Entrevista
Dos grandes líderes políticos do Brasil, nenhum ilustra melhor a capacidade de "mudar de opinião" do que o ex-governador (do extinto Estado da Guanabara) e ex-deputado Carlos Lacerda. Foi comunista e depois tornou-se um feroz anticomunista. Derrubou presidentes e mais tarde fez alianças com seguidores deles. Apoiou o golpe militar e em seguida rompeu com o regime. Tudo isso em meio a disputas pela conquista ou manutenção do poder.
Questionado certa vez sobre a facilidade com que mudava de opinião, Lacerda reagiu citando Ruy Barbosa: "Só os burros não cometem incoerência. Só os burros não mudam de opinião". E acrescentou: "Os acontecimentos mudam, as coisas mudam de aspecto. E só realmente uma pessoa obstinada ou vaidosa é que não reconhece quando as coisas mudam".
"O que peço a Deus", disse ele, "é que me conserve exatamente essa capacidade de parecer incoerente, quer dizer, de elogiar quando o sujeito me parece que está fazendo a coisa certa e, amanhã, espinafrá-lo quando me parece que ele está fazendo coisa errada". No mesmo depoimento Lacerda lembrou o caso de Jânio Quadros, a quem apoiou como candidato a presidente (1960). "O Jânio apareceu como um sujeito disposto a fazer um grande governo. Depois mostrou o contrário", justificou ele. "Quem é o incoerente? Eu, que o elogiei quando ele parecia bom e o ataquei quando ele ficou ruim? Ou foi ele, que parecia bom e ficou ruim? Incoerente seria eu se continuasse a elogiá-lo".
Carlos Lacerda era um político que amava o poder, e para conquistá-lo utilizava todas as armas que tinha ao alcance. "O poder não é cargo de sacrifício. Ao contrário, o poder, antes de tudo, é uma fonte maravilhosa de alegria", dizia ele. "Eu tenho nojo da pessoa que diz que (no poder) está fazendo um sacrifício: ou é um mentiroso, ou é um impostor, ou não sabe o que está fazendo lá".
Líder da UDN, foi considerado "o maior tribuno que já passou pela Câmara" e um dos personagens mais influentes da política brasileira no período de 1945 a 1968. Ganhou o apelido de "derrubador de presidentes" porque teve papel de destaque na queda de Getúlio Vargas (1954) e de Jânio Quadros (1961). Apesar do seu anticomunismo, foi cassado e preso em 1968. Havia, pela última vez, mudado de opinião, tornando-se oposição ao regime militar. Morreu em 21 de maio de 1977, aos 63 anos.