Edição de Sábado, 5 de Abril de 2003
 

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Opinião

A pesquisa da dengue

A Fundação Osvaldo Cruz, do Rio de janeiro, é uma das entidades brasileiras de referência no domínio da pesquisa médico-científica e fitossanitária. Os trabalhos da especialidade de seus pesquisadores se têm notabilizado pelo apuro técnico com que são conduzidos e pela confiança nos resultados a que se têm proposto, isto há muitos e muitos anos. Tornou-se, com justos títulos, uma das escolas credenciadas da ciência, no País. Gerações e gerações de brasileiros e também de outros países se beneficiaram, e não foi pouco, com as vacinas e demais produtos saídos dos laboratórios da Fundação conhecida pela sigla "Fiocruz".

  Há queixas em suspensão no ar sobre a baixa militância brasileira em favor da elevação da ciência a uma dessas necessidades nacionais que, uma vez atendidas, capacitam-se a colocar o País noutro patamar de desenvolvimento. Faz-se no País boa ciência, e é o caso da Fundação carioca, mas faz-se pouca ciência. Os recursos orçamentais para a ciência e tecnologia deixam ver, quase sempre, que as prioridades dos diversos Governos têm sido outras bem diversas, de sorte que minguam os recursos para o posto avançado do conhecimento científico. No particular, as queixas de acadêmicos e cientistas de variegada formação técnica são justas. O resultado desse ineptos contingenciamentos para a pesquisa científica é a enorme dependência brasileira em relação a produtos científicos.

  Para satisfação dos pernambucanos, o Estado vai contar, até o final deste exercício, com a instalação, pela "Fiocruz", aqui, no Recife, do primeiro laboratório de virologia e terapia experimental, com tecnologia adequada para concluir tudo quanto se descobriu a respeito da vacina contra a dengue. Os estudos básicos, aliás, foram conduzidos pelo também conceituado Centro de Pesquisas Ageu Magalhães em operações na Universidade Federal de Pernambuco.

  Não por acaso o Recife é um dos pólos médicos de projeção, no País. Não por acaso, a "Fiocruz" escolhe o Recife para dar seqüência e conclusão aos estudos da dengue particularmente ativaentre nós. Virão igualmente, a seu tempo, estudos e pesquisas de vacinas contra outras enfermidades, das quais destacamos a hepatite C. Por sua vez. o Centro de Pesquisas Ageu Magalhães conta, já agora, com a parceria da Escola de Medicina da Universidade John Hopkins, dos Estados Unidos.

  Bons dias vive a pesquisa médica em Pernambuco, à vista de um consórcio que se pode tachar de feliz entre o "Ageu Magalhães", a UFPE, a "Fiocruz" e a Universidade norte-americana de John Hopkins. A unidade de pesquisa para a vacina contra a dengue exigirá recursos financeiros da ordem de R$ 1,3 milhão. Não faltará verba, é claro, para o complemento da edificação, como os equipamentos, a formação técnica do pessoal necessário e a aquisição de todo material disponível à operação do projeto.

  Os votos são para que se iniciem o mais pronto possível os estudos que se mostram prometedores.

Graciliano Ramos: visão histórica

Paulo Gadelha
DESEMBARGADOR FEDERAL DO TRF da 5ª REGIÃO

Há, na paisagem literária brasileira, um discurso crítico comprometido com transformações sociais. Um romance, pois, de diáfana coloração política. A denúncia, assim, dos desníveis sociais, como inspiração e desafio. Existe, neste campo, um leque de escritores engajados nesta temática. Jorge Amado, por exemplo, na primeira fase de sua obra, escrevendo o Cavaleiro da Esperança, biografia de Luís Carlos Prestes; José Américo de Almeida, com A Bagaceira, livro escrito em 1928, iniciando o chamado ciclo social do romance brasileiro, estigmatizando o analfabetismo, a miséria, o mandonismo e todas as seqüelas decorrentes da monocultura da cana-de-açúcar no brejo paraibano; Rachel de Queiroz, com O Quinze, arguta interpretação do universo desumano das secas nordestinas, sem esquecer - é óbvio - o mais denso deles na exploração do painel político e social: Graciliano Ramos.

