Edição de Terça-Feira, 22 de Abril de 2003
 
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Estado de transe para purificação

Chapéus para os mestres que vão incorporar, cachimbos para limpeza, bebidas e imagens esculpidas em barro são alguns dos objetos e elementos utilizados nos rituais da Jurema. Enfileirados em duas prateleiras, no quarto do terreiro, estão taças de vidro cheias d'água. As sete de cima são mais compridas e representam os príncipes, ou mestres, da Jurema. As sete de baixo são menores e representam as princesas. São muitos os símbolos e complexas suas funções. Trancado na maior parte do tempo, o pequeno espaço é aberto pelo menos uma vez na semana para consultas do mestre espiritual, que incorpora no juremeiro, com o público em geral, filhos-de-santo ou não.

  É nesse estado de transe que ele mistura os elementos e prepara a bebida da Jurema, uma espécie de vinho, feito a partir da infusão da entrecasca ou mesmo da raiz da planta, e que para muitos tem efeito alucinógeno. O mestre nem sempre receita a bebida, que é mais utilizada nos casos de iniciação de um filho-de-santo na Jurema. Em seus encontros, é mais comum ouvir problemas do dia-a-dia e receitar soluções. São comuns os pedidos de separação ou união conjugal, melhora no trabalho, mais dinheiro, recuperação de um doente, etc. É nesse ponto que a Jurema praticada hoje no Brasil se mistura à Umbanda.

  Como parte de uma rica e complexa cultura indígena, que de forma geral sofreu aculturação a partir da colonização, a religião dos índios, cultuada antes mesmo do descobrimento do Brasil, também não podia ser mais a mesma.

  Mãe Eugênia diz que uma das funções do workshop será esclarecer essa incorporação da Jurema pela Umbanda, religião formada no Brasil por uma seleção de valores doutrinários e rituais, feitos a partir da fusão de cultos africanos congo-angola, com a Pajelança (um primeiro tipo de candomblé de caboclo), sofrendo ainda influências do catolicismo e do espiritismo (com muitas contestações de praticantes e estudiosos, é claro), "Há muitas formas de ver a Jurema, ela, no entanto, tem origem ameríndia e era usada em todos os rituais indígenas para cura e também contato com seus antepassados", opina a ialorixá.

  Segundo seus conhecimentos sobre o ritual, a Jurema é entendida como planta sagrada da qual se prepara a bebida igualmente com poderes sobrenaturais - era utilizada originalmente pelos Pajés das tribos nos seus rituais, e oferecidas diretamente aos seus discípulos. Ainda hoje a Jurema preserva essa não hierarquização, diferente do Candomblé, por exemplo, onde os papéis estão bastantes definidos. O segredo com relação à preparação da bebida, esse sim, ainda é desconhecido até mesmo pelos praticantes. "A bebida é feita a partir de uma infusão da planta com uma bebida, vira uma espécie de vinho, a partir daí há a transubstanciação, que é a transformação da substância num elemento sagrado, capaz de despertar no adepto a possibilidade de comunicação com a espiritualidade", explica a mãe-de-santo.

INICIAÇÃO - De um modo geral, a bebida só é tomada nos rituais de iniciação, que também diferem de acordo com o terreiro onde está sendo praticado. No passado, era comum que o mestre espiritual, num momento invisível (assim como acontece em determinados rituais espíritas) visitasse o iniciado e aplicasse nele, também no plano espiritual, uma semente da planta. Hoje em dia, coloca-se a semente materialmente, a partir de uma incisão no corpo da pessoa, por onde entra o líquido sagrado. Uma vez iniciado, o discípulo está preparado para receber os mestres da Jurema. É aí onde as duas religiões, Umbanda e Jurema, se encontram. Segundo alguns juremeiros, mestres originários desta tradição já não mais descem, incorporam nos humanos. São eles, Mestre Carlos, Maria do Acais, Manoel Caclete, Iracema, Tertuliano, entre outros. A explicação é que seus espíritos alcançaram uma desenvoltura que não os permitem mais baixarem nesse plano.

  Hoje, sobretudo a partir da prática da Jurema por iniciados na Umbanda, é comum assistir em sessões de Jurema, a chegada de mestres tais como Malunguinho, Mestre Carlos, Zé Pilintra (entre outros "Zés"), Rozinha, Paulina, entre outras mestres, cultuadas na Umbanda. A miscigenação das religiões acontece também no plano musical. A maraca e, provavelmente, o toré (dança indígena marcada pela pisada) eram os instrumentos que provavelmente faziam as marcações originais da Jurema, quando praticada nas tribos. Hoje, os cânticos são fornecidos pelos mestres e tornaram-se de domínio público.


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