Repertório inclui Bolero de Ravel no final de tarde
A música, que faz uma homenagem às belezas naturais do lugar, foi composta por Mestre Fuba - um dos agitadores do que o paraibano chama de semana de fogo. São os sete dias antes do carnaval (e da quarta-feira de cinzas) que, em João Pessoa, são muito mais animados do que a folia de momo tradicional. A música de Fuba virou hit básico nos trios elétricos locais e nos barzinhos com som ao vivo.
Um desses bares é o Jacaré, que fica na praia do Jacaré, em Cabedelo - município 15km ao norte de João Pessoa. Ande toda vida pelo calçadão recém-inaugurado que você chega lá. ''Pode ficar tranqüilo que o lugar não tem esse nome por causa da existência de jacarés'', repetem dez entre dez guias que levam os turistas ao passeio. A origem do nome vem dos distantes anos 40, quando os pescadores viam passar alguns aviões e os achavam tão horrorosos quanto jacarés. Mas que fique bem claro: feios são os bichos, não a região. Banhada pela água salobra do rio Paraíba - que em tupi-guarani quer dizer ''rio ruimde se navegar'', por causa de seus bancos de areia - a praia do Jacaré apresenta um pôr-do-sol difícil de se esquecer. Parte da magia se explica pelo visual, que mistura mata, mangue e água até onde a vista alcança. A outra parte vem da música de Jurandy do Sax, que diariamente toca o Bolero de Ravel, em homenagem ao pôr-do-sol.
Tarde de sábado, cerca de 17h, sol batendo forte nas costas. Uma banda de rock e MPB toca, sem se esquecer do clássico Porta do Sol. Enquanto isso, Jurandy do Sax (ou melhor, José Jurandy Félix) se prepara para a melhor hora do dia: a do pôr-do-sol.
A história que transformou a Praia do Jacaré em sinônimo do Bolero de Ravel é antiga. Conta-se que, no final da década de 80, os freqüentadores do bar costumavam se reunir ao fim da tarde para ouvir discos. E, por uma dessas coincidências, a música começou a tocar justamente no momento em que o sol começou a se esconder. O espetáculo foi tão bonito que, a partir dali, o disco com o bolero virou item obrigatório para o barzinho.
bolero- E, claro, não poderia faltar no repertório de um show que Jurandy iria fazer para lançar um novo CD. A primeira vez que ele apresentou o Bolero no Jacaré foi há dez anos. Mas foi só tempos depois, há quatro anos, que o músico resolveu se apresentar novamente e... ''vim como freqüentador do bar, me inspirei e toquei. Não tinha essa coisa do espetáculo'', conta ele, que nasceu em 1955, ano da morte do também saxofonista Charlie Parker. De lá para cá, Jurandy arrendou o bar e transformou o toque do saxofone ao pôr-do-sol em uma espécie de ''missão espiritual'' diária.
Como toda missão, a de Jurandy exige um ritual. Perto das 17h30, que é quando o sol se põe (sempre muito cedo) Jurandy logo se arruma: solta os cabelos compridos, coloca uma roupa branca e adapta um pequeno microfone ao sax. Quando os primeiros acordes começam, é uma som delicioso que deixa o turista de papo para o ar, relaxado.
Mas de onde vem esse som? Vem de um píer pertinho do bar. É de lá que Jurandy sai andando e tocando, em direção a umacanoa que o leva até as escadarias do bar. Os turistas enchem o lugar e fazem com que os sons do bolero se misturem aos aplausos.
''Sinto uma energia forte quando toco o Bolero. Faço isso mesmo quando estou longe daqui. E cada dia é diferente do outro. É como se eu fizesse parte de um todo, formado pelo rio, pelo sol e pela música'', conta o músico. Em 30 de março, ele faz a milésima apresentação. E, para a festa ser completa, basta conseguir colocar o feito no Guinness Book ( o livro dos records), como a pessoa que mais tocou a canção.
Serviço
Jacaré Bar (praia do Jacaré - Cabedelo )
Telefone: (83) 248.3880
Golfinho Bar (Bolero de Ravel com violinos)
Telefone: (83) 248.2058