  Agora, quando é lembrado pelos cinqüenta anos de sua morte, revisitá-lo intelectualmente é inafastável compromisso histórico e estético. Lugar-comum à parte, Graciliano Ramos, apesar do pessimismo exagerado que lhe timbrou a vida, construiu um acervo literário com irrecusável sentimento de justiça social. Vidas Secas é o grande grito na condenação às atrocidades sociais. Um livro que corta, num estilo áspero e - paradoxalmente ameno - as entranhas de uma sociedade baseada no conformismo e na desigualdade. Ou como muito bem observou Otto Maria Carpeaux: "Não é o sertão o culpado; Vidas Secas é o seu romance relativamente mais sereno, relativamente mais otimista. O culpado é - superficialmente visto, numa primeira aproximação - a cidade".

  Fez-se escritor cuidando da administração pública, cujos relatórios, pela forma, pelo estilo conciso e grave, revelaram duas facetas que retrataram em definitivo o grande escritor: o amor à verdade e a limpidez do texto. É verdade que num rasgo de autocrítica chegou a abjurar de seus livros, achando-os insignificantes. Exagero, talvez, de perfeccionista.

  A sua literatura é modelo, como foi a sua coerência política. Em Memórias do Cárcere, seco e eloqüente depoimento sobre as masmorras do Estado Novo, o criador de Caetés e São Bernardo nos deu uma aula de afeição à liberdade, quando recitou solene: "Liberdade total o escritor nunca tem; começa com a imposição da sintaxe e termina com a Delegacia de Ordem Política e Social".

  Ontem, como hoje, a sentença tem a força das coisas imperecíveis.

Castro e Canto, uma família eciana?

Dagoberto Carvalho Jr.
ESCRITOR

O DIARIO DE PERNAMBUCO de 11 de fevereiro último publicou nessa mesma página de Opinião, O deselegante Financial Times, lúcido e oportuno artigo do escritor José do Castro e Canto, em defesa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - notadamente de seu primeiro périplo diplomático à Europa - e, sobretudo, contra a guerra de Bush ao Iraque. Pouco conhecido ou, talvez mesmo desconhecido no meio lítero-jornalístico do Recife, o articulista deve ter sido procurado para cumprimentos - por muitos admiradores do presidente brasileiro e desafetos do norte-americano. O jornal, decerto, guarda esses registros elogiosos de caráter político. A respeito do escrito propriamente dito, cabem algumas observações, senão sobre o estilo - que não se define ou pode apreender num primeiro texto - quanto ao uso de expressões que facilmente denunciam alguma familiaridade do autor com Eça de Queiroz e seus personagens, através de demoradas leituras. A busca incessante de possíveis epígonos ou mesmo bons leitores de Eça proporcionou-me, através dos artigos Evaldo Costa e a genealogia de Fradique Mendes e A propósito do engenheiro Gascogne - publicados no Diario de 26 de janeiro e 03 de março de 2002 - a análise e descoberta de um "descendente" literário, apesar de querer-se, também, familiar, em linha direta, de ninguém menos que o próprio Fradique. Foi um achado que ainda se comemora, como poderá vir a ser o de José do Castro e Canto, pródigo em lembranças até do "bizarro tugúrio" do Conselheiro Acácio e expressões de acentuado sabor popular como "caramba" reconhecidamente incorporadas por Eça à literatura escrita.

  Continua, José Castro e Canto, do seu "modesto tugúrio", pregando a paz e instigando - já saiu novo artigo contra a guerra do Iraque - o Busch (inho), como diria, bem-humorado, o jornalista e bom crítico, também de formação eciana, Arnaldo Jabor.

  Para maior alegria dos estudiosos de Eça e curiosidade dos leitores do velho jornal da Pracinha, surge agora, na mesma página, outro integrante da família, de igual formação literária e - parece - não menor grau de informação e engajamento político-ideológico, o empresário Duarte Vaz Pacheco do Castro e Canto. O patronímico não deixa de lembrar os Canto e Castro de Dona Domitila, a famosa Marquesa de Santos, tão sensualmente representada por Luana Piovani, na irreverente mini série O Quinto dos Infernos, da Rede Globo. Lembra, também, família portuguesa da atualidade - talvez de mesmo tronco genealógico dignificada por militares de proeminência na Revolução dos Cravos. O velho Castro e Canto - diferentemente do sobrinho que só agora e, pelo tio, se sabe, mora nos arredores do Recife - apresenta-se, de sua aprazível Quinta de Sintra, como antigo administrador de empresas em África. Vive largamente as vantagens da "reforma" bem remunerada, em cavaqueiras que o ajudam a "apascentar a velhice com dignidade amena e fecunda". Diz ter sido amigo do advogado Ramos de Almeida que o teria iniciado - através da leitura de livros de Paulo Cavalcanti - na históriasocial e política de Pernambuco.

