásicas de saneamento, como água e luz. Revela, ainda, o envolvimento de pessoas de destaque da sociedade com o crime.

  No intuito de ser o mais fiel possível à realidade do Santa Marta, Barcellos incorporou ao texto expressões próprias da comunidade, a começar do título: "Para eles, o nome do morro é Dona Marta e não Santa Marta", afirma. Ao se referir a pessoas com relação de risco, criou codinomes, procurando evitar perseguições e minimizar riscos.

  Para encontrar o lugar ideal onde pudesse desenvolver o trabalho, o processo foi longo. A procura começou em 1992 e, primeiro, ele conseguiu a favela Acari. Esta, no entanto, foi descartada, por ser horizontal. Em 1996, entrou em contato com o traficante, preso na Polinter. "Conversamos muito e falei que queria conhecer de perto uma boca de cocaína. Duas semanas depois ele fugiu e ficou mantendo contato comigo por telefone. Só em 99 o trabalho começou mais efetivamente", revela.

  Ao firmar o pacto de confiança com os integrantes da quadrilha, as exigênciasexistiram, mas partiram do próprio jornalista: "Impus a condição de não participar de nenhuma ação na favela e não ouvir qualquer plano de atividade criminosa preparada para o futuro", fala. No começo, ele afirma ter tido dificuldades. "Eles pretendiam me contar tudo, para mostrar confiança, e eu não queria ouvir. Depois, entenderam meu posicionamento", diz.

  Enquanto levantava as histórias no morro (ao todo, foram realizadas mais de 200 entrevistas), a maioria dos moradores colaborou - desde traficantes até as pessoas sem envolvimento no crime. A pressão, entretanto, veio da quarta geração do Comando Vermelho, formada por adolescentes. De acordo com Barcellos, eles insistiam para aparecer a todo custo, publicando fotos no livro.

Serviço

Lançamento de Abusado, o Dono do Morro Dona Marta (editora Record). Terça-feira, às 19h, na livraria Arraial. Estrada do Arraial, 2350, Tamarineira. Fone: 3269.8330. Preço médio do livro: R$ 55,00.


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