Edição de Terça-Feira, 15 de Abril de 2003
 

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Opinião

Reforma esdrúxula

Os nossos homens públicos devem ficar sobremodo atentos às manobras urdidas noutros pontos do País, no cenário das discussões da Reforma Tributária. Embora se tenha chegado ao consenso de que, sem ela, o País terá dificuldade de marchar para a frente, as dificuldades inerentes aos pormenores da iniciativa começam a aparecer mais cedo do que poderia supor o mais esperto analista da situação nacional.

  Deputados estaduais e federais, senadores da República, governadores de Estado e demais dignitários que conquistaram o direito de falar pelas populações empobrecidas não podem ficar de braços cruzados, num momento crucial, quanto este, em que, mais uma vez, a sorte do Nordeste e das outras regiões pobres do País vai ser jogada. Trata-se de saber, afinal, onde vai ser pago o imposto substitutivo do atual ICMS, nos Estados onde se dá a produção da mercadoria final, ou naqueles que os compram para consumir.

  A grande reivindicação de Pernambuco e demais províncias nordestinas e nortenhas é a cobrança do tributo aoconsumidor, não ao produtor, fazendo-se com que a exação fiscal se torne mais justa e estabelecendo a alíquota zero para as transações interestaduais.

  No último domingo, o DIARIO DE PERNAMBUCO acolheu elucidativo artigo do professor Sebastião Barreto Campelo, segundo quem o antigo ICM, depois tornado ICMS, é adaptação do TVA (imposto sobre o valor agregado) vigente na Comunidade Econômica Européia. No velho Continente, o TVA inicialmente seria cobrado do país produtor, mas ante a forte reclamação dos países menos desenvolvidos da comunidade, terminou sendo cobrado nas áreas de consumo, situação que permanece até hoje. De fato, o ICMS ou o futuro IVA (imposto sobre o valor agregado) é, na essência, um imposto sobre o consumo e não um imposto sobre a produção.

  Mostra o professor pernambucano que no Brasil não se fez até agora a correção que os europeus logo providenciaram sobre o citado imposto. E a falta de correção já dura anos e anos. Na hora em que se discute a Reforma Tributária, nortistas e nordestinos se acham como que diante da ameaça de perpetuação do esbulho tributário de que são vítimas desde as calendas gregas.

  Os representantes do povo, com voz nas tribunas mais destacadas de todo o País, ou silenciam, e os Estados pobres do Brasil seguirão condenados à pobreza definitiva, ou aproveitam a oportunidade para impedir que o esbulho se perpetue. Corre pelo ar como boato aterrador que "São Paulo e o Governo federal se uniram contra o ICMS no destino". É de uma gravidade isto que estamos a ler. Alguém do lado contrário, insubmisso às más causas, tenha a coragem cívica de ir diretamente ao presidente da República para chamar a atenção de Sua Excelência de que se trata de uma sentença de morte contra a Região menos favorecida do País. Não se trata de uma técnica impositiva e fiscal que não possa ser mudada noutro formulário (como sucedeu na Europa). Não se trata de dizer que o modelo funcionou bem até hoje, e não se mexe em time que está ganhando. Não se trata de esquema neutro, mas de modalidade perniciosa, na medida em que funciona como bomba de sucção das economias mais frágeis, em favor de economias adiantadas e prósperas.

  O DIARIO cumpre o seu mister de opinar e advertir, de conclamar. Cumpram os nossos representantes o seu.

A propósito de Nassofilia

Marco Aurélio de Alcântara
Jornalista

Não me move nenhum sentimento anti-Nassoviano, no momento em que, na cauda da passagem real de Beatriz de Holanda pelo Recife (née Orange-Nassau) reacendem-se entre nós as tochas da Nassofilia, como se os holandeses pudessem ter sido os melhores colonizadores desta parte do Brasil em contraponto aos portugueses. Quero lembrar que eles nada deixaram de permanente, aqui, como cultura e civilização, ou em Bornéu, Sumatra, muito menos na África. A Companhia das Índias Ocidentais era uma multinacional mercantilista, vinha fazer as presas, comerciar, disputar espaço com espanhóis e portugueses na América, na África e nas Índias Orientais, só que espanhóis e portugueses, na América Espanhola e na América Portuguesa, para usar a caracterização de Oliveira Lima, se tinham estabelecido como povo, superada a etapa primordial dos enclaves e feitorias.

