CINE - PE
Luciana Veras
Da equipe do DIARIO
Para um evento que se propunha diferente e mais enxuto, a primeira noite do Cine PE - Festival do Audiovisual beirou o caos. Antes da projeção, houve um atraso de quase uma hora; em seguida, deu-se a apresentação do grupo de dança Majê Molê, que, embora impactante, empolgou mais os visitantes do que os espectadores já exasperados com a demora. Iniciada a sessão, mal se podia discernir diálogos de ruídos dos dois primeiros curtas-metragens, Um Trailer Americano e A Breve Estória de Cândido Sampaio. Como se não bastasse, a programação encerrou-se com descortesias, vaias, gritos e aplausos propiciados por Apolônio Brasil - Campeão da Alegria e seu diretor Hugo Carvana.
Irritado com o fato de que seu filme seria exibido para uma "parca platéia" - os cerca de 600 abnegados que resistiram até às 23h20, quando o segundo longa começou - e "acostumado com a desorganização brasileira", Carvana subiu ao palco torcendo para que Apolônio Brasil fosse bom o suficiente para segurar as pessoas. E disparou: "Espero que um dia Recife aprenda a fazer um festival de cinema". Apupos imediatos rebateram a atitude deselegante do diretor, que, claro, tinha motivo para reclamar do atraso, mas não de peitar uma platéia conhecida por sua vibração. "Cala a boca, globalizado", berraram uns. "Velho reacionário", bradaram outros.
A saia-justa armou o público contra o enredo calcado nas chanchadas e musicais de outrora, em que Apolônio (Marco Nanini, mostrando versatilidade e competência habituais) sai do orfanato para virar pianista da noite carioca e hoje, já morto, é rememorado pelos amigos e pesquisado por um cientista americano (último papel de José Lewgoy no cinema). Ao longo das 2h de projeção, no entanto, o jogo virou. Apolônio Brasil é divertido, tem boas atuações (os "esquecidos" Sylvia Bandeira, Antonio Pedro e Louise Cardoso) e não nega a fonte "atlântidal" da qual brotou. Se tivesse vinte minutos e algumas gags a menos e um final não tão paspalhão e previsível, ficaria à altura de seu melhor momento, a seqüência em que ummilitar ingere LSD, aplaudida em cena aberta pelos pernambucano numa espécie de reconciliação.
Tal tratamento de "morde-e-assopra" não foi destinado ao primeiro longa-metragem da noite nem aos três curtas, que não despertaram reações extremadas. Enquanto a brincadeira metalingüística de Um Trailer Americano, de José Eduardo Belmonte, perdeu-se na péssima qualidade do som, a piada final livrou o esquemático A Breve Estória de Cândido Sampaio, do carioca Pedro Carvana, de uma recepção mais fria. Coube ao cearense Águas de Romanza, de Gláucia Soares e Patrícia Baía, o título de surpresa. De longe, era o mais simples bem executado curta de anteontem.
Estréia da atriz Ana Maria Magalhães na direção, Lara, por sua vez, não engrenou. Na vastidão da tela do Guararapes, a história de Odete Lara (defendida com vigor por Christine Fernandes), com seus amores tempestuosos e sua vida perturbada, pareceu dispersa demais para uma platéia impaciente e sem muita disposição para um cinema mais exigente e difícil. Lara nãoé um primor; suas falhas incomodam bastante, em especial a oscilação no ritmo e equívocos como a horrenda música incidental. No entanto, as intepretações honestas e o próprio tema - a vida da mulher que virou musa do Cinema Novo - resgatam o filme, dando-lhe uma espécie de nobreza.
Ao apresentar sua cria, o primeiro filme em disputa na competição de um festival que homenageia a mulher, Ana Maria ressaltou sua "herança sertaneja, com humildade por fora e poder por dentro". O melhor para ela, talvez, tivesse sido exibir seu filme numa sala menor e sem a pressão de se sair bem diante de uma audiência de, no mínimo, mil pessoas. Festival, todavia, é assim mesmo; resta saber se a confusa abertura ditará o rumo do Cine PE.
Programação
HOJE
Ficção 16mm /animação/mostra mulher - 15h
- Mundo Cão (ES)
- Miopia (RS)
- O Limpador de Chaminés (RJ)
- Furos no Sofá (RS)
- O Céu de Iracema (CE)
Ficção 35mm - 19h
- Achados e Perdidos (RJ)
- Alumbramentos (SC)
- No Bar (SP)
- À Margem da Imagem (SP, fora de competição)
- Celeste e Estrela (DF)
DOMINGO
Ficção 16MM /animação/mostra mulher - 15h
- O Metro Quadrado (RJ)
- Mangue e Tal (ES)
- O Lobisomem e o Coronel (DF)
- Rua da Escadinha 162 (CE)
- Choveu, e Daí? (AL)
- Rosas (MA)
- No Coração de Shirley (BA)
Ficção 35mm - 19h
- Tempo de Ira (RJ)
- O Resto é Silêncio (RJ)
- Ofusca (SP)
- Samba Canção (MG)
- Concerto Campestre (RS)