Projeto
Aline Feitosa
Especial para o DIARIO
O processo reflexivo e educativo desenvolvido pela linguagem e técnicas teatrais estão ganhando espaço nas penitenciárias de Pernambuco. No final do mês passado foi concluída a primeira fase do projeto Direitos Humanos em Cena 2 (DHC), quando 34 agentes penitenciários receberam 40 horas de capacitação com aulas de teatro. Agora, têm como missão multiplicar as lições aprendidadas nas 19 unidades prisionais do Estado. Criado pela ONG inglesa People Palace Projects (PPP), em parceria com Centro do Teatro do Oprimido (SP) e patrocínio do Ministério da Justiça, o projeto pretende reunir presos e funcionários em oficinas teatrais, "o que permitirá a criação de novas possibilidades humanas no dia-a-dia da prisão", explica o teatrólogo inglês, Paul Haritage, diretor da PPP.
O DHC acontecerá este ano em mais quatro Estados brasileiros: Brasília, Minas Gerais, São Paulo e Rondônia. Em Pernambuco serão atendidas todas as 19 unidades estaduais, com grupos de seis detentos cada, inicialmente. Coordenado pela Secretaria de Justiça e Cidadania (SJC), o projeto utiliza técnicas do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal - especilmente criadas para discutir questões de direitos humanos nas prisões - e do Teatro-Fórum, gerando discussões e soluções para problemas comuns no sistema.
A segunda fase tem início ainda este mês, segundo a superintendente de Educação e Integração Social da SJC, Fátima Bezerra. Nesta, serão formados os grupos de trabalho onde os agentes ministrarão as oficinas. "Vão participar dos grupos não só presos, mas também funcionários que lidam diariamente com o sistema", diz Fátima. Para incrementar o projeto, ela pretende envolver artistas locais defendendo que todos os recursos culturais podem ser usados em favor dos direitos humanos.
Em 2001, o projeto foi iniciado em 33 penitenciárias de São Paulo, onde participaram 4 mil presos. A conclusão gerou não só peças apresentadas nas unidades, abertas à comunidade, como também a montagem de uma versão de Carandiru para a Rádio BBC de Londres, juntamente com Dr. Dráuzio Varella e o ator Henrique Diaz. "O sucesso do trabalho despertou o interesse do Ministério da Justiça para patrocinar o projeto em outros Estados", comemora Paul.
FÓRUM - O trabalho final de cada grupo consiste em uma apresentação com base no teatro-fórum, onde presos, funcionários e a sociedade civil misturam-se e assumem papéis contrários dentro do sistema. "Na ficção, o agente é convidado para ficar no lugar do preso, o parente no lugar do agente e vice-versa", exemplifica Paul. "Dessa forma cada pessoa tem a liberdade de conduzir uma ação em situações comuns, como fuga, briga e rebeliões", completa. Para ele, a intervenção direta nos espetáculos faz nascer a busca de alternativas para os problemas encenados. "Vincular a penitenciária com a comunidade é, com certeza, o começo para a solução de alguns problemas", acredita. Por fim, o projeto pretende redigir, junto aos participantes, um documento que gere manuais normativos de conduta nas penitenciárias. Indo ainda mais longe, implementá-lo na Lei dos Direitos Humanos.