Lula é impedido de acenar para o povo pela bursite e a população vaia o nome do prefeito da cidade
O município de Abreu e Lima parou no final da tarde de ontem para receber os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez. Pelos cálculos do comando do Batalhão de Choque da Polícia Militar, cerca de cinco mil pessoas foram até a praça São José acompanhar a inauguração dos bustos em homenagem ao pernambucano José Ignácio de Abreu e Lima e ao venezuelano Simón Bolívar, generais que lutaram juntos pela independência de vários países da América do Sul no século XIX.
Prevista para começar às 16h, a cerimônia sofreu um atraso de 1h30. A demora se mostrou ironicamente providencial. Por volta das 15h30, apenas 1,5 mil pessoas estavam na praça. Uma hora antes, não havia mais que 300 espectadores. Lula e Chávez, acompanhados pelo governador Jarbas Vasconcelos, ministros, prefeitos e parlamentares, chegaram à praça às 17h32. Bastante aplaudido, o presidente brasileiro só acenou uma vez para o público presente.
As dores provocadas pela bursite que o acompanha há anos não permitiram um segundo aceno. Depois dos presidentes descerrarem os bustos - o de Abreu e Lima estava coberto pela bandeira brasileira e o de Bolívar, pela venezuelana - Lula foi o primeiro a discursar. Chamou Hugo Chávez de irmão e pediu uma salva de palmas para o colega presidente. Foi atendido. Já o prefeito de Abreu e Lima, Jerônimo Gadelha (PDT), ouviu vaias da população quando teve o nome citado.
Diferente dos discursos que costuma fazer em público, apoiados no improviso, Lula optou por trazer um texto pronto. Agradeceu a comparação entre ele e o general pernambucano, feita por Chávez em janeiro durante a posse em Brasília. Num discurso de pouco mais de cinco minutos, Lula aproveitou para contar um pouco da história do general Abreu e Lima, defensor dos princípios de liberdade religiosa e política. O clima histórico acabou contagiando Hugo Chávez em sua vez de falar.
Admiração - Depois de dar boa noite a "todos os homens, as mulheres e crianças de Abreu e Lima" e dizer que estava lá com um grande sentimento de fraternidade e profunda admiração pelo povo brasileiro e pernambucano, o presidente da Venezuela falou por 15 minutos sobre Bolívar, herói de mais de 200 batalhas, e sua parceria com Abreu e Lima. Além de confirmar (pelo discurso prolongado) que é adepto do estilo Fidel Castro, Chávez lembrou também que era a segunda vez em dois anos que visitava Pernambuco. Em 2001, o presidente conheceu o cemitério dos ingleses, no Recife.
Hinos nacionais executados, Lula seguiu rápido para o próximo compromisso, um jantar com empresários brasileiros e venezuelanos, sem falar com a Imprensa. Os ministros da comitiva também não quiseram conversa. O da Saúde, Humberto Costa, limitou-se a gesticular para os repórteres, alegando que falaria em outra oportunidade. Hugo Chávez ficou um pouco mais e até deu alguns autógrafos, prolongando o clima de festa. Nem ele nem Lula viram a faixa colocada pelos trabalhadores rurais da Mata Norte, denunciando a poluição das águas e a destruição das lavouras por empresários da região.