Durante sua breve passagem pelo Estado, atriz mostrou porque incomoda o establishment de Hollywood
Luciana Veras
DA EQUIPE DO DIARIO
Na semana passada, Olinda vivenciou tudo que é possível conceber sobre a rápida visita de uma celebridade hollywoodiana: a incredulidade inicial; o corre-corre nas redações; a agonia antes da confirmação; a negociação com os produtores; o frisson; e o auge. Em quatro dias, Susan Sarandon, atriz de filmes memoráveis como The Rocky Horror Picture Show, As Bruxas de Eastwick, Thelma e Louise e Os Últimos Passos de um Homem, e embaixadora do Unicef, alterou o cotidiano das crianças atendidas pelo Projeto Meio Ambiente e Cidadania, sacudiu a rotina dos repórteres e, não poderia ser diferente, tornou-se o assunto do dia, do mês, quiçá do ano.
Concedida na tarde da quarta-feira, a breve entrevista coletiva dada pela mulher do ator Tim Robbins, com quem forma talvez o mais politizado e ativista casal de atores ianques, transformou-se na única concessão da estrela à mídia. Cercada por um esquema de segurança que pretendia deixá-la no anonimato, Susan só interrompeu suas atividades de hostess do documentário What's Going On - capítulo do programa UN Works, da ONU, sobre erradicação do trabalho infantil - por pouco mais de meia hora. Só aí, um dia depois de gravar no lixão de Aguazinha, ela posou para os fotógrafos distribuindo brindes com a gurizada e presentes para Eleandra Cristina, a menina com quem contracenou no vídeo, e falou com os jornalistas.
Não foi difícil constatar por que Susan é quem ela é em Hollywood - engajada, segura, disposta a expressar suas opiniões sobre temas delicados como guerra e boicotes. Respondeu a tudo que lhe foi proposto, da causa que abraçou às tensas relações no país governado por George W. Bush, lamentou que não viu Cidade de Deus ou teve tempo de conhecer as praias brasileiras ("sou amiga de Amy Irving, então já ouvi falar e muito das praias daqui") e repudiou a caça às bruxas neomacarthista que ela e outros vêm sofrendo. Leia os principais trechos da entrevista.
Hollywood e a guerra
"Como Hollywood está lidando com a guerra? Bem, logo no início uma coisa estranha aconteceu. Nosso presidente, o boy George, deixou bem claro que ou você estava com ele, ou estava contra ele. E isso deu o tom. Qualquer um que questionasse algo era anti-americano. Quando a guerra de fato começou, quem fizesse perguntas estaria pondo as tropas em perigos. Houve muita coisa negativa, passaram a rotular pessoas como eu de anti-americana. É muito doloroso ter alguém lhe chamando de anti-americano".
Retaliações
"Tim e eu estávamos escalados para celebrar o aniversário de Bull Durham (Sorte no Amor) no Hall of Fame. Recebemos uma carta do homem que dirige o Hall of Fame, um republicano de verdade. Era uma carta amarga e bem específica, dizendo que nós estávamos colocando as tropas em perigo, que tínhamos responsabilidades com o presidente e com o país e cancelando o aniversário do filme. O quer que pensem de nós, beisebol é um esporte muito americano e o que é maravilhoso é que vocêpode assistir ao jogo e estar sentado ao lado de uma pessoa que pensa politicamente diferente de você e os dois podem estar torcendo para o mesmo time. Isso é o que o torna grande, é o que torna a América grande. E a ironia é que estamos lutando pelo Iraque, para dar liberdade aos iraquianos, e ao mesmo tempo estamos perdendo a nossa liberdade".
Contra-ataque
"Decidimos então que não deixaríamos isso passar em vão. Começamos a telefonar, a deixar as pessoas saberem o que tinha acontecido. Houve um retorno enorme. Os sindicatos dos atores e dos roteiristas se pronunciaram, o New York Times escreveu editoriais, os LA Times também. Nesse sentido, foi bom porque as pessoas disseram que não toleraríam essa postura. Tim tem ido aos talk shows diurnos, recentemente ele esteve no Press Club em Washington. Clint Eastwood, que é republicano e pró-guerra, e Kevin Costner, que também é, nos apoiaram. Me senti menos solitária quanto todos começaram a defender o nosso direito de liberdade de expressão. Afinal, nãose pode cancelar um evento por causa da política".
Mídia
"O problema é a imprensa. Os jornais são propriedade de poucas pessoas e o jeito que eles vêm cobrindo a guerra é uma versão muito asséptica do conflito. Se você sai dos Estados Unidos e vê os noticiários, percebe que é muito diferente e que o povo americano tem uma visão muito específica das informações. Mas não há como culpar o povo, porque a eles está sendo dito isso, eles estão vendo isso e não tem como saber mais."
O Oscar e o medo
"Até agora tem havido muito medo de falar, de se pronunciar, da repercussão. No Oscar, as pessoas estavam com medo de usar o broche da pomba da paz. No entanto, o Oscar não disse a ninguém para não falar. As pessoas estão com tanto medo que estão se auto-censurando. Não é necessário dizer as pessoas para se calarem quando o nome delas, no minuto em que dizem algo, entra numa lista e os jornais começam a dizer para o público não assistir a seus filmes. Ou ainda quando eu pego o jornal e há uma foto minha com alegenda "traidora", outras pessoas vêem isso e elas não vão abrir a boca. É isso que tem acontecido comigo, com George Clooney, Barbra Streisand, Michael Moore, o Papa. As pessoas estão com medo de perder trabalhos.
Celebridade
"Provavelmente eu permaneci sã na minha profissão porque usei minha celebridade em vez dela me usar. Não é fácil passar 30 anos nisso e como mulher é particularmente mais difícil. No entanto, de alguma forma sobrevivi todos esses anos. Não tenho explicação. É provável que as coisas que me impediram de enlouquecer foram minha família, meus amigos e o fato de eu, de alguma forma, ter usado minha posição para fazer algo mais do que pegar uma boa mesa no restaurante. Não tenho reclamações de ser uma estrela de cinema ou uma celebridade. Não posso reclamar de nada".
Trabalho infantil
"É um assunto complicado e não só no Brasil. Há várias fazendas nos EUA empregando crianças, há trabalho infantil em todo lugar. Acho que uma razão importante de se olhar para esse assunto no Brasil é que aqui há soluções que estão funcionando. Sei que no México há crianças trabalhando e que lá elas também tentaram o sistema de bolsa-escola, mas não sei se está funcionando lá, por exemplo. Aqui, entendo o quão complicado o assunto é e que as pessoas tem tentado e, pelo que sei, o novo presidente é especial e familiarizado com isso. Sendo assim, provavelmente será um bom tempo de atacar esses problemas. As crianças são o futuro. Se você sacrifica suas crianças, sacrifica seu futuro. É um investimento prático tentar romper esse ciclo. Faz um país melhor educado, mais feliz".