Edição de Terça-Feira, 22 de Abril de 2003
 
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Terreiro abre portas para um inédito workshop

Babalorixás, ialorixás e teóricos da religiosidade brasileira vão discutir a Jurema Sagrada

Michelle de Assumpção
DA EQUIPE DO DIARIO

A religião que descende da cultura africana e indígena no Brasil sempre foi cercada de mistérios e, por isso mesmo, preconceitos. Mesmo entre os praticantes dos cultos e rituais religiosos há crendices e superstições, geradas pelo desconhecimento dos temas. Numa conversa entre leigos, assuntos como Xangô, Catimbó e Candomblé, por exemplo, podem vir a significar a mesma coisa. Na verdade, cada prática tem sua origem, seus cultos próprios, funções, músicas, etc. É difícil, no entanto, ainda hoje, encontrarmos líderes religiosos, responsáveis por cada uma dessas religiões, dispostos a explicá-las um pouco mais.

  A Jurema Sagrada, originalmente indígena e posteriormente incorporada aos cultos africanos no Brasil, é um exemplo de religião que hoje desperta controvérsias entre seus próprios praticantes. Para um importante terreiro do Recife, o Centro Espírita Pai Canindé - Ilê Axé Oyá Bery -, nos diversos templos que praticam o culto à Jurema, há divergências que merecem ser esclarecidas. Com isso, teremos um fatotalvez inédito nos terreiros do Recife. Pela primeira vez, um deles abre suas portas para a realização de um workshop de Jurema Sagrada.

  Eugênia Chang, a mãe-de-santo do centro Pai Canindé, explica que o terreiro sempre preocupou-se com os estudos voltados à religião e acha ser necessário o aprofundamento sobre conhecimentos ligados às práticas que realizam. "A religião precisa ser cada vez mais conhecida pelos adeptos e pelo público em geral", diz Eugênia. O workshop idealizado por ela acontece dias 25, 26 e 27 deste mês, e contará com palestras de pessoas ligadas ao tema. Babalorixás, Ialorixás, mestres juremeiros, acadêmicos e representantes de instituições que trabalham com a cultura e a religiosidade brasileira participam do evento, que tem como público principal os não-iniciados na Jurema.

  Segundo mãe Eugênia, o objetivo é que os próprios praticantes, após o workshop, enriqueçam seus conceitos à respeito da Jurema, já que divergem uns dos outros tanto na teoria quanto na prática da religião. No centro onde está sendo oferecido o workshop, a Jurema é praticada pelo mestre Edson Pessoa, que confirma a falta de unidade entre os mestres. Segundo ele, cada um tem sua própria ciência. Conversar com mestre Edson é sentir um pouco o que os não praticantes da religião sentem ao entrarem em contato com os rituais afro-indígenas de uma forma geral. As explicações são insuficientes, tendem à abstração, e nos deixam sob uma aura de mistério. "Tem muito segredo, a raiz tem um segredo, o caule tem outro, a folha, os minérios", diz ele, enumerando parte do material que é guardado no quarto onde funciona uma espécie de altar para o culto da Jurema.

Comentários dos leitores

"Excelente matéria. Muito boa abordagem. Pauta curisosa. Parabéns, Michelle e equipe.", Edna Nunes, por e-mail.


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