Eleição exótica
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As heterodoxias obsoletas estão presentes nas plataformas de vários candidatos competitivos das eleições argentinas. Se forem cumpidas, podem aprofundar o isolamento argentino. Mas o país continua alheio. Nada, rigorosamente nada, lembra a arrebatadora eleição brasileira
O s argentinos vão às urnas domingo que vem numa disputa presidencial em que as propostas econômicas dos candidatos vão de repúdio à dívida externa, centralização do câmbio e recriação da estatal de petróleo a arrocho fiscal, sistema financeiro multimonetário, enxugamento do papel do Estado. As propostas são pouco convergentes, o debate é fraco, o eleitor está desinteressado.
A última pesquisa do Instituto Mora Y Araújo dá uma pequena vantagem para Carlos Menem, mas mais interessante é olhar a tendência. Nestor Kirchner, candidato do presidente Duhalde, está em segundo lugar, mas em queda: já esteve com 24% e caiu para 16,8%. Ricardo Lopez Murphy surpreende. A curva dele em todas as pesquisas mostra um movimento persistente de alta. Na última, está empatado em segundo lugar, apesar de ter começado como um azarão com 2% das intenções de voto. Lopez Murphy é estreante em política, teve uma passagem curtíssima e polêmica no Ministério da Fazenda, é um economista ortodoxo com um discurso sem qualquer apelo eleitoral visível. Tem chances de ir para o segundo turno com o ex-presidente Carlos Menem, que esteve dez anos no poder.
O economista Fábio Giambiagi, estudioso de Argentina, acha que numa disputa com Menem ele poderia até vencer a eleição. Deve-se ponderar, no entanto, que Menem tem do seu lado a máquina peronista. Por mais dividida que esteja, é uma máquina poderosa que está disputando com três candidatos. Num segundo turno, como se comportará esta máquina? Lopez Murphy tem um partido inventado para disputar estas eleições, partido que consegue a proeza de ter menos experiência que o ARI, de Elisa Carrió.
Entre as esquisitices da eleição argentina está o fato de que os potenciais eleitores de Carrió podem estar indo para Lopez Murphy. Ela é a candidata mais à esquerda e ele o mais à direita. A única razão que poderia explicar tal migração é o voto útil dos adeptos do "que se vayan todos", um sentimento de repúdio aos políticos tradicionais.
Carrió, em junho do ano passado, estava na frente com quase 20%das intenções de voto e hoje está em quinto, com 12,6%. Rodriguez Saá, também peronista como Menem e Kirchner, já esteve em melhor situação: tinha 19% em setembro passado e agora está com 15,1%.
Desatentos, os argentinos estão indo às urnas quase sem debate sobre o que está sendo proposto pelos candidatos. E as diferenças não são pequenas. Menem abandonou a proposta de volta do congelamento do câmbio. Propõe câmbio flutuante. Quer restaurar os contratos e os depósitos em dólar na Argentina. A mesma idéia de Lopez Murphy, que também defende a volta do sistema multimonetário do país, ou seja, o fim de restrições a transações em dólar. Menem e Murphy defendem Banco Central independente. Ambos querem uma renegociação da dívida externa e normalização do diálogo com os credores. A Argentina está em moratória. Menem quer que os credores aceitem um desconto de 40% a 50% na dívida. Murphy não fala em nenhum tipo de calote, apenas propõe que se explicite que a Argentina tem dificuldades de pagar a dívida agora, mas quer pagar. Nenhum dos dois propõe aprofundamento do Mercosul na área monetária.
Kirchner defende a moeda comum do Mercosul e, se for eleito, o atual ministro Roberto Lavagna deve continuar onde está ou ir para a chancelaria. Ex-embaixador no Brasil, Lavagna é defensor do bloco. Rodrigues Saá vai mais adiante e propõe nova moeda do Mercosul o mais breve possível e criação do Banco Central do Mercosul. Os dois defensores do bloco têm propostas de política econômica que se chocam em vários pontos à que tem sido implementada pelo governo Lula. Kirchner quer dar um calote mais pesado na dívida: três anos sem pagar e redução de até 70% no principal. Rodriguez Saá fala em pagar apenas o "montante legítimo da dívida externa" e em divulgação de supostas "cláusulas secretas" do acordo do FMI. Kirchner, que chegou a defender a reestatização das empresas privadas, hoje quer apenas a renegociação dos contratos e revisão das tarifas. Rodriguez Saá defende cancelamento das concessões de empresas privatizadas e promete recriar a estatal de petróleo. Elisa Carrió é a proposta mais radical: quer centralizar o câmbio e voltar a controlar a taxa de câmbio; redução do principal da dívida com bancos e com o FMI com pagamento em 30 anos com três de carência, recriação da estatal do petróleo, revisão dos contratos de exploração com empresas privadas, controle dos preços dos derivados e rescisão dos contratos de concessão de empresas privatizadas.
As heterodoxias obsoletas estão todas presentes nas plataformas de vários candidatos competitivos das eleições argentinas. Se forem cumpridas, podem aprofundar o isolamento argentino. Mas o país continua alheio. Nada, rigorosamente nada, lembra a arrebatadora eleição brasileira.