A miopia do amor
DORA KRAMER
E-mail:dkramer@estadao.com.br
Levados ao pé da letra, os dados da última pesquisa do Instituto Sensus divulgada ontem mostram o equívoco da avaliação segundo a qual a lua-de-mel entre o País e o presidente da República já estaria dando sinais irremediáveis de fadiga. Com cinco meses de Governo e problemas a mancheias, Luiz Inácio da Silva nos últimos 30 dias simplesmente subiu quatro pontos percentuais na avaliação positiva de seu desempenho pessoal. Está com 78% contra 74% em abril. Em janeiro, quando tudo era apenas festa, tinha 83,6%.
É recomendável, no entanto, que sua assessoria não se deixe inebriar como ocorreu com a equipe do antecessor que, frente aos altos índices de aprovação do Plano Real principalmente nas classes C, D e E, levou todo o primeiro mandato considerando que contraditório era coisa de gente implicante. Quando não ignorante. Ao acordar, era tarde.
Agora não é o combate da inflação o que encanta as pessoas ao ponto de embortar-lhes um pouco o senso crítico. É a própria performance presidencial, liberada das limitações de voz gesto e movimento impostas pelo marketing da campanha eleitoral que adotou o lema do quanto menos, melhor.
Lula provoca a emoção das pessoas, quanto a isso não resta dúvida. Fala todos os dias, não raro o dia inteiro e, muitas vezes, derrapa no excesso de informalidade, trava lutas homéricas com a gramática, comete gafes que na boca de outro provocariam passeatas de protesto. Mas nele tudo é perdoado, tudo é absorvido pela benevolência com o estilo.
Isso é mal? De jeito algum, se as dificuldades são imensas, louve-se a capacidade do comandante de manter elevado o moral da tropa. O problema é que isso, como toda paixão, tem prazo de validade. Se é verdade que o brasileiro precisa de amor é fato também que não estará disposto a vivê-lo eternamente sob o teto de uma cabana.
Portanto, cumpre começar a alimentar algumas objetividades entendendo que a esperança já se encontra devidamente saciada. Pois chegará a hora em que as pesquisas apresentarão dados bem mais realistas do que esta agora, em que 60,7% das pessoas considera que "o desenvolvimento da área social" está "no rumo certo". Qual seria este rumo mesmo, faltou esclarecer. Bem como permanecem desconhecidos os resultados a que se referem os apoiadores de tão festejado desenvolvimento.
Os que emitiram tal opinião falavam do quê? De coisa alguma a não ser da extrema boa vontade que dedicam à figura presidencial. Semelhante sentimento provavelmente motivou 52,6% dos entrevistados a responder que os ministros têm desempenho ótimo e bom. Convenhamos, um índice um tanto alto se levarmos em consideração que, à exceção de Antônio Palocci e mais dois ou três, a equipe não tem merecido grandes elogios nem do presidente da República.
E o que dizer dos 62% cuja avaliação é a de que as promessas de campanha estão sendo rigorosamente cumpridas? Mais bem informados ficaríamos se as pessoas dissessem quais foram mesmo as realizações a que se referem. Tirando preservação dos fundamentos da política econômica porque isso foi, de fato, prometido e vem sendo cumprido.
Revela-se também algo confusa a avaliação popular segundo a qual a reforma da Previdência tem por objetivo "melhorar a aposentadoria dos mais pobres" para 48,8% dos entrevistados e "reduzir despesas para o País se desenvolver" para 23,2%. Ou seja, a maioria (66%) aprova uma reforma cujo teor desconhece. Pesquisas, como se vê, mostram o rumo dos ventos. Mas é bom ter cuidado com elas, porque às vezes tornam moucos os ouvidos, míopes os olhos, empinados os narizes, insensível a epiderme, frouxa a percepção e minguado o discernimento.
Como dantes
O vice-presidente da República, José Alencar, avisa que ampliará suas críticas ao Governo porque, segundo ele, foi escolhido para representar o empresariado na chapa de Lula e, portanto, teria a obrigação de manter o discurso de sempre. Seria o mesmo que o presidente resolvesse defender exclusivamente os interesses do PT ou, para ser totalmente fiel às origens, liderasse o dissídio coletivo do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Aliás, em matéria de liturgia do cargo, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, mostrou a Alencar como é que se faz. Instado a comentar as críticas, Dirceu disse que antes falaria com o vice. Como convém.
Folga no figurino
Corria, segunda-feira à noite, um jantar de pefelistas em Brasília quando um dos participantes perguntou ao deputado Roberto Brant, o que lhe parecia o Governo do PT. "Parece o sujeito que vestiu uma roupa emprestada, fica o dia todo na frente do espelho procurando se ajustar ao figurino e, quando alguém faz qualquer referência à vestimenta reage mal, pensando que é provocação".