Coreógrafa Maria Paula Costa Rêgo inaugura espaço para reflexão e prática da dança, nas Graças
Ivana Moura
Da equipe do DIARIO
Desde que foi criado há seis anos, o Grupo Grial alimenta a preocupação de desenvolver um vocabulário coreográfico da dança brasileira. Nesse gramática própria entram as influências dos passos contemporâneos, as tradições culturais do Nordeste do Brasil. Foi assim com A Demanda do Graal Dançado, Auto do Estudante que se Vendeu ao Diabo, As Visagens de Quaderna ao Sol do Reino Encoberto e Uma Mulher Vestida de Sol - Romeu e Julieta. Enquanto prossegue com a bem-sucedida temporada da mais recente cria da companhia, Folheto V - Hemisfério Sol, o Grial prepara o terreno para dar abrigo a gestação dos próximos trabalhos e está abrindo um espaço de experimentação na Rua Esmeraldino Bandeira. "A intenção é aliar à prática da dança, o pensamento reflexivo e crítico do que é feito na cidade", conta a diretora da companhia, Maria Paula Costa Rêgo.
A semente desta idéia começou a se materializar com o projeto Festa Anunciada, uma celebração da linguagem da dança que teve lugar no Sítio da Trindade, local que alojou osespetáculos do grupo nos últimos quatro anos. Além do Grial, o casarão pretende se transformar em pólo aglutinador de coreógrafos e bailarinos de várias vertentes da dança, seja clássica, popular, de salão ou contemporânea. "Queremos promover bate-papo com os melhores profissionais do Recife", adianta. O Grial quer juntar no mesmo caldeirão mestres da dança tradicional e jovens bailarinos e ver no que vai dar.
O espaço também vai servir de laboratório de iluminação, para afinação de luz. "Existem pessoas competentes na cidade, mas que não dispõem de um lugar para realizar os seus experimentos", constata Maria Paula, que quer aglutinar para esse propósito o pessoal também de teatro, que também sofre com a falta de lugares para burilar a iluminação de suas montagens.
EQUILÍBRIO - Hemisfério Sol é o quinto espetáculo da companhia, que utiliza elementos de circo e acrobacias para expressar sua arte. Na realidade, a coreógrafa prefere conceituar o trabalho como um exercício nas alturas, que ela começou a desenvolver quando morou na França, com a trupe Les Passengers (Os Passageiros), que criou a técnica de balé na vertical. Durante uma hora, nove bailarinos, três alquimistas e um artista circense desafiam a lei da gravidade. Inspirado mais um vez na obra do escritor Ariano Suassuna, mentor intelectual de todas as obras da companhia, a montagem enfoca os dilemas da alma humana, na tentativa de encontrar o equilíbrio.
Uma frase de Suassuna guiou toda a pesquisa coreográfica, quando ele diz que a alma humana se divide em dois hemisférios: o rei e o palhaço. O rei conduz o homem à ganância, à acumulação de bens materiais, quanto o lado palhaço persegue o a essência do amor. O espetáculo faz uma nítida opção pelo hemisfério palhaço.
Fôlego, acrobacias, dança na vertical. O grupo se movimenta sobre uma estrutura de andaimes, onde é superposta uma imensa tela branca, de 15 metros de altura por 12 de largura, que funciona como uma parede. O investimento busca atrair para a dança uma pequena multidão, a exemplo do que acontece com as bandas de rock. Para isso, conta também com a trilha sonora de André Freitas, que transita com competência entre o armorial e o eletrônico, das imagens projetadas no telão de Martins Simões, dos figurinos coloridos de Marcones Lima e da iluminação de Elias Mouret. Atualmente o Grial é patrocinado pela Chesf.
Serviço
Folheto V - Hemisfério Sol, espetáculo do Grupo Grial de Dança
Onde: ao lado do Teatro Armazém (Bairro do Recife)
Quando: Até 16 de março. Sábado, às 21h e domingo, às 20h
Quanto: Entrada franca