Começo austero
A posse do novo governo do País coincide com a chegada do Ano-novo. São por assim dizer duas inaugurações que a tradição faz encher de esperanças todos quantos mourejam em nossa mui querida República Federativa do Brasil. O que do passado incomodava já não aperreia o povo esperançoso por um ano melhor que o outro, e um Governo em favor do qual devem militar todas as presunções e esperanças. Não há como argüir o ônus da cobrança, porque o Governo sequer começou, mas, atribuir-lhe o bônus da credibilidade nos propósitos com que anuncia o programa de realizações.
Realizações? No País, quando se fala em realizações governamentais, logo vêm à cabeça o rol de obras, de metas, com que inundou o Brasil Juscelino Kubitschek. Mas, então, com Juscelino, havia abundância de dinheiro pela simples razão de que, insuficiente à pecúnia arrecada sob a forma de impostos, mandava o primeiro mandatário fazer dinheiro, e dinheiro a rodo, na Casa da Moeda. Realização do tope de Brasília, faraônica em inúmeros de seus aspectos, não é hoje mais possível. São outros os homens, são outras, sobretudo, as circunstâncias.
Agora, aprecia-se o significativo legado que o Governo precedente deixou às administrações futuras, e não foi outro que o necessário balizamento de gastos com o dinheiro público. A lei adverte até mesmo com a incomodativa possibilidade do cárcere àqueles que se aventurem fazer diferente do que faz o quitandeiro da esquina, ou seja, gastar além daquilo que arrecada.
Não é pois que a bola dos partidos vitoriosos da última eleição tenha murchado, ou haja decaído a louca vontade de encher o calendário deste e dos próximos anos de realizações marcantes. Não, não murchou nem decaiu. Mas o administrador desta quadra da vida nacional não pode mais inventar dinheiro para financiar o imaginário. Desde a mais recôndita prefeitura ao palácio mais em evidência de Brasília, urge tirar os pés das nuvens e baixá-los a esta terra vil de amargas realidades. O sonho do palanque deve ser esquecido, e rápido, por quem estava em cima, falando, prometendo, ou pelos que, milhões e milhões de quase devotos da promessa, postavam-se debaixo dele, ouvindo, aplaudindo, delirando.
A senha do Governo que se inaugura é a do indicado ministro da Fazenda, Antônio Palocci, para quem, num ano duro, a primeira obrigação da cartilha consiste em defender a estabilidade. É cânone de inúmeros países, por gerações e gerações, escolher o Chefe de Governo um bom ministro das finanças, espécie de primus inter pares, deixando a indicação dos demais aos arranjos corriqueiros da política partidária. Já acha ele que um ano de lidima austeridade é pouco, talvez, dois, ao menos, sejam necessários cumprir.
As eleições e seus significados
Túlio Velho Barreto
CIENTISTA POLÍTICO DA FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO
Alguns já apontaram que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, por sua trajetória pessoal e política, representou um fato sem precedente na História do Brasil. Mas, até agora, poucos reconheceram que algo parecido pode ser dito a respeito da votação obtida pelo PT nas eleições proporcionais.
Na verdade, não faz muito sentido analisar separadamente esses resultados, em especial porque a militância política de Lula, que nunca teve seu nome associado a outra legenda, se confunde com a própria história do partido que ajudou a criar. Ou seja, quando debutaram, ainda no início dos anos 80, Lula e o PT não representavam uma efetiva ameaça às antigas lideranças. Mas, já em 1986, Lula surpreendeu ao ser eleito o deputado constituinte mais votado do País e, em 1989, quase chegou "lá". Nos anos seguintes participou apenas das eleições presidenciais. Não ganhou, mas tornou-se uma espécie de "reserva moral e eleitoral" do PT e de pequenas legendas de esquerda. Explico: ao ser poupado de outras disputas eleitorais, o que sempre motivou críticas dos adversários, Lula foi consolidando o perfil de um político obstinado e pronto a ocupar a Presidência da República quando a crise econômica eo desencanto político levassem o eleitor a optar pela mudança mais radical possibilitada pelo voto. Nesse período, afastou-se também do cargo de presidente efetivo do PT, o que o colocou acima das inúmeras disputas internas do partido. Tal estratégia, enfim, mostrou-se eficaz, nos últimos 13 anos, tanto Lula quanto o PT ampliaram seu eleitorado.
