CINEMA FRANCÊS
Há quem diga que tudo no cinema francês se assemelha à igualdade e outros que postulam a diversidade da produção do país que pariu François Truffaut, Chabrol e Alain Resnais. Para um e outro, o Cinema da Fundação exibe esta semana dois imperdíveis filmes que pouco possuem em comum, além do idioma e da busca pela felicidade que, em doses desiguais, permeia-os: Marie-Jo e Seus Dois Amores, na segunda semana em cartaz, e Um Dia de Rainha.
Marie-Jo (Ariane Ascaride, soberba) é uma mulher que destina iguais toneladas de afeto ao marido e ao homem com quem se encontra dia sim, dia não. Na sua vida, não há distinção entre esses dois seres, e o diretor Robert Guédiguian repassa essa certeza oblíqua para o público. À adúltera não é reservado tratamento de meretriz ou vítima das circunstâncias. Marie-Jo, dançando numa festa em casa, a filha a admirando, ou correndo nua sob o olhar do amante, poderia ser sua vizinha.
Diante de tanta humanidade e verossimilhança, o espectador não é forçado a julgar a protagonista,e sim a tentar vislumbrar um possível desfecho para uma situação cada vez mais estrangulada. Afora isso e as interpretações impecáveis, o filme fisga pela abordagem nada maniqueísta de um tema-tabu vez por outra retratado de maneira boba - vide o recente Infidelidade de Adrian Lyne. Nem tudo é tão fácil como Hollywood ou outros diretores mais rasos que Guédiguian pregam.
Se em Marie-Jo e seus Dois Amores existe matéria para reflexão, essa se encontra diluída em Um Dia de Rainha, de Marion Vernoux. Mas não sumida. Na história de vários personagens que se cruzam, um formato que remete instintiva e instantâneamente a Robert Altman e ao Magnolia de Paul Thomas Anderson, um é preponderante: Hortense (Karin Viard, a esposa de A Agenda). Ela trai o marido, entope a caixa postal do celular do amante com recados estapafúrdios e banais e aproveita a boa vontade da secretária da clínica onde trabalha.
Ao redor dela orbitam outras figurinhas, como uma jovem que engravidou do noivo do casamento que fotografava (não por acaso, o irmão de Hortense), um motorista de ônibus prestes a ter uma surpresa desagradável, um fracassado ex-apresentador de TV. São tipos que resvalam para o caricato em alguns momentos, mas que expressam, num panorama mais para cômico do que dramático, a solidão e a fugacidade da vida pós-moderna.
O momento no metrô, em que dois personagens dialogam apenas por gestos e pensamentos, é antológico em Um Dia de Rainha. Junto ao impacto dos instantes finais de Marie-Jo, atestam a existência de um arsenal criativo e temático com o qual os franceses, assumidamente xenófobos no tocante à produção cinematográfica, podem se armar contra a invasão de filmes, rostos e enredos americanos.(L.V.)
Serviço
Marie-Jo e Seus Dois Amores (Marie-Joe et Ses Deux Amours, França, 2002). Dir: Robert Guédiguian. Com Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin. 14 anos.
Um Dia de Rainha (Reines D'Un Jour, França, 2001). Dir: Marion Vernoux. Com Karin Viard, Victor Lanoux. 14 anos.
Onde e quando: No Cinema da Fundação, hoje, respectivamente, às 18h30 e 20h50.