  O octenio de Nassau no Nordeste, descrito no panegírico de Barléus, teve o mérito de documentar e registrar esta parte do Brasil, mas nenhuma obra maior foi deixada pelosflamengos, nem mesmo na arquitetura, pois o sobrado magro, apertado, à beira do cais, é uma construção comum a todos os portos, da América e da Europa, e podem ser muito bem vistos na ribeira do Porto são as "casas esguias" de lá em contraposição aos sobrados magros do Recife.

  Na toponímia local o que sobrou ? Na língua ? Na gastronomia, lembro apenas uma palavra, brote (broot = pão), um tipo de pão preto, adocicado, redondo que conheci, na minha infância, no Rio Grande do Norte, nos anos 40, e que diziam ser de influência flamenga, Seria ?

  Enfim, há a família Wanderlei - Wan Der Ley, originária de um miliciano que se deixou "aportuguesar" entre os canaviais e os mangues. Post e Ekchout, Piso e Marckgraf, Plancke - o pastor luterano - toda a "troupe" de Nassau veio aqui passar uns anitos e voltaram pagos pelo Conde-Mecenas, que com eles gastou florins e ducados ganhos com as suas comissões de guerra e serviço. Nassau era um General e um guerreiro, a serviço de uma empresa e com laivos de Príncipe renascentista, gourmand (não sei se gourmet), e desejoso de juntar os seus cabedais para gastá-los, mais tarde, na Europa, terminando como governador de Clèves.

  O conde Duque de Olivares, valido de Felipe IV, quando as coroas de Portugal e Espanha estavam juntas (e o Brasil dentro do Império português), tentou comprar Pernambuco de volta aos holandeses por 200 milhões de ducados, devolvendo-lhes inclusive Flandres. D. João IV, já no Brasil (e Portugal) restaurado, após 1640, negociou o Nordeste do Brasil, mas nada se consumou. E o Padre Antônio Vieira não foi, nesse episódio, nosso aliado.

  O "Negócio do Brasil" (v. Evaldo Cabral de Mello) continuou por muito tempo na mesa das negociações diplomáticas; e foram o denodo, a resistência e a perseverança dos luso-brasileiros que impediram que esta parte do Brasil se desmembrasse, vencendo os invasores nos Guararapes, onde se forjou o Exército brasileiro.

  No próximo dia 28 de janeiro de 2004, me informa Francisco Brennand que vai celebrar, no espaço de sua Accademia(templo ou oficina?) os 350 anos da Restauração Pernambucana, com uma sessão, reunindo amigos, entre os quais militares representantes das Forças Armadas, para renovar esse voto de brasilidade, que é o registro da memória dos nossos heróis naquelas terras da Várzea do Capibaribe, ainda empapadas do sangue dos nossos combatentes.

  Recentemente, na Europa, um amigo, que lida com livros velhos e antigos, estampas e alfarrábios, lembrava-me velho dito inglês do século XVII sobre os holandeses, nas suas disputas mercantis: "Here comes the Dutch / Always giving too little / And asking too much". Isto é: "Aqui vem o holandês / Sempre dando muito pouco / E pedindo demasiado".

Era uma vez...

