Combustível
Júlia Kacowicz especial para o DIARIO
BELO HORIZONTE - A lembrança que você tem do carro movido a álcool hidratado é de precisar sair mais cedo de casa para esperar o motor "pegar"? Acredite, você não é o único. Mas agora isso pode mudar. A indústria automobilística está disponibilizando um sistema flexível em que veículos movidos a gasolina, álcool ou ainda com os dois combustíveis em um mesmo tanque (multicombustível) funcionam da mesma maneira, ou seja, sem dar problemas. Esses carros estão começando a surgir no mercado sendo chamados de bicombustíveis.
Após o lançamento do Gol 1.6 Total Flex, a Fiat correu atrás para apresentar seu modelo. No funcionamento e aparência, o Palio Fire 1.3 8V não se diferencia em nada do modelo Fire 1.3 a gasolina. A partida, o desempenho e as retomadas não demonstraram alterações em nenhuma combinação de combustível. Assim, a principal vantagem e mudança para o consumidor é o poder de escolha na hora do abastecimento.
No entanto, as montadoras irão precisar investir forte no marketing desses carros, já que a desconfiança em relação ao uso do álcool ainda é grande. Na década de 90 os veículos a álcool chegavam a 5 milhões no Brasil. Hoje, eles representam menos de 2,5 milhões, sendo em grande parte modelos antigos. Muitos motoristas até pensam em trocar o carro por uma versão a álcool quando o preço da gasolina sobe, mas a possibilidade de ficar na mão dos usineiros ainda assusta. Com a opção dos dois combustíveis, quando a turma da cana-de-açúcar resolver jogar o preço do álcool lá para o alto pode-se recorrer a gasolina.
Na hora de abastecer a dificuldade será a necessidade de fazer contas pois movido apenas a álcool o consumo é maior, no caso do Palio, cerca de 30% a mais. Com tanta oscilação no preço (hoje o álcool custa cerca de R$ 1,45 e a gasolina, R$ 1,90, mas amanhã ninguém sabe), a vantagem irá depender do dia.
A Fiat afirma que o álcool é recomendado se estiver custando até 70% do preço da gasolina. Segundo informações da montadora, a média do consumo do carro a gasolina fica em torno de 11 km/l e a álcool, 7,7 km/l. Com a mistura em quantidades iguais (50% de cada) o consumo atinge a marca de 9,35 km/l. É fazer os cálculos e ver o que é econômico.
Essas opções são permitidas devido a um sensor batizado de Software Flexfuel Sensor (SFS) desenvolvido pela Magneti Marelli, mesmo presente no Gol Total Flex. Como o álcool possui algumas peculiaridades, como alto poder de corrosão, alguns componentes receberam um novo tratamento. A base portanto foi trabalhar um motor a álcool e por isso foram reforçados o tanque e bomba de combustível, pistões, válvulas, entre outros componentes.
A temida dificuldade na partida foi solucionada com a adoção de um reservatório de gasolina para partida a frio, além do cânister que foi mantido. O menor poder de detonação do álcool também é compensado pela unidade de comando eletrônico (ECU) que adianta a ignição. As adaptações são feitas pela leitura realizada pela sonda lambda na saída do escapamento que identifica o combustível utilizado de acordo com o teor de oxigênio nos gases.
PALIO - Para garantir a queima suficiente também foi elaborada uma nova e intermediária taxa de compressão. Como o Palio 1.3 8V a gasolina possui uma taxa de 9:8 e na versão a álcool de 12:1, a solução foi utilizar a média de 11:1. A mudança acarretou uma pequena variação de potência na troca de combustíveis. Com álcool o Palio oferece 71 cavalos e a gasolina, 70 cavalos.
Na prática, é quase impossível perceber alguma mudança. Afinal, trata-se apenas de um cavalo de diferença. No test drive realizado por Carro na pista de testes da montadora, em Betim (MG), as três combinações (mesma proporção álcool/gasolina, só álcool e só gasolina) foram avaliadas. O veículo não teve nenhuma mudança no comportamento. Na aparência, também não se diferencia em nada dos modelos tradicionais, apenas a gasolina ou a álcool.
Uma coisa é certa, as próprias montadoras ainda parecem estar se afinando em relação a novidade. A Volks só está comercializando o Gol Total Flex pela Internet, com a justificativa depoder esclarecer melhor as dúvidas dos consumidores, e a Fiat apenas exibiu seu modelo, afirmando estar realizando estudos no mercado para lançar o bicombustível que ainda não teve nome, nem preço divulgado.
Data - Sabe-se apenas que será em algum momento do segundo semestre e que, assim como o funcionamento do carro, o visual não se diferenciará do conhecido Fire 1.3 8V. O palpite é de que contará com uma pequena indicação na carroceria, como o Gol 1.6, e que a nomenclatura usada será bicombustível, em vez de Flex Fuel, para facilitar a compreensão.
Em relação ao preço, a montadora sai na vantagem pela escolha do Palio 1.3, que a gasolina sai por R$ 21.980,00 (básico). A promessa é de preço competitivo em relação ao concorrente, que sai por R$ 27.157,00. Baseando-se no modelo da VW, a diferença com a nova tecnologia deve ficar em torno de R$ 1.000,00. Os planos são de estender para toda a família Palio (Siena, Strada e Weekend). Enquanto isso, ainda travam batalha a GM, que promete anunciar e comercializar o seu modelo em breve, e a Ford, com o já apresentado Fiesta 1.6. Honda, Renault e Peugeot-Citroen também estão na corrida, mas não há nada previsto para antes de 2004. Mesmo assim, algumas boas surpresas já podem ser esperadas.