Quanto a Lula, pode-se dizer ainda o seguinte: às vésperas do segundo turno, as pesquisas já indicavam que o eleitor pretendia votar nele independente da região onde morava e de sua faixa etária, renda familiar, nível de instrução e sexo. Assim sendo, e o resultado eleitoral acabou por confirmar, Lula deixou de ser o candidato apenas da classe média dos grandes centros urbanos, bem nutrida e informada, situação observada em pesquisasrealizadas em anos anteriores, para ser também a escolha dos mais pobres, com menor nível de renda e escolaridade. Aliás, das pessoas que, até então e curiosamente, o rejeitavam talvez porque vissem nele apenas o reflexo de sua própria imagem, alvo permanente do preconceito das elites.
Mas o PT também obteve um resultado inédito em nossa história política recente. Quer dizer, pela primeira vez, desde a reforma partidária dos anos 80, um partido que não teve origem no MDB ou na Arena (legendas criadas no pós-64) foi o mais votado nas disputadas proporcionais. Dessa forma, ao eleger o maior número de deputados federais (91) e estaduais (148) do País - o que não significa, é claro, que terá maioria na Câmara e nas assembléias legislativas -, o PT superou os sucedâneos do MDB (PMDB e PSDB) e da Arena/PDS (PFL). Diferentemente desses partidos, que cresceram - ou "incharam? - alavancados por algum plano econômico ou porque já estavam no Governo, o PT consolidou-se na oposição. Entretanto, até chegar "lá", Lula eo PT abandonaram os ideais socialistas, ampliaram as alianças à direita e moderaram o discurso, ou seja, cumpriram uma trajetória semelhante à da social-democracia européia. Agora, entre outras, nos resta uma pergunta: isso significa que avançaremos em direção ao Estado de bem-estar ou ficaremos restritos às políticas sociais compensatórias? Mas, aí, já se trata do governo Lula-PT e não do resultado eleitoral.
Artigo substituindo Luis Fernando Veríssimo que será publicado agora às quinta-feiras e domingos.
A biblioteca dos reis
Roberto Cavalcanti de Albuquerque
ENSAÍSTA
Em A longa viagem da biblioteca dos reis (São Paulo, Companhia das Letras, 2002, 554 páginas), Lilia Moritz Schwarcz conta-nos, apoiada em vasta pesquisa documental e rica iconografia, a longa e acidentada história das bibliotecas dos reis portugueses. Ela culmina com a vinda para o Rio de Janeiro dos cerca de sessenta mil livros, muitos deles raros, manuscritos, mapas, gravuras, documentos e outras preciosidades que estão na origem da Biblioteca Nacional, a mais ilustre das bibliotecas em terras americanas.
A velha Livraria Real portuguesa, obra de sucessivos monarcas desde dom João I (1385-1433) e uma das jóias do Reino, fora ampliada e sistematizada por dom João V (1706-1750). Era considerada uma das mais importantes da Europa. O terremoto de 1755, que destruiu Lisboa, transformou em destroços o Paço da Ribeira. E em cinzas a Livraria, que ali se abrigava. Uma nova casa do livro, a Real Biblioteca, foi organizada por dom José I e seu sempre presente ministro, omarquês de Pombal. Sob um novo espírito, o do Iluminismo português, juntou-se o pouco que sobrara, compraram-se acervos privados, requisitaram-se coleções em mosteiros ou abandonadas pelos jesuítas expulsos do país, receberam-se generosas doações. Foi essa rica coleção que dom João VI e sua corte, fugindo ao exército de Napoleão que invadia Portugal, decidiram, em 1808, trazer para o Brasil. Na azáfama da fuga, os caixotes de livros acabaram abandonados no porto, a sol e chuva, até seu retorno ao Palácio da Ajuda, em Lisboa. Chegaram depois ao Brasil, em duas levas: uma em 1809, outra em 1811. Instalada no Rio, a Real Biblioteca continuou crescendo e prosperando. Com a Independência, já transformada em Biblioteca Imperial, o acervo trazido do Reino foi comprado a preço de ouro: 800 mil contos, 12,5% das indenizações pagas a Portugal, no bojo das negociações do reconhecimento, pela antiga metrópole, do Brasil independente.
A Biblioteca Nacional (nome adotado com a República) é instituição-chave para a execução de uma política cultural e, especificamente, de política de memória para o País.