Leonardo Guimarães Neto
ECONOMISTA

Era uma vez um país distante que, ao se libertar da sua antiga metrópole, no período colonial, mostrou ao Mundo que era possível construir uma democracia moderna e representativa, na qual o poder pertenceria ao povo e seria exercido em seu nome. Um país que ao tentar concretizar esse processo democrático, não só influiu na consolidação dos grandes lemas da Revolução Francesa em relação aos dos direitos humanos, como teve influência marcante, em todo continente americano, no processo de independência e de derrocada do antigo regime colonial. Um país que na Segunda Guerra Mundial - juntamente com a Inglaterra, União Soviética e França e outros países aliados - desempenhou papel marcante na liquidação das pretensões imperiais nazistas e fascistas da Alemanha, Japão e Itália. Um país cuja Imprensa livre, em várias oportunidades, deu lições ao Mundo mostrando os horrores da guerra do Vietnã, contribuindo para que os movimentos pacifistas exercessem pressões sobre o governo para a realização de acordos de paz, ou que teve uma contribuição marcante ao destituir do poder um presidente eleito que obstruiu o trabalho da justiça na apuração de crime no qual estavam envolvidos o primeiro mandatário e seus assessores mais próximos. Um país que ajudou a consolidar a Organização das Nações Unidas como fórum privilegiado no qual em várias oportunidades foram encontradas soluções pacíficas para divergências entre nações que poderiam ter resultado em destruição e mortes de populações civis.

  Pois bem, em algum momento, nos anos que ser seguiram à Segunda Guerra Mundial, durante a chamada guerra fria, este país parece ter perdido o rumo no qual vinha trilhando, no sentido de fortalecer a liberdade e difundir o respeito aos direitos humanos. Surge o macartismo e o cerceamento da liberdade na Imprensa e nos meios artísticos e intelectuais. Seu governo passa a fortalecer em todo o Mundo ditaduras sanguinárias que se opõem à livre manifestação popular: no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai, em países da África e Ásia e até noIraque apoiando ditaduras como a de Saddam Hussein. Passada a guerra fria, com a derrocada da União Soviética, esperava-se que o país voltasse ao rumo que vinha seguindo anteriormente, antes que a presença da União Soviética provocasse a paranóia coletiva que deu lugar ao surgimento e consolidação da extrema direita que hoje está no poder. No entanto, o que se constata é não só o aumento do poderio bélico como a crescente agressividade traduzida em freqüentes invasões baseadas em decisões unilaterais, nas quais não são sequer consultados os seus mais próximos aliados.

  Os atentados de 11 de setembro foram, simultaneamente, o pretexto e o estopim que pôs em operação uma máquina de guerra que nunca deixou de crescer e um plano de consolidação de um poder imperial que há anos vem sendo elaborado pelos que hoje dominam o país e que têm interesses econômicos, muito estreitos, com o complexo industrial-militar, com o petróleo e as atividades de engenharia que vão ser as responsáveis pela reconstrução dos países destruídos pela guerra. Este poder de destruição abrange, também, externamente, todo o conjunto de organizações e conselhos nos quais eram buscadas soluções para as guerras e conflitos (ONU e seu Conselho de Segurança) e abrange, internamente, algumas das instituições caras, como a justiça e a Imprensa. Quanto a esta última, o que se viu na guerra do Iraque, foi a sua transformação em um apêndice das forças invasoras e em parte integrante da guerra de informações, restringindo-se à mera divulgação das opiniões do comando militar e de notícias dos sucessos e da "limpeza" dos mísseis "inteligentes". Está-se cada vez mais distante de um país voltado para o respeito aos diretos humanos, em todo mundo, e cada vez mais perto de uma potência destrutiva capaz de promover os chamados bombardeios humanitários, para usar a expressão do seu secretário da defesa.

Zé Dantas: médico e compositor

Iolanda Simões de Souza Dantas
VIÚVA do compositor

Quando conheci o meu marido, o compositor Zé Dantas, ele já era amigo de Luiz Gonzaga e o baião começava a despontar, com sucesso, no País inteiro. Por haver ali o maior número de nordestinos, era em São Paulo onde mais compravam e aplaudiam as suas músicas. E em virtude do seu grande público, Luiz Gonzaga fazia shows em cima de um caminhão, que servia de palco.

