Edição de Sábado, 26 de Abril de 2003
 
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Parábola pacifista com poder de fogo

Johnny Vai à Guerra, um clássico-denuncia sobre os horrores da guerra, ganha relançamento no Brasil

Aline Feitosa
Especial para o DIARIO

"Meu braço, meu braço, eles cortaram meu braço... Estamos na guerra e a guerra é o inferno... Não podiam ter feito isso, seus filhos da mãe. Ninguém pode sair por aí cortando o braço de um homem sem consultar, sem pedir permissão". São trechos chocantes, que traduzem a violência e os transtornos de quem passa pelos campos de batalha. O protagonista da história é um soldado que, na I Guerra Mundial, perde todos os membros e todos os sentidos. O livro Johnny Vai à Guerra, de Dalton Trumbo (1905-1976), recentemente relançado pela editora Relume Dumará (R$ 32,00), está inscrito como um dos mais expressivos trabalhos da literatura americana e - azar o nosso - não poderia retornar às prateleiras em época mais proprícia.

  "Esse romance deve ser lido porque nos dá os argumentos mais fortes contra os senhores da guerra, porque nos tira o choro do peito mas o deixa entalado na garganta, e porque é muitíssimo bem escrito", situa na orelha da publicação Gustavo Bernardo, responsável pela indicação editorial e a revisãotecnica do livro. O grande trunfo do autor foi ter criado uma obra universal, sem prazo de validade. O título anda por todas as guerras, desde a Primeira até a mais recente, em terras iraquianas. Publicado nos EUA em 1939, dois dias antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial, o romance conta a história de John Bonham, 20 anos, que colocou um fuzil nas mãos e partiu para uma luta que não era dele. Como a guerra não perdoa quem luta por ela, o protagonisé vítima de uma explosão de granada e perde pernas, braços, visão, audição e olfato.

  Trumbo narra uma história dentro de um modelo trágico, prendendo o leitor em parágrafos de descrição precisa, quase cinematográfica. O jogo sonoro do fraseado é um dos recursos emotivos do livro, que acompanha o sofrimento do soldado, incapaz de se comunicar. John está num leito de hospital militar e a única coisa que pode fazer é refletir. Aos poucos, através de código morse, batendo com a cabeça (que os enfermeiros tomam como convulsões), ele vai conseguindo fazer-se entender: quer sair do hospital e mostrar ao mundo os horrores da guerra. Obviamente, não é atendido, pois seria uma atitude irregular. Sua esperança se materializa na enfermeira, que consegue entendê-lo , como numa redençao.

  A história é narrada na terceira pessoa até o momento do acidente. Depois, o autor dá voz, na primeira pessoa, as sensações confusas do rapaz massacrado, indo e voltando no tempo, num jogo da memória. Trumbo constrói uma verdadeira parábola da privação existencial e sensorial.

  A denúncia da imbecilidade de conflitos humanos em nome de ideais indefinidos tornou Johnny Vai à Guerra um livro inapropriado para o establishment americano por ser uma obra pacifista durante o pacto Hitler-Stalin. Mesmo assim, ainda recebeu, em 39, o Prêmio Nacional da Literatura Americana.


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