Novo álbum da banda carioca reafirma compromisso com o afeto
Luciana Veras
Da equipe do DIARIO
"No primeiro momento, era a calmaria depois da tempestade, por isso o nome Bonança. Só que vimos que isso trazia pro Bloco do Eu Sozinho uma cara de tempestade, e não dava, porque todo mundo adorou o Bloco. Foi um disco de que gostamos bastante. Aí o Ruivo trouxe Ventura e todos acharam que representava melhor o nosso momento. Seja a sorte boa ou má, que ela venha". Quem convoca a fortuna é o baterista Rodrigo Barba. Quem trouxe o nome foi o guitarrista e vocalista Rodrigo Amarante, codinome Ruivo, na intimidade da banda. Quem o aprovou foi o outro vocalista, guitarrista e letrista, Marcelo Camelo, com a anuência do tecladista Bruno Medina. E essa é a explicação do Los Hermanos para o nome de terceiro álbum.
Aguardado com sofreguidão pelos fãs, Ventura é o primeiro disco lançado pelo grupo sob o teto da BMG, gravadora que acolheu os irmãos após o desmembramento da Abril Music. Sim, os aficionados pelas letras de Amarante/Camelo ansiaram pelo CD gerado após a tumultuada relação do quarteto carioca e a Abrildurante a pós-produção de Bloco. O que ocorreria com os caras que estouraram com Anna Júlia e depois experimentaram sonoridades e sensações num disco não tão pop quanto o esperado, que acabou por compelir a gravadora a requisitar uma outra mixagem?
"Ventura é o momento que estamos vivendo, não é um retorno, até porque já andamos para frente. Hoje, já somos outra coisa", impõe o baterista, um dos fundadores da banda. "Todos os contatos como a BMG têm sido muito bons. Eles compraram os outros dois discos, vão investir em catálogo e nos deixaram bem à vontade", acrescenta. Por "bem à vontade" pode-se entender com liberdade total para se enfurnar dois meses numa propriedade na região serrana do Rio e convidar Kassin (ex-Acabou la Tequila, cultuado produtor carioca) para não só encarar o baixo em algumas faixas e sim produzir a bolacha.
Ouvir o quarto hermano discorrer sobre o sítio é compreender um pouco o processo criativo da banda, que tem dois vocalistas/guitarristas distintos, porém uma só identidade. Fala Barba: "Já tínhamos ido ao sítio no Bloco, mas dessa vez a gente quis o Kassin como produtor. Ele passou um tempo lá conosco, discutindo sobre todas as possibilidades de arranjo. É assim que funciona: Marcelo e Rodrigo compõem em casa e lá a gente começa a pensar o que fazer com elas, até a música sair".
repertório - Foi assim, então, que surgiram Cara Estranho, Conversa de Botas Batidas, A Outra e O Vencedor, da lavra de Camelo, e Último Romance, Um Par, Deixe o Verão e Sétimo Andar, de autoria de Amarante. Ao todo, são quinze faixas divididas pelos dois, apelidados pela Folha de S. Paulo de "Chico e Caetano moleques". Barba, da metade que elabora melodias e não os versos amorosos dos Hermanos, diz que não é bem assim: "Marcelo e o Ruivo costumam dizer que a gente já tem muito trabalho sendo o Los Hermanos. Ficamos felizes com isso, claro, assim como ficamos quando George Harrison gravou Anna Júlia. É uma coisa que entra para história de nossa vida".
Então não rola ciumeira porque os leadmen dão a cara à ovação do público e colhem os frutos pelas letras que inevitavelmente falam de amor? Não, não rola. "Nunca pensei em compor. É melhor me deixar na bateria", diz, quase gargalhando, Barba. "Tem gente que se confunde com os dois, mas eles têm jeito de compor completamente diferentes. A forma da melodia, a construção da frase, tudo muda de um para o outro. E o bom é que os dois deixam a letra aberta para várias possibilidades de arranjo", arremata o baterista.
Os diversos caminhos melódicos convergem para um único leito: o amor. Os hermanos, todos comprometidos, são românticos e sentimentais de forma descarada, carinhosa, sinestésica. E Ventura é permeado pelo afeto. "O romântico pode ser retratado de várias maneiras. Na vida, está tudo relacionado a isso, ao afeto. Todas as relações entre as pessoas, quer você goste delas ou não, baseiam-se no afeto", pontua Rodrigo Barba. "E nós somos uma banda muito sincera, que abre o coração e que espera que as pessoas nos ouçam de coração aberto também".
Fãs- Aquiem Pernambuco, isso não será difícil. A banda sabe que há toneladas de fãs afetuosos, daqueles que cantam e compram tudo. Ventura, aliás, já chegou e se esgotou em algumas lojas. Mas a relação com o público não é o único elo entre Recife e o novo álbum. "Foi aí que nasceu a idéia do barco. Atrás do Armazém, onde fizemos show no ano passado, tinha um barco atracado e nos disseram que um cara morava lá e não podia sair. Ficamos impressionados e curiosos. No Recife começou a história do passarinho", conta Barba, aludindo à capa do CD.
Ele escancara o apreço que a banda tem pela cidade: "Quando fazemos shows aí, é como se estivéssemos tocando no Rio". Para afagar os pernambucanos, Rodrigo Barba manda um recado. "Recife é a nossa casa no Nordeste, logo, logo a gente chega aí", despede-se o baterista.