  Logo depois de se formar em Medicina (1949), Zé Dantas viajou para o Rio de Janeiro, onde havia sido aprovado na residência médica do Hospital dos Servidores do Estado (HSE), o antigo Ipase, que era o maior hospital da América Latina. Sua chegada ao Rio, em janeiro de 1950, foi aguardada com ansiedade por Luiz Gonzaga - pois o Zé levava em sua bagagem vários baiões inéditos -, e por toda a caravana do baião, integrada, dentre muitos, por Humberto Teixeira e Péricles, o amigo da onça.

  Foram todos diretamente para Mangaratiba, onde Humberto Teixeira tinha uma casa de praia. Programaram ficar ali um dia. Mas resolveram continuar em festa durante oitodias. Nessa época, o baião fazia sucesso no País inteiro e, no Rio de Janeiro, foi a "dança da moda" em todas as classes sociais.

  Muitos cantores encomendavam baiões aos compositores. Até o Carlos Galhardo gravou de Zé Dantas, "Ai Meu bem", baião. E segundo a RCA Victor, "A Dança da Moda", baião de Zé Dantas e Luiz Gonzaga, foi o disco mais vendido da época.

  Deixando fluir a sua inspiração, Zé Dantas contrariou a vontade do seu pai, o Coronel Zé Dantas, austero e rico fazendeiro, que logo cedo havia proibido o filho de qualquer envolvimento com a vida artística, ameaçando, inclusive, suspender a sua mesada, em caso de desobediência. Queria vê-lo um grande médico, tão-somente, desejo também de sua mãe.

  No entanto, como autêntico sertanejo, o poeta Zé Dantas começou a descobrir os encantos de sua terra Carnaíba-PE, aos dois anos de idade, quando passava horas ouvindo o canto dos pássaros, observando tudo em sua volta. Aos nove anos foi estudar no Recife como aluno interno. E começou a escrever crônicas epoesias que eram publicadas nos jornais dos colégios. Nas festas do Grêmio Estudantil sempre se apresentava, abordando sempre o seu amado sertão.

  Nas férias, preferia curtir a Fazenda Brejinho, no "Riacho do Navio", seu refúgio, onde era recebido com muito carinho pelos vaqueiros e moradores.

Depois de casado, morando no Rio de Janeiro - e já era então médico efetivo do Hospital dos Servidores do Estado, onde foi aprovado em dificílimo concurso -, Zé Dantas viajava para o seu sertão carregando um imenso gravador, no qual registrava todas aquelas histórias, contos, aboios, incelências etc.

  Na volta, muitas vezes ficava isolado. Ligava o gravador e, com o olhar distante, cantarolava baixinho, demonstrando saudades de sua terra. Nessas ocasiões, quase sempre surgia uma nova música. Eram os seus dias de profunda inspiração. Zé Dantas frequentava as rodas sociais do Rio de Janeiro e do Recife, quando ali estava. Foi aplaudido por presidentes da República, como Getúlio Vargas, que o emocionou no segundo encontro que tiveram, quando apertando a sua mão perguntou-lhe: "como vai Zé Dantas?".

  O presidente Juscelino Kubitschek muitas vezes o convidou para horas de lazer no seu apartamento, onde recebia os amigos. O deputado José Jofily, da Paraíba, o presenteou com um violão, que faz parte do seu acervo. Médicos de renome o convidavam para suas festas, exigindo que mostrasse um pouco da sua obra. E durante essas apresentações, Zé Dantas, com o seu inseparável violão, cantava suas músicas e declamava suas poesias matutas, com destaque para "O Cangaceiro", sua poesia predileta.

  Contava também histórias, imitava a voz dos conterrâneos e, no final de cada apresentação, ficava horas respondendo as curiosidades das pessoas, sobre costumes e termos que não entendiam. Até sua partida, em 1962, Zé Dantas sempre foi amigo do Luiz Gonzaga, que muitas vezes telefonava-lhe de longe, dizendo-lhe: "Zé, estão me cobrando uma música sobre um determinado assunto". E esse foi o caso da música "Paulo Afonso".

