Edição de Sábado, 26 de Abril de 2003
 
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Tropeços na abertura do festival

CINE - PE

Luciana Veras
Da equipe do DIARIO

Para um evento que se propunha diferente e mais enxuto, a primeira noite do Cine PE - Festival do Audiovisual beirou o caos. Antes da projeção, houve um atraso de quase uma hora; em seguida, deu-se a apresentação do grupo de dança Majê Molê, que, embora impactante, empolgou mais os visitantes do que os espectadores já exasperados com a demora. Iniciada a sessão, mal se podia discernir diálogos de ruídos dos dois primeiros curtas-metragens, Um Trailer Americano e A Breve Estória de Cândido Sampaio. Como se não bastasse, a programação encerrou-se com descortesias, vaias, gritos e aplausos propiciados por Apolônio Brasil - Campeão da Alegria e seu diretor Hugo Carvana.

  Irritado com o fato de que seu filme seria exibido para uma "parca platéia" - os cerca de 600 abnegados que resistiram até às 23h20, quando o segundo longa começou - e "acostumado com a desorganização brasileira", Carvana subiu ao palco torcendo para que Apolônio Brasil fosse bom o suficiente para segurar as pessoas. E disparou: "Espero que um dia Recife aprenda a fazer um festival de cinema". Apupos imediatos rebateram a atitude deselegante do diretor, que, claro, tinha motivo para reclamar do atraso, mas não de peitar uma platéia conhecida por sua vibração. "Cala a boca, globalizado", berraram uns. "Velho reacionário", bradaram outros.

  A saia-justa armou o público contra o enredo calcado nas chanchadas e musicais de outrora, em que Apolônio (Marco Nanini, mostrando versatilidade e competência habituais) sai do orfanato para virar pianista da noite carioca e hoje, já morto, é rememorado pelos amigos e pesquisado por um cientista americano (último papel de José Lewgoy no cinema). Ao longo das 2h de projeção, no entanto, o jogo virou. Apolônio Brasil é divertido, tem boas atuações (os "esquecidos" Sylvia Bandeira, Antonio Pedro e Louise Cardoso) e não nega a fonte "atlântidal" da qual brotou. Se tivesse vinte minutos e algumas gags a menos e um final não tão paspalhão e previsível, ficaria à altura de seu melhor momento, a seqüência em que ummilitar ingere LSD, aplaudida em cena aberta pelos pernambucano numa espécie de reconciliação.

  Tal tratamento de "morde-e-assopra" não foi destinado ao primeiro longa-metragem da noite nem aos três curtas, que não despertaram reações extremadas. Enquanto a brincadeira metalingüística de Um Trailer Americano, de José Eduardo Belmonte, perdeu-se na péssima qualidade do som, a piada final livrou o esquemático A Breve Estória de Cândido Sampaio, do carioca Pedro Carvana, de uma recepção mais fria. Coube ao cearense Águas de Romanza, de Gláucia Soares e Patrícia Baía, o título de surpresa. De longe, era o mais simples bem executado curta de anteontem.

  Estréia da atriz Ana Maria Magalhães na direção, Lara, por sua vez, não engrenou. Na vastidão da tela do Guararapes, a história de Odete Lara (defendida com vigor por Christine Fernandes), com seus amores tempestuosos e sua vida perturbada, pareceu dispersa demais para uma platéia impaciente e sem muita disposição para um cinema mais exigente e difícil. Lara nãoé um primor; suas falhas incomodam bastante, em especial a oscilação no ritmo e equívocos como a horrenda música incidental. No entanto, as intepretações honestas e o próprio tema - a vida da mulher que virou musa do Cinema Novo - resgatam o filme, dando-lhe uma espécie de nobreza.

  Ao apresentar sua cria, o primeiro filme em disputa na competição de um festival que homenageia a mulher, Ana Maria ressaltou sua "herança sertaneja, com humildade por fora e poder por dentro". O melhor para ela, talvez, tivesse sido exibir seu filme numa sala menor e sem a pressão de se sair bem diante de uma audiência de, no mínimo, mil pessoas. Festival, todavia, é assim mesmo; resta saber se a confusa abertura ditará o rumo do Cine PE.

Programação

HOJE

Ficção 16mm /animação/mostra mulher - 15h

- Mundo Cão (ES)

- Miopia (RS)

- O Limpador de Chaminés (RJ)

- Furos no Sofá (RS)

- O Céu de Iracema (CE)

Ficção 35mm - 19h

- Achados e Perdidos (RJ)

- Alumbramentos (SC)

- No Bar (SP)

- À Margem da Imagem (SP, fora de competição)

- Celeste e Estrela (DF)

DOMINGO

  

Ficção 16MM /animação/mostra mulher - 15h

- O Metro Quadrado (RJ)

- Mangue e Tal (ES)

- O Lobisomem e o Coronel (DF)

- Rua da Escadinha 162 (CE)

- Choveu, e Daí? (AL)

- Rosas (MA)

- No Coração de Shirley (BA)

Ficção 35mm - 19h

- Tempo de Ira (RJ)

- O Resto é Silêncio (RJ)

- Ofusca (SP)

- Samba Canção (MG)

- Concerto Campestre (RS)








 

 
 
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