De um lado, a endomemória, realidade subjetiva, faculdade humana, preenche-se, preserva-se, amplia-se e se multiplica pela educação, que é capaz de manter, produzir, acrescer e disseminar o conhecimento, transformando-o em memória viva da sociedade. De outro lado, a exomemória, a memória externa, objetiva, está capturada em ruas e praças e casas, em documentos, em livros, em quadros e esculturas. Por séculos, cidades, arquivos, bibliotecas, museus vêm sendo suas moradas privilegiadas. Só o homem, ao percorrê-los, penetrá-los, pode libertar as mensagens contidas nesses produtos de cultura e vivificá-las, preservando-as como forças vivas de sua identidade.
Ante o poder homogeneizador da globalização, o Brasil, país pobre e novo, deve afirmar e defender identidade nacional ainda frágil. E fazê-lo através de políticas voltadas a referenciar, proteger e valorizar os seus bens culturais próprios, a começar pela língua nacional,veículo por excelência da construção de sua realidade.
Fez-se muito, nos últimos anos, visando a esses objetivos, principalmente sob a coordenação do Ministério da Cultura, ao qual se subordina a Biblioteca Nacional. Muito, porém, resta fazer, dando curso a uma tarefa que, devendo ser permanente, não pode ser descontinuada.
Saudades de 2002
Rivaldo Paiva
ESCRITOR
Hoje madrugamos e amanhecemos dedicados às comemorações do mais antigo feriado do Mundo. A festa do Ano Novo mais antiga que a história registra aconteceu por volta de 2000 a.C., na Babilônia, quando a agricultura comandava o calendário. O ano correspondia ao tempo reinante entre a plantação das sementes e a colheita. O evento acontecia em março. Nela, rezas e oferendas eram realizadas em homenagem a Marduck, o deus da agricultura.
Assim, na oportunidade de agradecer aos meus leitores por mais um ano de tolerância às minhas crônicas quartafeirianas neste DIARIO, renovo meus votos de felizes 365 dias adiante, sem antes deixar de ressaltar minhas saudades de 2002. Geralmente se saúda o ano entrante e logo se esquece o que passou. Por isso, é bom relembrarmos o que ficou de ontem pra trás no Brasil: fomos pentacampeões mundiais de futebol; mostramos equilíbrio econômico face às sucessivas ameaças de crises financeiras em decorrência da fragilidade da moeda de vizinhos e dos além mares;elegemos, em sufrágio universal, um homem do povo para nos conduzir nesses próximos quatro anos; exemplificamos para o mundo a estabilidade democrática do nosso País através do professor Cardoso e assistiremos, logo mais, a passagem de governo mais livre e tranqüila dos últimos 40 anos.
E esta passagem se referencia nos bons ventos que ainda espanam os sonhos de todo esperançoso brasileiro que se preza. É como se voltássemos à Babilônia, inventora da divisão anual do calendário e ensejemo-nos à colheita daquelas tão auspiciosas sementes que plantamos em 2002.
Não temos nenhum Welles fantasiando especulações espetaculares para nos assombrar, no entanto seria bom que selecionássemos as melhores safras cultivadas e ficássemos de olho num outro Brasil pregado pelo novo presidente Luiz Inácio Lula da Silva - da paz e amor - pernambucano dos nordestinos emigrantes por esse mundão afora do Sul, Sudeste, Norte e Centro-Oeste deste País. Os barbudinhos do PT estão com a corda toda dada pela maioria do povo brasileiro. Esperemos não nos decepcionar mais uma vez com as tais promessas de mudanças, pois já estamos até aqui de cansados - cabreiros de mesmo com a política de políticos politiqueiros, cheios de politicagens.
Embora havermos presenciado um ano internacional da mais completa irracionalidade e violência por parte dos terroristas de passaportes os mais diversos - agressores e agredidos, diante a famosa lei de Du Fay - sempre juntamos uma sobra de bom senso para que a resignação da esperança não se torne um tormento daqui a pouco.
No plano local, Pernambuco vai muito bem, obrigado. Reelegemos o companheiro Jarbas, que presenteou nosso Estado com obras há muito reclamadas. Estamos crescendo devagar, porém tão bruscamente, diante da estagnação político-administrativa que governos passados nos impuseram - e marcharemos solidários, junto a ele, para a nossa recuperação econômica e de valores sociais.
