A Festa de Margarette aguarda lançamento em 2003
Luciana Veras
Da equipe do DIARIO
Responda sem pensar: filme brasileiro mudo e rodado em preto e branco? Limite, alguns responderão. Aitaré da Praia, dirão os pernambucanos. Ganga Bruta, bradarão os mineiros. Acréscimo à pergunta: mudo, p&b e produzido no ano passado? Alguém se habilita? O diretor e roteirista Renato Falcão, um gaúcho radicado há anos em Nova Iorque, tem a resposta: A Festa de Margarette, seu primeiro longa-metragem, exibido pela primeira vez no Cine Ceará, levado a Gramado, ao Festival Rio BR e à competição de Brasília (onde ganhou o prêmio de melhor direção de arte e menção especial do júri) e aguardando lançamento comercial no País. Com apenas duas cópias, chega ao Recife em 2003.
A história por trás dessa película é, no mínimo, curiosa. "Tive um sonho, acordei e escrevi. Trabalhei muito tempo sem ter idéia de onde chegaria. Tinha estudado psicologia e aquela expressão do inconsciente me agradava. Com o tempo, achei que dava um roteiro", lembra Falcão, que estreou com o curta Presságio (1993) e fotografou diversos projetos com a turma de amigos da Now York Film Academy, como Nepturn's Rockinghorse e American Desi (que ele descreve como "uma comédia romântica, versão americana de Bollywood") antes de mergulhar em Pedro (Hique Gomez) e Margarette (Ilana Kaplan), o casal que protagoniza sua Festa.
Do sonho veio o roteiro que o diretor, 38 anos, queria ver na tela "antes de completar quarenta, aquela coisa de fim de milênio". Do roteiro, o orçamento de US$ 200 mil e o desejo de não utilizar falas e rodar em cenários construídos. Razões: "Sempre me irritei com os diálogos brasileiros, em que as pessoas falavam como se estivessem lendo um papel. Como não me considero um roteirista, acho que os filmes deveriam ser primeiramente visuais". Falando nas locações, ele se alegra. "Há um barracão em cena que foi todo construído, pegamos elementos de antiquários e colocamos o lugar em pé. Foi muito gratificante ver isso", exulta.
Esse barracão em questão é onde mora o casal Pedro/Margarette. O título do filme não deixa dúvidas: o maridão, embora sem grana, quer fazer uma festa para a amada. Tudo na narrativa chapliniana estabelecida por Falcão (influência que ele não nega e à qual adiciona Godard, Truffaut e Fellini - "acho o filme discretamente Fellini, que realmente adoro") serve a esse propósito de Pedro, desde a cena em que as crianças transformam uma refeição em batucada aos momentos em que as realidades, a da tela e a de fora dela, confundem-se em planos que evocam a desigualdade social do País.
Para Renato Falcão, que filmou na velocidade de 18 quadros por segundo em Super 16 mm ("uma brincadeira que fez a montagem muito mais fácil"), as características técnicas de um filme mudo não se dissociam de um compromisso de retratar a vida como ela é, por assim dizer. "Temos que mostrar o que vemos diariamente, as várias faces do país", sustenta, acrescentando, porém, que é preciso saber dosar. "Filmes muito realistas às vezes me incomodam quando um ponto de vista é levado ao extremo. Adoro magia e cinema e quis casar essas duas coisas",complementa.
O resultado é A Festa de Margarette, filme mudo e p&b sem diálogos, adornado pela trilha sonora composta por Hique Gomez e classificado, invariavelmente, como "artesanal". Eis uma definição que o diretor não rechaça, ao contrário de "obra de arte", em que não acredita. Goste-se ou não da estética e do ritmo exacerbadamente lento para platéias acostumadas a avalanches de imagens, deve-se tirar o chapéu para um filme que é obra da arte do esforço e que amplia, por quebrar convenções, os horizontes da produção nacional contemporânea.