Bom trabalho
Como nos bons tempos da escola, dar notas a prefeitos e governadores se transformou num dos agradáveis passatempos da nossa época. Volta e meia, os órgãos de comunicação e estatística política aproveitam as oportunidades que surgem e determinam fazer esta ou aquela pesquisa, para daí tirar a pontuação consentânea. As estatísticas que chamaríamos "administrativas" não vêm com a carga emocional das realizadas na fase eleitoral, vêm por assim dizer escoimadas da habitual margem de desconfiança que por vezes se manifesta, com estrídulo e calor, nas pesquisas da época de eleições.
Os inquéritos de opinião de que tratamos aqui são parte, hoje, do dia a dia democrático de um povo que aprimora o aprendizado político. Inexiste prática democrática sem acompanhamento dos passos por vezes surpreendentes da opinião pública, que, num dia de humor tipicamente britânico, sir Winston Spencer Churchill tachou de "opinião que se publica". A estatística, que se dispõe a avaliar o agrado ou a rejeição do obreiro público, integrou-se de tal maneira nos costumes políticos da atualidade que difícil e raramente poderia ser desdenhada ou descartada. Faz parte por assim dizer indissolúvel do processo de conhecimento da coisa pública e seu devido manejo, circunstância que constitui direito inalienável de todo o cidadão.
Neste exato momento, o DIARIO divulga em primeira mão resultados estatísticos sobre as administrações do Recife e do Estado. Dentre um rol de dez alcaides brasileiro, o prefeito João Paulo, com 33% de aprovação da parte de seus jurisdicionados, alcançou o 4º lugar na lista dos melhores edis do País.
O governador Jarbas Vasconcelos, com a aprovação de 63% da população estadual, obteve o honroso 1º lugar dentre os governadores com mandato. 65% dos pernambucanos acham, inclusive, que o sr. Jarbas Vasconcelos vai realizar, no curso do segundo mandato conquistado nas últimas eleições, governo entre ótimo e bom para o Estado, contra a idéia de que fará governo ruim ou péssimo, que mereceu o pequeno score de 10%.
O fato devir para Pernambuco a premiação governamental, quando a ela concorrem nomes os mais expressivos da experiência administrativa, dá a medida de relevância, para nós, da conquista pessoal do governante. O auspicioso resultado alcançado pelo sr. Jarbas Vasconcelos não revela, contudo, se poderia ter feito mais do que fez, no primeiro quadriênio de seu mandato. Mas, sem qualquer questionamento decoroso, diz alto e bom som que Sua Excelência realizou o que pôde, nas condições por vezes adversas com que manejou a administração estadual.
A premiação ganha pelo governador de Pernambuco e pelo prefeito de sua cidade mais importante tem mais este significado: ela de certo modo compensa adversidade da escassez de recursos e abundância de condições adversas no meio de que trabalham os nossos administradores. Se tivessem trabalhado menos, as carências da população seriam maiores.
O que faço com isso agora?
André Resende
JORNALISTA
No mesmo dia em que o pensador americano Alvin Tofler (autor de A Terceira Onda e Powershift) pede aos novos dirigentes brasileiros que desconfiem dos números sociais e econômicos (ISTOÉDinheiro 25.12.2002) e, imediatamente, procurem aproximar mais brasileiros da sociedade do conhecimento, a exemplo do que fazem os chineses neste exato instante, recebo a informação de que a atriz Demi Moore está namorando o ex-presidente americano Bill Clinton e que se ex-marido, o ator Bruce Wills declarou-se insatisfeito. No Fantástico (29.12.2002), o telespectador é desafiado a demonstrar seus conhecimentos atualizados, diante de parentes e amigos, e responder quem está namorando a atriz quarentona mais cobiçada do planeta.
Puxa vida! Eu sabia a resposta. Na semana anterior foi o que ouvi em vários lugares. Ora as pessoas estavam entusiasmadas. Ora achavam que tudo não passava de um jogo de marketing. Ora alguém perguntava se ele havia se separado da senadora americana Hilary. Ora alguém fingiaestá ouvindo interessado, mas estava mesmo era pensando no que fazer de objetivo em 2003. Eu pensei naquela piada: tudo bem, agora que eu sei que Demi Moore namora o Bill Clinton, o que é que eu faço com essa informação? Tive de me contentar em manter silêncio, mas parece que todos não responderam porque sabiam mentalmente a resposta. Foi o máximo da utilidade coletiva que consegui com esse conhecimento.
Então, como ninguém me ligou ou me procurou para dizer que Alvin Tofler havia dito algo numa revista brasileira sobre o futuro do País, me perguntei se o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, seus ministros e assessores estariam trocando informações, concordando ou discordando das idéias de Alvin Tofler ou se, do mesmo jeito, estariam fazendo sutis comentários do novo par internacional.