Portanto, gente, lentilhas à mesa, fumegando um bacalhau de forno - nada de comer bicho de pena, pois só ciscampara trás - e regado ao mais espiritual vinho verde português, gelado aos prantos alegres de vivas sonantes ao que foi e o que será.
Em Nazaré da Mata
Marly Mota
ESCRITORA
A quinta-feira 26 de dezembro parecia domingo. Em Nazaré da Mata, tudo era festa: ruas embandeiradas, o povo tomando as calçadas e praças, acompanhando blocos de maracatus, caboclos de lança, porta-bandeiras. Orquestras, com zabumbas e ganzás, enchiam de sons o pátio do antigo Matadouro Público, um belo prédio art déco, de singelas linhas ressaltadas pelo tom suave da pintura.
A festa foi feita pelo prefeito Jaime Correia e pelo Promata, que resolveram transformar lindamente aquele espaço em Centro Cultural Mauro Mota. A eles agradeço, em nome da família, tão feliz iniciativa. Também a Fátima Guedes, a Dolly Dalla Nora e à poeta Maria do Carmo B. Campelo que, com o projeto Arte Vida, ensaiou o jogral - tão bonito de se ver, como de se ouvir - na Celebração Poética Mauromoteana, encenada no adro do Espaço Cultural.
Naquele final de tarde, em companhia de meu filho Eduardo, e de meus netos, Sérgio Mota Filho e Mauro Mota (que nos seus seis aninhos leva com orgulho o nome do vovô), representando filhos e netos ausentes, assumimos a honraria daquela brilhante homenagem. Para acrescentar ainda mais à nossa alegria, ali estavam Maria do Carmo e Marcos Vilaça, compadres do coração, além de Socorro Vilaça Rodrigues, tornando a festa mais afetiva.
Naquele clima festivo e de saudades tivemos tempo de refazer o inventário das lembranças deixadas por Mauro Mota. Agora, mais do que nunca, ele está plantado naquele chão. Ali, não dormirá, apenas fará seu serão, em casa de onde não mais sairá; porque ali é o domicílio de sua infância. Difícil esquecê-lo. "Vinha dos bangüês a doçura dos ares nazarenos. Cocadas, alfenins, caramelos; doçura das latas de mel de engenho em domicílio; doçura da bala de Sinhá da Bola; doçura da flauta de Targino; doçura do piano de Celina; doçura da fala de Paulina costureira; doçura dos sinos das igrejas; das tosses curadas com Xarope Peitoral Nazareno."
Fiquei a imaginá-lo tal qual no seu poema de iniciação "Figurino": vestindo paletó azul, calça de flanela creme, sapatos chocolate, na calçada de Amélia Seve, em Nazaré da Mata... Amélia Seve, alcoviteira do "bem", levando e trazendo recados das moças da cidade para o irresistível poeta ainda no verdor dos anos, freqüentador do Cine Lux e dos filmes de Harold Loyd; do bilhar de Joca Progresso; do Hotel de Maçu; da farmácia de Artur Neves; da Biblioteca do Centro Literário. Sem o dom da palavra - como costumamos dizer - foi orador da banda Euterpina Juvenil Nazarena e do Clube Estrela. E publicou os primeiros versos na Gazeta, sob a direção dos padres Odilon Pedrosa e Álvaro Negromonte.
Esse itinerário me foi sugerido pela sua crônica "A Flauta e o Mel", publicada no seu querido DIARIO DE PERNAMBUCO, de 28 de setembro de 1980, verdadeira declaração de amor a Nazaré da Mata. Ou Nazaré da "Mota", como costumavam brincar alguns de nossos amigos. Algumas dessas lembranças juntei às minhas cores, para compor a série de quadros intitulada Cenas Mauromoteanas, agora exposta no salão do Centro Cultural Mauro Mota, do Instituto Joaquim Nabuco.
Lembro-me do dia em que o poeta, que nascera no Recife, não cabia em si de contente por receber o título de cidadão de Nazaré da Mata, onde passou toda a infância. Antes de morrer, manifestou o desejo de levar no caixão um punhado da terra do quintal da casa antiga de sua querida Nazaré.
O poeta Mauro Mota transformou o imediato e o cotidiano em simbologia poética, no dizer do grande crítico brasileiro Ivan Cavalcanti Proença. Neste ano de 2003, seu primeiro livro, Elegias (editado em 1953), completará cinqüenta anos.