  Mas, Duarte Vaz Pacheco do Castro e Canto tem orgulho mesmo é do "rico" sobrinho, de quem fala com admiração ao reconhecer estar "em boas mãos e (sob) influências que poderão ajudá-lo no desabrochar completo, lapidando o seu enorme talento de lúcido articulista". O sobrinho comentara as boas relações que mantém com o embaixador Dário de Castro Alves e com o arquiteto Alfredo Campos Matos. Mandara-lhe, até, livros e artigos de minha autoria que, decerto, já não contribuem para o jornalismo literário que exercita com desenvoltura. "Como está escrevendo bem e atualizado o menino, filho do meu saudoso irmão Nuno Manuel, exclama - justamente vaidoso - o comendador Duarte. É (mesmo) de enternecer!"

A narrativa técnica e bela de Ronaldo

Raimundo Carrero
ESCRITOR

Escrever contos exige extrema habilidade com as palavras e perfeito domínio das técnicas. Invenção e perícia. Sobretudo quando se trata de escritor voltado para assuntos que aparentemente, e só aparentemente, parecem gastos, usados, envelhecidos. Observe-se o caso de Ronaldo Correia de Brito, em livro lançado pela editora Cosac&Naify.

  "Faca" reúne alguns dos melhores momentos da prosa brasileira contemporânea, sobretudo no conto título, que procurei analisar com atenção. Num dos parágrafos, por exemplo, o autor mostra conhecimento da pulsação narrativa, de maneira a conduzir as frases para provocar a sedução do leitor. Uma frase é transformada em parágrafo, com lenta e densa pontuação.

  Assim: "Desde o dia em que Francisca Justino arrancou-a das mãos do seu tio materno e arremessou-a no terreiro. Afirmou-se que Francisca não atirou a faca. Mas todos viram seu gesto: os dois tios maternos, Pedro e Luís Miranda, o tio paterno, Anacleto Justino, os negros escravos e até um curador que estava de passagem." Não se escreve dessa maneira todos os dias.

  No normal, a frase teria uma vírgula entre "terreiro" e "afirmou", ao invés do ponto, que corta-a e remete o leitor a outro movimento. Adiante, a adversativa "mas" é jogada para longe, substituindo-se, mais uma vez, a vírgula pelo ponto, de forma a exigir paradas e pausas psicológicas do leitor, envolvido por uma narrativa que se desdobra.

  Dessa forma, o leitor deve acompanhar o que chamo de desdobramento, preso na circulação das palavras, das frases, do parágrafo, sem perder a noção de tempo e de espaço. A narrativa assume, então, um tom circular. Ronaldo, aliás, quase sempre constrói suas histórias a partir de um ponto, bordando seqüências verdadeiramente cinematográficas.

  Lembra mesmo o bordado, tanto em "Faca" como em "Lua Cambará", e até mesmo em "Mentira de Amor", onde Dolores circula dentro de uma única tensão narrativa, mas deixando o leitor se envolver com movimentos que lembram uma espécie de linguagem quântica - presente, passado e futuro se atormentando e ocupando posições num único instante.

  Tudo isso acontece também em "O Valente Romano", personagem que cria ódio e paixão em Anselmo Dantas, que o vê semelhante a uma espécie de santo, de guerreiro e de demônio. Um homem que guarda em si mesmo toda uma gama de contrastes, sobretudo naquilo que aproxima e distancia todo o sentimento humano. Com fraquezas e grandezas.

  A oscilação sentimental de Anselmo Dantas conduz o texto para um choque de amor e ódio, com grande efeito narrativo: "Nas suas margens, Anselmo se dobraria para abraçar um morto, queimado pelo sol. Pouco restara do vigor da juventude. Mas os vagos sentimentos ainda eram os mesmos, velados como ódio, por tantos anos".