  Quando Luiz Gonzaga voltava para o Rio de Janeiro, a música encomendada já estava pronta e logo era gravada pelo Rei do Baião. Muitas vezes meu marido me disse: "O Luiz, com sua voz de tenor nasaleno completa o que quero dizer nas minhas músicas, ao meu povo". Mesmo indo cedo para o outro lado da vida, Zé Dantas está imortalizado pelas coisas bonitas que deixou. Todos sentimos muito orgulho dele e hoje, sua neta Marina revive sua obra, cantando os baiões do vovô Zé Dantas - com destaque para "Sabiá" e "O Xote das Meninas"- , que também não deixou de ser o Dr. José Dantas, obstetra competente do HSE, médico conceituado até hoje.

  A propósito, registro que quando o nosso filho, médico otorrino, fazia residência médica no mesmo HSE, observou que a mãe da paciente que ele atendia estava olhando atentamente para o seu nome, escrito no bolso do seu jaleco: "Dr. José Dantas, HSE". E ela então perguntou-lhe se ele era parente do obstetra que a havia atendido anos atrás, trazendo ao mundo justamente aquela sua filha, que estava sendo ali examinada. Emocionado, o meu filho respondeu-lhe: "Era o meu pai".

Murilo Guimarães

Palhares Moreira Reis
ADVOGADO E PROFESSOR APOSENTADO

No início de março corrente, faleceu no Recife, Murilo Humberto de Barros Guimarães, um dos mais antigos advogados do foro recifense, atuante ainda com mais de 90 anos de idade. Soubemos por familiares que somente nos seus últimos dias esteve afastado das lides e das atividades culturais, que sempre o levaram à linha de frente nas suas diversas atividades.

  Recebeu o grau de Bacharel em Direito em 1931, e nesta ocasião já recebia também um dos prêmios conferidos pela Faculdade aos alunos que mais se distinguissem no curso de Bacharelado. No ano seguinte ingressou no curso de Doutorado, sendo aprovado em todas as disciplinas mercê dos trabalhos destacados que apresentava à consideração dos seus mestres.

  Foi professor da Faculdade de Direito do Recife, provido no cargo de professor catedrático de Direito Comercial em 1951, ano em que a nossa turma de estudantes estava no 3º ano do curso, e, portanto, éramos todos seus alunos. De nossa turma recebeu, nas solenidades de formatura, em 1953, há 50 anos portanto,homenagem especial. Estava na interinidade naquela cátedra desde 1946. Sua investidura decorreu de aprovação em concurso público, escolhido em primeiro lugar, com a tese Da Provisão no Cheque.

  Foi depois diretor da mesma Faculdade, e, nos momentos difíceis de 1964, após da renúncia do reitor João Alfredo, durante o período de sede vacante, quando a Reitoria estava nas mãos do vice-reitor Newton Maia, foi eleito na cabeça da lista tríplice para reitor da Universidade do Recife, sendo nomeado ainda nos fins do mesmo ano. Foi eleito para este cargo por decisão unânime de um Conselho Universitário que contava com a presença da totalidade dos seus membros, mesmo estando, na ocasião, ausente do País, e foi nomeado pelo presidente Castelo Branco, com o qual se entrevistou na oportunidade da nomeação, obtendo deste o compromisso de que não haveria novas punições políticas na Universidade, o que de fato aconteceu dali em diante.

