Desrespeito sem fim
Fernando Calmon
E-mail: fernandocalmon@usa.net
Está completando exatamente um ano uma boa idéia, que não saiu do papel. Trata-se da adoção de um transponder nos veículos com a finalidade de facilitar, nos bloqueios policiais, a identificação daqueles roubados ou irregulares. O dispositivo, um microchip, emite ondas de radiofreqüência, captadas em até 20 metros de distância, que informam dados como números de chassi, motor, modelo, cor e outras referências. Desta forma, a fiscalização seria mais rápida e segura, além de checar se o imposto anual e o licenciamento foram, de fato, pagos.
Quando se anunciaram os estudos pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), a intenção era concluí-los em 45 dias e iniciar a aplicação em veículos novos a partir de agosto do ano passado. O sistema já está em uso na França, onde o preço para produção em massa fica em torno de 5 dólares e o aparelho de leitura eletrônica remota, na faixa de 80 dólares. O chip seria opcional para a frota de usados, num primeiro momento, e no futuro estendido a todos os veículos em circulação. Quem possuísse carro regularizado teria um incômodo a menos e, em longo prazo, até o seguro contra roubo e furto poderia custar menos.
Infelizmente a iniciativa não caminhou como deveria. Houve uma oposição velada da Anfavea, associação dos fabricantes, pois estes teriam de repassar o custo para o preço final num clima de vendas difíceis. Os Detrans, por sua vez, apoiavam inicialmente a proposta ao estimar que mais de um terço dos proprietários são inadimplentes ou simplesmente não pagam taxas e multas. Aí, com certeza, pode ter pesado o clima pré-eleitoral e a eterna "solução" de empurrar a irregularidade para frente. A maioria dos motoristas paga suas contas em dia e só pode se frustrar.
Outro problema que merece atenção e ficaria resolvido utilizando-se em massa os microchips, seria o da frota circulante de cerca de 5 milhões de veículos com a numeração de motor irregular. Isso decorre das trocas de blocos por novos ou recondicionados, além de casos em que não há nem mesmo numeração gravada de fábrica ou que foi danificada e até apagada por desmanches clandestinos. Existem, desde 1999, procedimentos legais para a substituição de motores, mas por desleixo ou temor da burocracia acabam sendo descumpridos. Empresas que retificam ou recondicionam cerca de um milhão de unidades por ano se queixam de processos na Justiça por aplicação de motores roubados, sem ter como contornar as falhas estruturais do sistema.
O Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores) precisa ser aperfeiçoado quanto à informação e atualização, mas depende de um Denatran realmente eficiente. Já se fez algo correto, transferindo-o do Ministério da Justiça para o novo Ministério das Cidades. Inexiste, porém, um quadro próprio de técnicos e muito menos continuidade administrativa. Os coordenadores estão nomeados e não assumiram os cargos até agora.
O episódio dos microchips esquecidos é mais um entre vários que clamam por soluções, entre eles o funcionamento regular das câmaras temáticas e das juntas de julgamento de recursos contramultas. Por tudo que o automóvel sustenta na pesada máquina administrativa, nos três níveis de governo, torna-se um desrespeito inadmissível. E que parece não ter fim.
Concentração de lançamentos, em pouco mais de uma semana, impressiona: Peugeot 307 SW, Audi A8, Honda Fit, Citroën C3 e Chevrolet Omega. Trata-se apenas de coincidências causadas por sucessivos atrasos industriais, à exceção do Fit, planejado com a reconhecida meticulosidade japonesa. Poucas vezes a agenda da Imprensa ficou tão apertada.
Desafios que estão sendo exigidos dos fabricantes até o final da década no mundo inteiro: compradores exigem mais equipamentos e novos recursos de segurança e conforto, mas não querem pagar um centavo a mais. Os departamentos de engenharia terão de se desdobrar para manter os custos sob controle, segundo Jim Padilla, presidente da Ford para Operações na América do Norte.
Depois da eleição presidencial na Argentina, em maio, provavelmente a Renault anunciará a produção do novo Mégane II, na fábrica de Córdoba. Apesar da crise profunda em toda a indústria do país vizinho, não há sinais de nenhuma retirada de cena. Para a marca francesa, líder do mercado local, será a resposta ao Peugeot 307. O Mégane II tem uma traseira de estilo bastante discutível.
Programa de peças genéricas mais baratas lançado pela Fenabrave, federação das concessionárias, não decolou. Idéia de oferecer peças compradas diretamente da indústria de autopeças, sem passar pelos fabricantes de veículos, precisaria ter sido mais bem amadurecida. Soluções caseiras, mesmo as bem-intencionadas, às vezes batem de frente com investimentos interligados globalmente.
Furto de placas dianteiras vem-se alastrando. Os gatunos as colocam sobre a placa traseira original de outro veículo, de mesma marca e modelo, para escapar das multas de radares e controles de semáforos. Logo ao notar a ausência da placa dianteira, deve-se providenciar um boletim de ocorrência, além de comunicar o furto ao Detran, numa tentativa de evitar aborrecimentos futuros.