Edição de Segunda-Feira, 10 de Março de 2003
 

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O homo pekinensis

O dirigente vitalício de Cuba, depois de anos que se passaram da primeira visita à China, voltou há poucas semanas ao país oriental, para conversações com os mandatários da nação asiática. O que observou desta feita o deixou perplexo, mais do que simplesmente admirado. Viu a China em buliçoso movimento, crescendo a taxas elevadas, da ordem de 10% ao ano, parecendo estar longe de perder o fôlego suscitado pelas reformas idealizadas e em parte levadas a cabo por Deng-Xiao Ping. À época em que se produziram na China as primeiras reformas de caráter capitalístico, perguntaram a Deng-Xiao Ping se elas não estariam a contrariar a essência do sistema comunista vigente no país. A resposta ficou clássica: "Não importa a cor do gato, importa que ele coma o rato", disse, justificando-se da metodologia utilizada para impulsionar o desenvolvimento econômico do país comunista (embora sem impulsionar o avanço social e político).

  De lá para cá, Fidel Castro ouvia dizer que estavam entrando na China comunista fábricas e mais fábricas de tudo o que existe de atraente no Mundo, fábricas de carros, por exemplo, a fim de abastecer uma nascente e esquisita classe média originária do desenvolvimento acelerado na zona do país separada para empreendimentos capitalistas. E espantado deverá ter ficado, quando lhe disseram que os mais famosos costureiros de Paris, à frente Pierre Cardin, estavam a montar, ali, a sua indústria do luxo a ser convertido em dólares norte-americanos para remessa oportuna à França. Não poderia acreditar no que lhe estavam a dizer, porque incentivar a indústria de porte, vá lá, são isto contradições abençoadas que revertem em favor do povo. Mas vestidos de luxo e perfumes? Não se conformava o ditador ilhéu.

  Agora, na segunda viagem, durante a qual foi buscar alento econômico, porque se acabaram os subsídios da ex-União Soviética, assombrou-se de uma vez por todas: "Não posso estar realmente seguro sobre que tipo de China estou a visitar. Da primeira vez em que aqui estive, o país parecia de um jeito e, agora,que volto a visitá-lo, parece de outro". Na conversa com os dirigentes chineses, é claro, não se lembrou de maldizer as reformas heterodoxas ali realizadas, limitando-se a afirmar que "o país, sem dúvida, passou por grandes mudanças".

  Efetivamente, é de admirar o mais descuidado analista o fato de o populoso país asiático, comunista na essência, esteja sendo propelido por uma economia de moldes capitalistas, na qual o combustível é o dólar, a moeda do país historicamente acusado de hegemônico e imperialista.

  Fidel Castro jamais poderia pensar que tão cedo pudessem esquecer os chineses os manuais clássicos com que foram educados desde o tempo de Mao-Tsé Tung. Hoje, o livrinho vermelho do camarada Mao não manipula a consciência dos jovens, ele se acha guardado para consultas eventuais, esporádicas, numa ou noutra biblioteca mantida como lembrança pelo Partido. Embora o marketing não se tenha tornado uma disciplina ética por excelência, a mocidade chinesa de hoje anda mais interessada na mercadologia, porqueé fonte de dinheiro, do que na doutrinação partidária.

  Mais do que a presença dos costureiros na China, teria Fidel Castro achado esquisito que, depois de tantos anos de doutrinação, não se tenha criado o "novo homem" de Pequim no país da Grande Muralha.








 

 
 
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