(Atualizado no dia 22/04/2003)
 
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Salgueiro: Prática do ecoturismo no ritmo do Sertão

Cidade cercada pelas serras da Onça e do Cruzeiro destaca sítios arqueológicos

Emanuel Andrade
ESPECIAL PARA O DIARIO

Muita gente torce o nariz quando se fala em fazer turismo no Sertão, principalmente nas cidades onde não existem tantos recursos naturais. No entanto, esquecem das tradições, do casario antigo, prédios institucionais, do folclore, da cultura popular, dos personagens que se destacam na arte popular mas que vivem meio que no anonimato. De alguma forma servem de ícones para montar a origem e a história de sua gente.

O município de Salgueiro completa no próximo dia 30, 139 anos de emancipação política. Se não foi cenário de fatos que marcaram a história do Brasil, serviu de trilha para a passagem de figuras como Virgulino Ferreira (Lampião), acomodou personagens do coronelismo, sediou a primeira reunião responsável pela criação da Sudene e ainda guarda os vestígios de trechos da ferrovia pernambucana.

Com pouco mais de 60 mil habitantes, o município sedia as principais manifestações culturais e religiosas do interior, sendo o portal de entrada para os visitantes que sempre no mês de julho chegam para participar da famosa Missa do Vaqueiro, no Sítio Lajes, localizado na vizinha Serrita. Quem optar por conhecer prédios históricos com 50 anos e até um século de existência, pode começar pela Igreja Matriz de Santo Antônio, construída(a primeira versão) por uma familia do século passado em virtude de uma promessa caso fosse encontrado um garoto de 3 anos, filho de um coronel que servia à Guarda Nacional. O fato ocorreu em 1835, quando o menino desapareceu na caatinga e dias depois acabou sendo encontrado por um grupo de vaqueiros.

cultura - A pouco metros está o imponente prédio de dois andares da Casa da Cultura, construído pelo então coronel Veremundo Soares, um dos bandeirantes responsável pela chegada da agroindústria e das antigas fábricas da região. O prédio funcionou como filial de bancos financeiros da capital, quando ainda não existiam agências no interior. Até meados da década de 70 abrigou a maior loja de varejo da região, onde se podia encontrar desde a seda pura à brilhantina e os brinquedos da estrela. Hoje, a casa situada no centro comercial acomoda os trabalhos de artesãos e artistas da terra.

Às margens do Açude Velho, pode-se ver o prédio da primeira cadeia pública do sertão, com quase um século de existência. Desde que foi desativado, passou por uma reforma para dar espaço ao museu da cidade. Por problemas de infiltração, a Prefeitura está transferindo a unidade para o primeiro andar da casa da Cultura. Na rota dos casarões sertanejos, a avenida Agamenon Magalhães esbanja o luxuoso Chalé Vila Maria, construído na década de 20, sob a idéia de Veremundo Soares para receber convidados ilustres. Por lá, passaram como hóspedes os ex-governadores de Pernambuco, Agamenom Magalhães, e de São Paulo, Ademar de Barros(SP), Dom Avelar Brandão Vilela o rei do Baião Luiz Gonzaga.

É só atravessar a pista e do outro lado está a residência do famoso carnavalesco, alfaiate, seresteiro e artista plástico Mestre Jaime, o criador da troça A Bichara. Se não for época de carnaval, quando está debruçado sobre asmáscaras de papelão, ele pode ser flagrado tirando acordes de seu inseparável clarinete. Distante 15 quilômetros da área urbana, outra moradia tida como parada turística é a fazenda do vaqueiro e artesão Zé do Mestre, na comunidade de Cacimbinha. Lá funciona uma oficina-escola voltada para jovens que aprendem a fazer vestimentas de vaqueiro que também são comercializadas. É só pedir e o anfitrião entoa os tradicionais aboios da caatinga para chamar o gado.

ECOTURISMO- Andar pela caatinga do Sertão pode não ser tão agradável devido ao sol escaldante, mas é só colocar protetor solar e seguir as trilhas que começam a despertar a prática do ecoturismo, sem dúvida, com alguns atrativos. A cidade é cercada pela Serra da Onça, Serrote da Mutuca, Boi Moreto e Serra do Cruzeiro. Na área rural, há sítios arqueológicos, o maior deles situado na comunidade quilombola de Conceição das Crioulas, onde foram encontrados fósseis de uma preguiça gigante provovalente datadas de 10 mil anos atrás. A primeira parada pode ser na Serra das Letras, onde há uma lagoa de água cristalina contornada por pedras com inscrições e gráficos rupustres, talvez de origem indígena e que até então ainda não foram identificadas.

O local desperta a curiosidade dos visitantes também pelo fato de remontar parte da história do Padre Cícero do Juazeiro. Não por acaso, o religioso chegou a se refugiar numa fazenda próximo à Serra durante seis meses quando passou a sofrer perseguições no Ceará. Os donos da propriedade eram dois irmãos que chegaram a brigar por causa do episódio. Mas foi na fazenda que Padre Cícero conquistou o apoio de admiradores e juntou dinheiro para cumprir sua viagem com destino à Roma na tentativa de se defender junto ao Papa. Outras curiosidades, podem ser vistas nas comunidades circunvizinhas, onde moradores mantém a tradição das famosas rezadeiras e do uso de plantas medicinais para a cura de muitas doenças.

Mais próxima da área urbana, com cerca de 300 degraus, está a Serra do Cruzeiro que pode não ser um atrativo turístico, mas sempre atraiu seguidores católicos que com ou sem procissões, vão cumprir suas promessas ao pé da cruz que fica no topo da montanha. De vez em quando, os esportistas mandan ver a adrenalina, a exemplo dos jovens que formam a equipe do Bike Trial e em busca de novos títulos sobem as escadarias fazendo mil e uma acrobacias em suas bicicletas.


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