  Foi também um dos primeiros professores do Curso de Direito da Universidade Católicade Pernambuco. Ao lado da atividade acadêmica, foi advogado da Federação das Indústrias, da Cooperativa dos Usineiros, como se chamava então, e tinha uma das mais prestigiosas bancas de advocacia da região. Era um homem de memorável formação humanística. Em sua casa, normalmente, desde seus tempos de garoto, se falava francês. A sua cultura não era só profissional, porém de uma vastidão e solidez incomparáveis. Na Faculdade, o seu caminho inicial não foi o do Direito Comercial, senão o do Direito Público e da Teoria Geral do Estado. Com exceção ao seu estudo Breves aspectos do Pignus no Direito Romano, todos os seus trabalhos dessa época são nitidamente vinculados à Ciência Política e à Sociologia, através da perspectiva fornecida pelo campo do Direito Público, mormente nos estudos comparados, como por exemplo, Uma nova Concepção Jurídica e uma Aplicação dos seus Princípios ao Regime Monárquico, onde procura difundir entre nós a nascente teoria da "instituição", já objetos de estudos de Renard e de Hauriou. Corria para o campo do Direito Público, numa época em que o privatismo era dominante, entre seus mestres e, mesmo, entre seus colegas. No seu estudo Um Critério para Solução do Problema da Resistência às Leis Injustas, mostra-se claramente vinculado ao campo da Sociologia do Direito, aceitando os princípios do Direito Natural como formadores da estrutura basilar do ordenamento positivo.

  Exerceu a regência da cadeira de Teoria Geral do Estado, em caráter interino, de 1941 a 1945. Quando se submeteu ao concurso de Docente Livre de Direito Judiciário Penal, como se chamava a disciplina então, se bem que sua tese fosse sobre O Valor da Prova Testemunhal no Processo Criminal, já a sua prova escrita tem sorteado o ponto sobre O Habeas Corpus, sua história, seus fins, suas vantagens e abusos. Interposição do Habeas Corpus, seu processo e julgamento.

  Como diretor da Faculdade de Direito iniciou uma série de cursos de extensão, o que na época era novidade na Casa de Tobias, tendo sido o autor destas linhas convidado para o primeiro da série, sobre tema de Direito Eleitoral, intitulado "Condições para o exercício do sufrágio". Como reitor da Universidade Federal de Pernambuco, enfrentou situações altamente delicadas, ao lado das rotinas administrativas que sempre procurou modernizar e simplificar. Em seu reitorado criou-se a Assessoria de Planejamento, depois transformada em Pro-Reitoria, ao lado das outras repartições do mesmo tipo, na reforma que promoveu do Estatuto da Universidade, para substituir o de 1946, do tempo do reitor Joaquim Amazonas.

  No seu reitorado ocorreu a grande reforma universitária, determinada pelo Governo, e que atingiu a todos os centros acadêmicos do País. É dessa época a separação dos centros de ensino básico e de ensino profissional e dos órgãos suplementares. Foi grande sua preocupação com o aumento do pessoal docente e do corpo de servidores, cuja demanda se ampliava com o crescimento de matrículas nos cursos de graduação, primeiro, e de pós-graduação, depois.

  É do seu tempo a separação do ciclo geral, comum a todos os cursos de uma mesma área, após o qual passariam os estudantes para o ciclo profissional. Igualmente, o vestibular foi unificado. O número de matrículas na graduação triplicou no período considerado. O número de pesquisas e de cursos de pós-graduação na Universidade foi ampliado. Na pós-graduação, salvo o curso de Doutorado em Direito, que lhe é antecedente, todos os cursos de mestrado foram criados no seu reitorado. A qualidade do trabalho desenvolvido foi considerada pelo MEC para incluir a Universidade como um dos Centros Regionais de Pós Graduação. Muitos convênios de cooperação nacional e internacional foram iniciados na oportunidade, diversos deles se mantendo até hoje.

  A Cidade Universitária mereceu especial tratamento, com o incremento das construções e as atividades de reparo e restauração dos prédios existentes. São de sua época o término do Centro de Energia Nuclear, do edifício dos Institutos Básicos, da Faculdade de Farmácia, da Escola de Química, do Centro deEnsino de Ciências do Nordeste (Cecine), da TV Universitária, do Instituto de Micologia e do edifício da Reitoria. Igualmente, a Casa do Estudante da Universidade. Restaurações destacáveis pelo porte, as da Faculdade de Direito e do Hospital Pedro II.

