Brasil Total, projeto de regionalização envolvendo Regina Casé e Guel Arraes, fez sua estréia no Fantástico
Quem assistiu à reportagem sobre a moda brega paraense, domingo passado no Fantástico, deve ter observado que a variedade cultural brasileira ocupou espaço na telinha. Sotaques e formas de olhar variados, característicos de cada um dos mais recônditos lugares. É o Brasil Total, projeto de regionalização idealizado pelo diretor Guel Arraes, pela atriz Regina Casé e pelo antropólogo Hermano Vianna. O trio teve a idéia há oito anos, quando viajava gravando o Brasil Legal.
"Nós víamos que havia profissionais de TV e produtores independentes em cada lugar pensando televisão, e que o pessoal das afiliadas estava pouco representado em rede nacional", conta Hermano. "Depois que terminou o Brasil Legal, começamos a nos reunir para pensar o futuro, o que a gente queria fazer e quais os caminhos que a televisão brasileira estava tomando. Então surgiu a questão de como fazer uma TV no Brasil que aliasse o popular e a qualidade".
E há algo mais popular do que a reportagem de um grupo de teatro de lavradores da fronteira do Ceará com o Rio Grande do Norte, totalmente produzida por um grupo de profissionais formado dentro da TV Cabuji, afiliada da Rede Globo? Haverá ainda outra sobre chouriço, feita pela mesma equipe. "Não acredito que popular seja sinônimo de falta de qualidade. Quem pensa que a TV está ruim porque está mais popular está errado", destaca Regina. "É importante as pessoas verem o Brasil Total não como um quadro, mas como um projeto. Não vai ganhar só quem faz, mas também quem assiste. Porque ver sempre a mesma coisa empobrece".
Para Hermano Vianna, quando o Brasil todo estiver produzindo, a televisão vai dar um salto de qualidade. Segundo ele, a idéia é formar uma rede de equipes no Brasil para colaborar e produzir para todos os programas da grade da Globo: "A gente não quer criar um programa específico. Quanto mais forem produzidas reportagens com linguagens específicas de programas diferentes, mais essas pessoas vão trabalhar e vão ter a oportunidade de ver essas informações circulando na televisão emtodo país".
As reportagens em formato documental serão só o início. No futuro, a expectativa é de investir também em dramaturgia, em quadros como Homem Objeto, e conquistar espaços.
A realização de cada reportagem é sempre acompanhada por um dos três idealizadores do projeto e por algum tipo de profissional, como editor de corte, que a afiliada não disponha. Mas as equipes regionais têm total autonomia para realizarem seu trabalho. Qualquer sugestão de fora é negociada com diálogo. O importante é não descaracterizar a região. "No jornalismo, há uma padronização e é interessante a pessoa não interferir na reportagem, só mostrar o que está acontecendo e ser o mais neutro possível. Queremos pessoas que interfiram, que dêem sua opinião. O padrão desejado é aquele que a Regina criou", explica o antropólogo.
Não é por entrarem no projeto que as reportagens vão se tornar exclusivas. A sobre chouriço, por exemplo, ganhará uma versão de 40 minutos para ser exibida no Pará. Segundo Vianna, não é uma mão única:"A gente quer é incentivar a produção local. O máximo vai ser quando a gente receber a idéia de programa que possa entrar em rede nacional semanalmente, todo feito pelas pessoas de lá".