Babalorixás, ialorixás e teóricos da religiosidade brasileira vão discutir a Jurema Sagrada
Michelle de Assumpção
DA EQUIPE DO DIARIO
A religião que descende da cultura africana e indígena
no Brasil sempre foi cercada de mistérios e, por isso mesmo, preconceitos.
Mesmo entre os praticantes dos cultos e rituais religiosos há crendices
e superstições, geradas pelo desconhecimento dos temas. Numa conversa
entre leigos, assuntos como Xangô, Catimbó e Candomblé, por exemplo,
podem vir a significar a mesma coisa. Na verdade, cada prática tem sua
origem, seus cultos próprios, funções, músicas, etc. É difícil, no entanto,
ainda hoje, encontrarmos líderes religiosos, responsáveis por cada uma
dessas religiões, dispostos a explicá-las um pouco mais.
A Jurema Sagrada, originalmente indígena e posteriormente incorporada
aos cultos africanos no Brasil, é um exemplo de religião que hoje desperta
controvérsias entre seus próprios praticantes. Para um importante terreiro
do Recife, o Centro Espírita Pai Canindé - Ilê Axé Oyá Bery -, nos diversos
templos que praticam o culto à Jurema, há divergências que merecem ser
esclarecidas. Com isso, teremos um fatotalvez inédito nos terreiros
do Recife. Pela primeira vez, um deles abre suas portas para a realização
de um workshop de Jurema Sagrada.
Eugênia Chang, a mãe-de-santo do centro Pai Canindé, explica que o
terreiro sempre preocupou-se com os estudos voltados à religião e acha
ser necessário o aprofundamento sobre conhecimentos ligados às práticas
que realizam. "A religião precisa ser cada vez mais conhecida pelos
adeptos e pelo público em geral", diz Eugênia. O workshop idealizado
por ela acontece dias 25, 26 e 27 deste mês, e contará com palestras
de pessoas ligadas ao tema. Babalorixás, Ialorixás, mestres juremeiros,
acadêmicos e representantes de instituições que trabalham com a cultura
e a religiosidade brasileira participam do evento, que tem como público
principal os não-iniciados na Jurema.
Segundo mãe Eugênia, o objetivo é que os próprios praticantes, após
o workshop, enriqueçam seus conceitos à respeito da Jurema, já que divergem
uns dos outros tanto na teoria quanto na prática da religião. No centro
onde está sendo oferecido o workshop, a Jurema é praticada pelo mestre
Edson Pessoa, que confirma a falta de unidade entre os mestres. Segundo
ele, cada um tem sua própria ciência. Conversar com mestre Edson é sentir
um pouco o que os não praticantes da religião sentem ao entrarem em
contato com os rituais afro-indígenas de uma forma geral. As explicações
são insuficientes, tendem à abstração, e nos deixam sob uma aura de
mistério. "Tem muito segredo, a raiz tem um segredo, o caule tem outro,
a folha, os minérios", diz ele, enumerando parte do material que é guardado
no quarto onde funciona uma espécie de altar para o culto da Jurema.
Comentários dos leitores
"Excelente matéria. Muito boa abordagem. Pauta curisosa.
Parabéns, Michelle e equipe.", Edna Nunes, por e-mail.