Edição de Sábado, 8 de Março de 2003
 
Início Diario de Pernambuco Política DIARIO Nacional

Diario

Índice Geral
Expediente
Ed. Anteriores
Assinaturas
 

Cadernos

Política
Brasil
Mundo
Economia
Esportes
Vida Urbana
Viver
 

Suplementos

Revista na TV
Empregos
Viver Mulher
Viagem
Informática
Saúde
Carro
Imóveis
 

Serviços

Loterias

 

Política

DIARIO Nacional

Leniências e intolerâncias

DORA KRAMER
E-mail: dkramer@estadao.com.br

NÃO SE ESPERA DO GOVERNO REAÇÕES AUTORITÁRIAS. APENAS O CUMPRIMENTO DA LEI E A MANUTENÇÃO DE UMA POSIÇÃO PARA PRESERVAÇÃO DA AUTORIDADE E DE UMA PROTEÇÃO A UMA SOCIEDADE QUE ACABOU DE PASSAR POR UM PROCESSO ELEITORAL

O governo federal não tem duas escolhas: ou isola politicamente o Movimento dos Sem-Terra (MST) ou será desmoralizado por ele. Inaugurada uma nova temporada de confronto, as coisas tinham começado bem, com a posição unitária da condenação dos atos de violência, considerados pelos ministros da Casa Civil e do Desenvolvimento Agrário como incompatíveis com o regime democrático. Até que o presidente do Incra, Marcelo Resende, resolveu que não, que ocupações de terras e prédios públicos são perfeitamente compreensíveis, entre outros motivos porque se trata de "uma prática antiga no País". Sem tirar nem pôr, é a mesma tese defendida por João Pedro Stédile: "Os episódios que aconteceram são normais, naturais", considerou, acrescentando que o MST não fez desta vez nada que não tenha feito antes e que não vá continuar a fazer "enquanto existirem grandes propriedades improdutivas de um lado e milhões de sem-terra do outro". Ainda que involuntariamente, Resende e Stédile evidenciaram um equívoco nas declarações dos ministros, segundo as quais o MST ultrapassou agora os limites da democracia. A antiguidade da prática, ressaltada por seus adeptos, demonstra que os limites da legalidade foram ultrapassados há muito. Desde que houve a primeira invasão e se instaurou a paralisia geral ante a suposta justeza da reivindicação. O tempo passou, a leniência se consolidou e agora governo federal e sociedade deparam-se com a renitente reincidência da infração à Constituição e aos costumes vigentes. Inclusive, e principalmente, aos costumes dos milhões de brasileiros que não têm como pagar o aluguel, as prestações, a mensalidade da escola, a conta do supermercado e, nem por isso, se acham no direito de agredir o direito alheio em busca do que lhes é presumidamente devido. São pessoas tão necessitadas quanto aquelas que - para usar as palavras do presidente do Incra - "estão vivendo sob uma barraca preta e em condições subumanas". Condições estas que, na visão de Marcelo Resende, conferem a esses grupos a prerrogativa de ignorar a lei eo privilégio de receber do poder público uma compensação que não é dada a outros cidadãos do País. A permanência do presidente do Incra no cargo autoriza a conclusão de que a existência de brasileiros mais iguais que outros perante a lei é uma idéia aceita pelo governo. E, além disso, torna lícita a suposição de que em nome da necessidade vale tudo. E, se vale para o MST, o princípio tornar-se-á válido também para os que considerarem insuficiente o aumento do salário mínimo. Este é apenas um exemplo, porque os servidores públicos, ante a possibilidade de um reajuste máximo de 4%, também se poderão sentir autorizados a ocupar as respectivas repartições a poder de pau e pedra. Note-se que o que se espera do governo não são reações autoritárias. Mas apenas o cumprimento da lei e a manutenção de uma posição única no que tange à preservação da autoridade. Atitude, em última análise, de proteção institucional a uma sociedade que acabou de passar por um processo eleitoral cujo resultado tem de ser obrigatoriamente respeitado por todos, começando pelo entendimento da igualdade coletiva perante a lei. Que o MST se considere acima do bem e do mal e dê-se ao desfrute de exercer unilateralmente o poder de veto sobre nomeações que cabem a ministros de Estado ou ao presidente da República, digamos que já faça parte do show de intolerância e autoritarismo protagonizado desde sempre por seus líderes e integrantes. Agora, que autoridades se façam parceiras dessa concepção do que seja movimento social, aí já começamos a enveredar pelo terreno do inadmissível. Tão inadmissível quanto o fato de o presidente do Incra desmentir o ministro-chefe da Casa Civil quanto à intenção de revogar a medida provisória que impede a desapropriação de terras invadidas e retira os invasores do programa de reforma agrária. José Dirceu afirmou que o governo nem pensa em rever a legislação, mas Marcelo Resende informou que os estudos para a revogação - que ele considera imprescindível - estão em andamento. Ou o ministro está mal informado, ou estamos diante de um caso isolado de indisciplina passível de imediata correção. Pode ser também que o presidente do Incra esteja mesmo fazendo o papel de apaziguador numa estratégia que, segundo assessores do Planalto, criaria um equilíbrio entre a firmeza e a maciez nas relações do governo com o MST.Todas as hipóteses são graves. Mas a última, se verdadeira, seria a pior, por revelar a presença no governo de estrategistas ao mesmo tempo primários e mal-intencionados.








 

 
 
Sua Opinião


Copyright 2001 - Pernambuco.com

Todos os direitos reservados.
É proibida a reprodução parcial ou total do conteúdo
desta página sem a prévia autorização.
diario@dpnet.com.br