Edição de Quarta-Feira, 1 de Janeiro de 2003
 
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MIRIAM Leitão

Dia zero

E-mail: paneco@oglobo.com.br

Há quem pense que Lula venceu porque se candidatou quatro vezes. Não se ganha a presidência pelo cansaço. Uma eleição é vitoriosa pela soma de qualidades e acertos. Por ter feito uma trajetória que deveria ser normal em qualquer lugar, mas é extraordinária

Toda a força da esperança que os começos têm, toda a força dos símbolos que os rituais de mudança incorporam estarão presentes quando o presidente Fernando Henrique passar a faixa para o presidente Luiz Inácio. Não é pequena a conquista resumida na travessia de uma faixa: uma transição normal depois de 42 anos; a mais serena das passagens de Governo; um salto espetacular de mobilidade social.

  Comemora-se hoje o normal e o extraordinário. É normal que um presidente cumpra seu mandato e, após eleições livres, entregue o governo ao novo presidente eleito; é normal que partidos se alternem no poder; é normal que toda a burocracia desta troca de responsáveis nos cargos do poder executivo seja feita da forma mais civilizada possível em respeito aos eleitores e aos contribuintes; é normal que, numa república democrática, uma pessoa vinda de qualquer classe social consiga chegar ao poder máximo. E tudo isto é extraordinário!

  Primeiro, porque o ritual democrático tem sido raro na História do Brasil. Segundo, porque poucos países têm uma estrutura social capaz de permitir o sonho da mobilidade extrema que se vê hoje em Brasília. Amanhã, outra normalidade incomum: na sede do Banco Central, as 10h30, o ministro Pedro Malan passa o comando da economia ao ministro Antonio Palocci. Malan encerra o mais longo período no cargo de Ministro da Fazenda em período democrático. Antonio Palocci assume com um apoio vasto que conquistou em tempo recorde, graças à sua serenidade e coerência. Nos últimos dois meses, os dois estiveram juntos com uma freqüência inesperada e uma afinação espantosa.

  Mais uma demonstração de que o Brasil começa a ser um país normal, onde grupos políticos opostos, pessoas com formação profissional distinta, concordam em princípios como austeridade, estabilidade, responsabilidade, mantendo suas divergências. Depois da festa, da celebração do grupo vencedor, com os aplausos respeitosos dos vencidos, será preciso governar. Não será fácil, por tudo aquilo que já foi dito: excesso de expectativas, escassez derecursos; muitos problemas, poucas escolhas.

  O Governo Lula não formou ainda maioria no Congresso nem para aprovar medidas provisórias e já fala em reformas constitucionais como a da previdência, trabalhista, tributária. Ao enfrentar as pressões de aliados políticos por cargos, o presidente Lula optou por aumentar o número de cargos a distribuir. Ele havia dito que sentia a pressão de um técnico da seleção. Ele fez o que nenhum técnico teria autorização: aumentou o número oficial de convocados. Foram cinco ministérios e várias secretarias, algumas com status de Ministério, e muitas com funções superpostas.

  Tem Ministério da Ação Social e Secretaria de Combate à Fome com status de Ministério, como se política social e o combate à fome pudessem ser separados. Tem Ministério de Turismo separado de tudo. Tem Ministério das Cidades entrando em áreas de vários ministérios. Tem um ainda mal explicado ministério para o Conselho de Desenvolvimento Econômico. Tem o Itamaraty de sempre e um assessor internacionalno Palácio, com toda a intimidade com o presidente, propondo uma perigosa política externa alternativa. Foram plantadas várias sementes de conflitos. Que não prosperem.

  Sobre o Governo Lula pesam expectativas excessivas. Em parte, porque a ascensão de Lula é emblemática: ele atravessou, como cidadão e político, fronteiras que pareciam intransponíveis. Sair da pobreza nordestina, interromper os estudos no quinto ano do fundamental, virar trabalhador qualificado, líder sindical, fundar um partido, ser constituinte e presidente da República. Há quem pense que ele venceu porque se candidatou quatro vezes. Não foi por isto. Não se ganha a presidência pelo cansaço. Uma eleição é vitoriosa pela soma de muitas qualidades e acertos. Por ter feito uma trajetória que deveria ser normal em qualquer república, mas é extraordinária, Lula inspira, na grande maioria, a esperança de conseguir tudo. Não será possível tudo.

  O Governo terá que superar seus constrangimentos e o País terá que entender seus limites. Lula-símbolo terá de passar duas mensagens: o otimismo de quem conquistou a mobilidade social, mas o incentivo para que os demais brasileiros se dediquem mais à educação formal do que ele mesmo se dedicou. Cinco anos de estudo incompletos é pouco; pouquíssimo. O Brasil também estudou pouco; pouquíssimo. O presidente não pode deixar que se firme a idéia de que é possível abandonar o estudo formal e vencer.

  Tem que ser o maior incentivador da presença dos brasileiros, de qualquer idade, na escola. É lá que o Brasil vencerá a batalha do futuro. Pode usar na construção da mensagem dois outros símbolos que carrega: uma menina analfabeta até os 16 anos, que aprendeu a ler no Mobral, em quatro anos estava na faculdade e hoje é a ministra do Meio Ambiente Marina Silva. E a menina favelada e negra que se formou assistente social e hoje será a ministra da Ação Social Benedita da Silva. Os três Silvas do Governo provam que a mobilidade social existe no Brasil e ela alicerça a esperança de um salto do próprio País.

  Os próximos dias, meses e anos trarão tudo: esperança, incerteza, avanços e retrocessos, conquistas e derrotas, conflitos e consensos, erros e acertos. Mas hoje é o começo de um novo ano, de um novo governo. O marco inicial, o dia zero, de uma nova era. E os começos são mágicos. Fiquemos com a magia do dia. Um dia normal e extraordinário!

 








 

 
 
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