  A Faculdade de Farmácia, hoje Departamento de Farmácia, deu seu nome à Farmácia-Escola, mais tarde sendo este retirado e substituído pelo do escritor Carlos Drummond de Andrade. O Conselho Universitário, quando das solenidades do 25º aniversário da Universidade, deu seu nome à TV Universitária. A partir dos fins dos anos 70, esta denominação igualmente volatilizou-se. O autor foi seu assessor na Reitoria, de 1964 a 1971, quando do término do seu segundo mandato. À época era permitida a reeleição, o que mais tarde foi proibido, e o mandato trienal ampliado de três para quatro anos, sendo esta a explicação para seu período de sete anos como reitor. Por isso, pôde acompanhar de perto tudo ou quase tudo o que aconteceu na sua gestão reitoral. Em especial as crises envolvendo o restaurante universitário, que já tinha passado a servir 2 mil refeições por dia, e a da criação e implantação da TV Universitária, quando professores e estudantes entendiam que as verbas obtidas para este empreendimento deveriam ser desviadas para o Hospital das Clínicas. Num desses confrontos, o reitor Murilo foi posto em cárcere privado, sem poder sair do salão do Conselho Universitário, cercado pelos estudantes.

  Os Conselhos da Universidade se solidarizaram com o seu reitor, determinando que este historiasse os fatos ocorridos e suas raízes, tendo o autor recebido inúmeros telefonemas de colegas, pedindo para interceder junto ao professor Murilo para que a nota a ser divulgada fosse, pelo menos, amenizada. Como se fosse possível influir no mestre numa circunstância como esta.

  Quando ocorreu uma série crise na administração de pessoal da Universidade, o autor passou a responder pela Direção daquela Divisão, depois Departamento de Pessoal e, mais tarde, passou a dirigir a Rádio Universitária, tendo deixado de participar da administração superior nas gestões reitorais seguintes, voltando a assumir encargos no reitorado de Geraldo Lafayette Bezerra, este outro aluno do professor Murilo Guimarães, e que foi o segundo reitor a falecer no exercício do mandato.

  Murilo Guimarães era, pela aparência, um indivíduo seco, porém no seu íntimo era uma pessoa de natureza social e preocupada com os seus colaboradores. Durante uma das grandes enchentes do Recife, sua preocupação era com o bem-estar dos servidores da Universidade que tivessem sido atingidos pelas águas. Era apaixonado pelo bridge, igualmente conhecido como o "xadrez de cartas", estando presente no Automóvel Clube sempre que estava no Recife.

  Nosso relacionamento foi sempre de cordial respeito e atenção. Sua confiança nos trabalhos do autor sempre se revelou, ademais dos encargos formais na Reitoria, quando determinou nossa participação nas negociações relativas ao programa de tele-educação da OEA, nas reuniões realizadas no Recife, Cidade do México e Washington D.C., ao lado dos dirigentes daquele órgão. E pelo fato de usar nossos serviços profissionais para representa-lo em juízo em procedimentos contra a Universidade, quando esta, seguindo a orientação do Governo, era levada a violar direitos adquiridos dos servidores. Quem conhece e reconhece a capacidade profissional de Murilo Guimarães, sabe quanto alta é a honra de vir a representar em juízo este notável profissional e sensível educador.

  Terá Murilo Guimarães aquela imortalidade de que trata Milan Kundera, a imortalidade que vem do carinho dos amigos e da lembrança das boas obras, do bom e ético exercício das atividades nas profissões de advogado e educador que escolheu.

Comentários dos leitores

"Gostaria de perguntar a prefeitura se o cemiterio mudou de lugar? Pois é o que Comportas esta parecendo, principalmente o viaduto que todos temos que retornar por baixo, além de estar muito escuro, pois não tem iluminação, estão queimando carros a toa. E parabenizar a polícia por estar de vez em quando dando voltas por lá, já que nem isso acontecia, e que vá mais vezes. A comunidade agradece.", Maria, por e-mail.








 

 
 
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