Empresas brasileiras enfrentam dívidas com fornecedores, atrasam salários e demitem empregados
Tatiana Nascimento
DA EQUIPE DO DIARIO
Na maior crise vivida pela aviação civil mundial, as empresas brasileiras dão sinais de agonia. Os prejuízos são milionários, as dívidas com fornecedores crescem a cada dia, os trabalhadores passaram a conviver com o atraso no pagamento dos salários e o fantasma da demissão. Com maior ou menor intensidade, Varig, TAM e Vasp enfrentam turbulências e derrapam na pista do mercado nacional. Das quatro grandes companhias em operação no País, apenas a novata Gol tem demonstrado estar bem das asas.
O presidente do Instituto do Ar da Universidade Estácio de Sá (RJ), Brigadeiro Mauro Gandra, enxerga a atual situação da aviação civil brasileira com olhos de preocupação. "O grande problema é que as coisas vêm evoluindo apenas para pior. A crise tem vários componentes, da tarifação excessiva à desconexão com a realidade, no caso da Varig", comenta o Brigadeiro, que foi ministro da Aeronáutica no primeiro governo FHC, diretor-geral do Departamento de Aviação Civil (DAC) e presidente do Sindicato das Empresas Aéreas (Snea).
Os problemas começaram em 1989, quando o setor registrou estagnação no volume de passageiros e nos preços das tarifas. Mauro Gandra calcula que, no início dos anos 90, as companhias nacionais perderam cerca de US$ 4 bilhões. A desvalorização do real a partir de 1999 e o ataque terrorista ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001 só fizeram aprofundar a crise. O receio de ver nas outras empresas a repetição da história da Transbrasil fez o Governo federal criar um grupo de trabalho para propor novas regras para o setor.
Para quem não lembra, a Transbrasil está com as atividades paralisadas desde dezembro de 2001, quando não conseguiu mais pagar o combustível usado nas aeronaves. Esta semana, o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, admitiu que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) poderá participar da reorganização do segmento. Enquanto uma possível ajuda financeira não chega, o Comando da Aeronáutica publicou uma portaria determinando que as empresas minimizem o problema do excesso de vôos.
Segundo o Departamento de Aviação Civil (DAC), a oferta atual é 40% superior à demanda. Os primeiros estudos técnicos apontam para a necessidade de redução do número de aeronaves nos grandes aeroportos em pelo menos 10%. Somando as frotas das quatro grandes, há 272 aviões voando em território nacional. O problema é sério. Com o preço salgado dos bilhetes e o aperto no orçamento da classe média, não há passageiros suficientes para ocupar 65% dos assentos das aeronaves, percentual apontado em um relatório do BNDES.
A meta também é apontada pelo Snea para que as companhias se mantenham longe das turbulências. Em março, a média de ocupação na indústria ficou em 57%, segundo dados do DAC. O presidente da Vasp, Wagner Canhedo, também concorda que hoje existe no mercado nacional uma superoferta de aviões. Canhedo afirmou mais de uma vez que, se a oferta não for reduzida, nada mudará no setor. Apesar do belo discurso, a Vasp atrasou os salários de março dos mais de 4 mil funcionários, que agora ameaçam fazer greve a partir desta quarta-feira.
"A situação na Vasp não é ruim como a da Varig. O problema da empresa é sua frota. Como são mais antigos, os aviões consomem muito combustível, onerando os custos da empresa", destaca o Brigadeiro Mauro Gandra. Até a TAM, que vinha apresentando bons resultados durante os últimos anos, sofreu em 2002 com novos incidentes do Fokker-100, precisando substituir parte da frota e fechando o ano com prejuízo de R$ 600 milhões. Nuvem pesadas pairam sobre o setor.