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Pesquisa revela crescimento da automedicação
OFTALMOLOGIA
Depois de queimar os olhos enquanto realizava uma soldagem, em agosto do ano passado, o metalúrgico Wálder Domingos de Lima achava que estaria resolvendo o problema ao comprar um colírio anestésico na farmácia, sem receita mesmo. Mas não foi isso que aconteceu. Além de não curar o mal, o tratamento por pouco não causa uma tragédia maior. "O medicamento provocou um efeito muito grave na córnea. Ele poderia ter ficado cego", atesta o oftalmologista Alexandre Ventura, que atendeu Wálder quando ele finalmente se convenceu de que deveria procurar um médico.
O caso de Wálder demonstra bem o quanto pode ser perigosa a automedicação, na qual as vítimas de uma doença qualquer evitam o atendimento de um especialista e acabam adotando um tratamento por conta própria ou baseado na indicação de outras pessoas. Apesar de seus efeitos graves, a prática ainda é adotada pela maioria das vítimas de doenças oculares em Pernambuco. O estudo Automedicação Ocular em Pernambuco-Brasil, realizado por um grupo de quatro oftalmologistas da Fundação Altino Ventura, apontou um índice de 80,5% de prática de automedicação entre os pacientes atendidos na emergência do hospital Hope entre os meses de janeiro e junho de 2001.
Primeiro levantamento sobre o assunto no Estado, a pesquisa colheu dados entre 940 pacientes do hospital, relacionando apenas aqueles que já chegavam ao atendimento após terem sido submetidos a algum tipo de medicação, um universo de 442 pessoas, ou 47% do total. Destas, 302, ou 68,3%, adotaram medicação por conta própria. Outras 54 (12,2%) usaram remédios indicados por amigos ou parentes. Apenas 86 (19,4%) haviam usado medicação receitada por médicos.
Demora - Orientador da pesquisa, o oftalmologista André Araújo lembra que os riscos mais comuns da automedicação residem no fato de que o verdadeiro tratamento para a doença, quando o paciente insiste em tomar remédios que não foram receitados, será adiado. "Muitas vezes, a medicação acaba mascarando o diagnóstico e os médicos têm dificuldade em identificar a origem doproblema. Isso atrasa o tratamento e acaba agravando o quadro", disse Araújo.
Mas os efeitos mais graves, de acordo com os médicos, são provocados pelo próprio medicamento, quando tomado de forma errada, sem estarem necessariamente ligados à doença original. "Os colírios à base de corticóides, por exemplo, quando usados durante muito tempo, podem provocar um aumento da pressão ocular e acabar causando um glaucoma no paciente", ilustra. Outra armadilha da automedicação, de acordo com ele, é o desenvolvimento de resistência a antibióticos, quando os medicamentos são tomados por um período além do necessário.
O trabalho será enviado também ao Ministério da Saúde, com a finalidade de se obter um maior rigor na venda de medicamentos para saúde ocular. "A solução mais prática é passar a exercer um controle e uma fiscalização maiores nas farmácias, garantindo que esses medicamentos sejam vendidos apenas com a apresentação de receitas controladas", recomenda Araújo, lembrando que o estudo também recomenda o desenvolvimento de campanhas educativas.
Para ele, as causas da automedicação estão diretamente relacionadas ao esclarecimento da população. "Apenas 76, o que representa 17% dos pacientes que receberam medicação, possuíam curso superior. A grande maioria ficava abaixo desse nível de estudo", explica o médico.
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