Vicente Nunes
Da equipe do Correio Braziliense
Luiz Inácio Lula da Silva toma posse hoje ainda tendo que administrar a má vontade do mercado financeiro com seu governo e quase sem margem de manobra para cumprir promessas que lhe garantiram boa parte de seus mais de 52 milhões de votos. Ele assume os rumos de um país com inflação anual de dois dígitos, juros bem acima de 20% ao ano e em meio à maior escassez de dólares da história do Brasil. "Analisando esse quadro, fica difícil pensar na possibilidade de uma administração tranqüila. O PT sabe que não tem o direito de errar, como sempre ressalta Lula. Então, ao menor sinal de descompasso na política econômica a crise de confiança no governo tomará proporções exageradas", diz o economista-chefe do Lloyds TSB, Odair Abate.
As previsões do mercado para 2003 são desalentadoras. O crescimento da economia deverá ficar entre 1,5% e 2%. A expansão da atividade produtiva será travada pelas altas taxas de juros. Na média, a Selic, que serve de parâmetro para a formação do custo do dinheiro no país, ficará em 20%.O motivo: a necessidade do governo de reverter as expectativas inflacionárias. As projeções apontam para um IPCA, índice escolhido como meta oficial de inflação, de até 12%. Trata-se de um número desastroso, se for levado em conta a meta inflacionária fixada para 2003, de 4%, podendo oscilar 2,5 pontos percentuais para cima ou para baixo. O mercado prevê ainda um dólar médio entre R$ 3,60 e R$ 3,70. Isso, mesmo se o mercado internacional reabrir as linhas de crédito para o Brasil.
"Os desafios são enormes. E as desconfianças, também", avisa Fábio Fender, responsável pela área de câmbio da Corretora Liquidez. O economista-chefe para a América Latina do Banco WestLB, John Welsh, vai além: "A condução da política monetária (juros) por parte do Banco Central será fundamental para controlar as expectativas. Não se abrirá um milímetro de espaço para decisões políticas", ressalta. Na opinião do estrategista de Renda Fixa do Morgan Stanley, Jaime Valdívia, para manter sob controle as rédeas da economia e debelar devez o fantasma da inflação, Lula terá de promover um novo arrocho fiscal, ainda que tal medida provoque arrepios na ala mais radical do partido. "Estamos torcendo para um choque de credibilidade", enfatiza Valdívia.
O choque de credibilidade esperado pelo mercado não se restringe, porém, a um aumento do superávit primário (receitas menos despesas, sem levar em conta os gastos com juros), avalia Carlos Reis, presidente da Comissão Nacional das Bolsas (CNB). Junto com a economia maior nas receitas do governo, Lula terá de aprovar reformas que o PT foi contra no Congresso como a da Previdência Social. Mas o tempo de espera, acrescenta Odair Abate, do Lloyds TSB, será mínimo. "A pressão do mercado sobre Lula será enorme, mesmo que, no primeiro momento, os investidores dêem ao governo petista o benefício da dúvida", diz Abate. "O mercado quer todas as reformas possíveis que Fernando Henrique Cardoso não conseguiu aprovar, inclusive a tributária."
Falta de confiança - Para Carlos Reis, Lula terá, ainda, o desafio duplo de reativar o mercado de capitais interno e externo às empresas brasileiras. Segundo ele, mesmo as grandes companhias não estão conseguindo se financiar, a ponto de terem de abortar programas de investimentos para o aumento da produção. Um problema seríssimo para um país com índice de desemprego próximo de 8%. No cenário interno, afirma ele, as empresas não conseguem emitir ações por total falta de compradores. A venda desses papéis que representam parte do capital das companhias - é a forma mais barata de captar recursos para a expansão do parque produtivo. "Não há criação de novos empregos sem empresas que os gerem. Isso, no entanto, depende de poupança interna. Só que essa poupança, ao invés de estar estimulando o crescimento do país, financia a dívida do governo", alerta. No campo externo, a desconfiança é total em relação às empresas brasileiras.
Na opinião de Cristina Müller, sócia-diretora da RCW Asset Management, Lula parece estar consciente desse quadro crítico. Tanto que está dando total apoio à implantação do Plano Diretor do Mercado de Capitais, um conjunto de medidas que pretende estimular o mercado de ações brasileiro. "Não prevejo, porém, um 2003 bom para a bolsa brasileira. A debilidade da economia do país é muito grande", afirma.
Cristina reconhece, porém, que os problemas não ocorrem apenas no Brasil, mas também nos principais mercados do mundo. As economias dos países desenvolvidos estão em retração e o mundo convive com uma iminente guerra entre os norte-americanos e o Iraque. "A confirmação dessa guerra jogará os preços do petróleo para cima, empurrando a economia mundial mais rápido para a recessão", diz ela.
O megainvestidor George Soros faz outra ressalva: "Mesmo que o Brasil continue seguindo sólidas política macroeconômicas durante o governo Lula, dificilmente o país voltará a ter acesso, como nos anteriores, ao mercado internacional de crédito." No entender de Soros, o Fundo Monetário Internacional (FMI) terá de encontrar uma forma de viabilizar empréstimos para o País. "Estamos diante de um grande desafio. O mercado financeiro internacional está em crise e eu não sou otimista quando a uma possível melhora no curto prazo", avisa. Em 2002, o Brasil só conseguiu cumprir seus compromissos em dia graças ao apoio do FMI. Mesmo assim, as reservas cambiais do país encolheram US$ 10 bilhões.