  Além disso, é significativo o uso do antigo condicional - "dobraria" -, que faz a narrativa se distanciar , um tempo verbal ambíguo, que estabelece ao mesmo tempo uma certeza, ainda que oscilante, e uma profunda dúvida , possibilitando ao autor um afastamento de quem precisa contar, mas necessitado recurso da dúvida, numa quase ausência.

  Sem dúvida, um livro de muitos recursos técnicos e que coloca a ficção pernambucana em posição de relevante destaque, principalmente agora que se fala tanto em uma reforma do regionalismo, de um novo regionalismo, voltado para o universal e não para o documental. Um regional que transcende e que caminha para a consagração.

Em nome da paz

Sylvio Ferreira
PSICÓLOGO E PROFESSOR DA UFPE

A distância entre a sanidade e a loucura é algo muito tênue. Talvez, até mesmo, não exista. De tão tênue mais parece uma linha imaginária a demarcar espaços imaginários estabelecendo distâncias entre os mesmos, as quais são a todo momento negadas por diferentes atitudes e práticas de vida. O que quer dizer que, ao se pensar possuído de sã consciência, qualquer homem, em nome desta crença, poderá estar cometendo um ato de loucura. É quando a fantasia é confundida com a realidade e a realidade transformada numa ficção. E este é o caso de todos aqueles que estimulam a guerra, planejam a guerra e executam a guerra; não importa a causa ou justificativa que atribuam para os seus atos.

  Toda a guerra é insana, embora os insanos que a promovem não o saibam - o que não é de estranhar, uma vez que também não sabem de suas próprias insanidades.   A linha que separa a sanidade da loucura pode até ser imaginária, assim como os espaços que demarcam um mundo do outro, mas aguerra não é um jogo de faz-de-conta, uma obra de ficção ou um acontecimento virtual como uma brincadeira de vídeo-game. Ela é um acontecimento real, que se passa em tempo real e que envolve criaturas reais feitas de carne e osso. A guerra mata, mutila, traumatiza as pessoas, enoja e envergonha a Humanidade - pelo menos uma grande parcela da mesma que ainda não se considera sã por completa para não ser tomada por louca em absoluto. E é, exatamente do coração e pulmão, do cérebro e das vísceras, do espírito e da mente dessas pessoas, que têm ecoado, pelo mundo afora (inclusive dentro dos próprios países gestores do conflito), os mais fortes gritos de protestos contra a guerra e os mais vívidos apelos de paz. Quem sabe se elas não conseguirão o que a própria ONU não conseguiu (deter a máquina de guerra)?

  Juntemo-nos, portanto, a essas vozes e façamo-nos eco desse coro - simplesmente dizendo não à guerra e sim à paz. De forma concreta e efetiva, não apenas lamentando o que está ocorrendo no Mundo em conversassilenciosas que costumam acontecer nos labirintos das nossas subjetividades, ou entre amigos, unicamente. Caso assim ajamos, a Humanidade haverá de desalojar os Cavaleiros da Triste Figura do lugar imaginário em que se colocaram: o lugar da onipotência absoluta, da arrogância plena e do culto à morte através da destruição em massa. Mandemo-os de volta para o lugar de onde vieram e do qual nunca deveriam ter saído - um lugar mais sufocante do que a terra devastada pelo efeito estufa e mais quente do que o sol. Um lugar onde somente nele habita quem deseja ser uma espécie de Deus, às avessas.

  No início de um novo século, e de um novo Milênio, urge que a Humanidade seja detentora do seu destino. E subverta a máxima de um dado filósofo revolucionário que afirmou: "O homem faz a história, mas não de acordo com sua vontade". Façamos a história de acordo com as nossas vontades, parando a máquina de guerra - que não opera ou funciona por si só - e assumindo a responsabilidade e o controle sobre as nossas vidas. Somente assim, poderemos continuar desejando viver de forma digna, fraterna, pacífica e justa, o grande sonho da vida: o que implica em jamais perder a esperança de viver dias melhores, construindo a história como a desejamos em nome de um bem comum, pautado no respeito e na ética. E quando nos reunirmos, façamo-os para celebrar a vida, jamais à morte - como querem os Cavaleiros da Triste Figura.








 

 
 
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