Enquanto as árvores crescem
Enquanto as árvores crescem, as sombras permanecem. As tardes são menos tardes; os dias anoitecem. Enquanto isso, as árvores crescem; e as penumbras ficam, diante dos olhos dos que passam. Há uma pausa, que não chega a ser para meditação. É preciso que, urgentemente, os movimentos cessem. Parem.
Até quando isso deverá ocorrer? Eis uma pergunta (ociosa?) que não merece sequer uma observação. Somam-se, sem qualquer ritmo, os movimentos das coisas que marcham para o passado. O amanhã nem chega a ser isto: é coisa visivelmente passada.
Os domingos (ontem) são braços com mãos decepadas. Não fazem gestos, portanto.
Há uma causa lícita para todos esses efeitos?
O relógio não para: continua a marcar as horas. Os instantes (os homens) é que param. Deixam de ser.
Para um domingo (ontem) sem gestos, houve o prelúdio das chuvas. O que passou não foi um domingo de chuva. Pelo contrário: de muito Sol...
Ora, direis leitor(a), o que me interessa isto, todas essas considerações que estou a ler, se os problemas continuam os mesmos (falta de dinheiro nos bolsos...).
As árvores crescem. Enquanto isto, suas folhas surgem, como dedos renováveis. E os frutos? Quem os devoraria?
Para um domingo (ontem) que passou, somente outro igual, dentro de um calendário que não chega muito a ser renovado. Pois todas as coisas são inopinadamente semelhantes. Causando tédio.
Sim. As árvores crescem. Mas são destruídas, neste Recife. Eis um fato que não merece contestação. Os minutos se renovam, dentro do caminhar dos ponteiros. Há velhas, antiqüíssimas canções que, entretanto, não são mais entoadas.
Os meninos correm pelas calçadas; os cães ladram; os veículos cruzam o asfalto.
Enquanto isto, as árvores crescem. Irremediavelmente crescem, surgem de dentro das terras, onde foram plantadas. E o Sol lhes acena, com gestos desesperados de advertência.
Há prenúncios de entardecer, quando as árvores crescem. Não há medidas certas para o ato de a árvore crescer. É um gesto botânico que independe de vontade ou de interferência de quem as observa.
Simplesmente as árvores crescem. Ou são derrubadas, neste Recife.
Quinta-feira próxima, às 18hrs, no Palácio do Governo, a homenagem que o governador Jarbas Vasconcelos irá prestar ao médico e acadêmico Waldemir Miranda, no transcurso dos seus 100 anos de vida.
- Waldimir Maia Leite é membro da Academia Pernambucana de Letras