Uma longa história
Cuba é uma obsessão para a direita e uma provação para a esquerda brasileiras. Um lado supervaloriza o que é, no fim, um anacronismo cada vez menos relevante e o outro não sabe como justificar o inaceitável. A atitude dos que simpatizam com Cuba se divide em duas maneiras de construir a mesma frase: ou "Cuba é um exemplo de independência e prioridades certas nas Américas, mas ninguém pode negar que é uma ditadura repressiva" ou "está certo, é uma ditadura repressiva, mas ninguém pode negar que é um exemplo de etc."
Para os que não conseguem racionalizar e desculpar as contradições cubanas o embaraço com notícias como a da prisão de dissidentes e, agora, de fuzilamentos se insere na velha questão do desencontro entre o ideal e seu desvirtuamento ou, como colocou o Saramago, até onde o ideal pode tolerar o desvirtuamento.
É uma longa história, essa do desencanto da idéia libertária e egalitária com suas más conseqüências. Dá para começar a genealogia da desilusão com o Terror que se seguiu à Revolução Francesa e escandalizou muito dos seus teóricos e defensores, mas foi nas decepções de intelectuais com o comunismo a partir da revolução russa que a história se tornou reincidente.
Cada geração teve o seu momento de desencanto. A ruptura dos trotskistas com o poder soviético nos anos 30, o pacto Hitler-Stalin no começo da Segunda Guerra Mundial que muitos custaram a acreditar, a invasão da Hungria em 1956, as revelações de Kruschev sobre os expurgos e os crimes stalinistas... Muitos intelectuais brasileiros se obrigaram a desenvolver variações em torno do tema do fim redimindo os meios para poder conciliar sua fé na promessa redentora do comunismo com o totalitarismo soviético, ou preservar o ideal do seu desvirtuamento. Mas, para uns mais cedo do que para outros, o momento também chegou.
A lição para quem quer continuar a crer sem se desiludir talvez seja a de simplificar a ilusão: engajar-se nos princípios de liberdade, igualdade e fraternidade, os básicos franceses, mas desassociar-se do terror e mantersempre à mão, como um Isordil, o ceticismo. Uma lição que também vale para engajamentos menores, como o dos que apoiaram o Lula sem saber que estavam apoiando o aumento do superavit primário.
Luis Fernando Verissimo