Eu sou simpático a muitas idéias e observações da Alvin Tofler. Também sou fã de Demi Moore. E vejo Clinton como um presidente americano que procurou diminuir os abusos do Império, sempre pareceu gentil e habilidosonegociador. Mas, embora dê alguns minutos de atenção ao tipo de conversa sobre esses namoros explosivos e que causam invejas, preferiria um pouco mais de tempo para conversar sobre as opiniões de Alvin Tofler, uma vez que devo a ele, junto com opiniões de Peter Drucker, Teodoro Levit e Waren Buffet, uma visão da economia e da sociedade que não poderia mais ficar enlatada na teologia marxista, salvando em mim, especialmente idéias de Marx e de Gramsci. Uma sorte para um sujeito que até hoje nunca viveu fora do Brasil e que passou a maior parte de sua vida morando numa cidade de economia periférica, analisada pela revista EXAME abaixo das 30 principais cidades do País para fazer negócios.
Embora pareçam diferentes no objetivo, tenho a sensação que a opinião de Alvin Tofler não é menos sem sentido de real que a revelação do namoro entre as duas celebridades, na medida que existe como informação e não parece fazer sentido prático, uma vez que ninguém cita. Fico inquieto com a proposta de Tofler, mas não deixo de me perguntar: como podemos desconfiar sem um desejo de esquecer os números sociais e econômicos? Desconfiamos no sentido de ignorar o que tem até aqui sido feito, ignorando os números que são pró-ativos e evolutivos, ou desconfiamos no sentido de criar um novo padrão, baseado numa pró-ação e evolução definidas pelo número de pessoas inseridas no mundo do conhecimento e não do industrialismo e da agricultura? E, de um jeito ou de outro, como desconfiar dos números e criar outros, se não soubermos quais os resultados tivemos, quais devemos superar e quais conquistar?
Imagino que, antes mesmo dos pensadores brasileiros, Tofler colocou as primeiras idéias no plano prático, iniciando por enfrentar a miséria, erradicar a fome e dar maior atenção a todos os níveis de educação, de começarmos um período que devemos chamar, para que fique bem entendido para todos os brasileiros, de década da prosperidade social.
Reinventando o Governo
João Carlos Cabral Barros
CONSULTOR E PROFESSOR DA FCAP
Imagine o que aconteceria a uma empresa que, periodicamente, substituísse todos seus diretores, incluindo o presidente. Achando pouco, pense ainda que grande parte dos gerentes intermediários também fossem mudados nessa ocasião. Adicionalmente, neste mesmo momento, fosse feita uma mudança estrutural, onde diretorias fossem recriadas, ocorressem fusões de outras etc. Colocando mais um molho, vale dizer que alguns desses diretores novos, muitas vezes, não estivessem familiarizados com aquela organização que vão administrar e/ou não tenham vocação gerencial. Você já deve estar impaciente, pensando "claro que com muito menos essa empresa já teria quebrado e encerrado suas atividades".
Bem, a verdade é que a empresa aqui descrita continua aberta porque é financiada por clientes compulsórios e sem nenhuma chance de escolha, o contribuinte de impostos que financia o funcionamento da máquina de Governo no Brasil. Nas diversas instâncias do Poder Executivo, principalmente no âmbito federal e estadual, o quadro é apresentado sem que tenhamos carregado nas tintas.
Analisemos um pouco mais as mudanças estruturais/organizacionais, as chamadas reformas administrativas, presentes quando novos governos assumem o poder. Aqui em Pernambuco, mesmo com a reeleição do governador, deve ocorrer uma dessas reformas, a ser aprovada pela assembléia em convocação extraordinária para janeiro. Considerando as suas implicações em relação ao funcionamento da máquina de governo, é fundamental que se faça uma análise dos custos versus benefícios das mudanças a fim de poder minimizar seus efeitos danosos. Alguns pontos são clássicos em administração e nem sempre considerados em gestão pública. Por exemplo: o que se pretende alcançar?; quais os benefícios esperados e que sejam mensuráveis através de indicadores pré-definidos?; como será a implantação da reforma, suas etapas, seus responsáveis e como se dará a avaliação periódica do seu andamento pelo principal executivo, ou seja, o governador?; como serão adaptados às normas e procedimentos de cada órgão?; os espaços físicos destinados a ele serão alterados?; e quantos aos projetos já em andamento, iniciados pela gestão anterior?
O ponto mais crítico é: como ficam os clientes, ou seja, todo cidadão usuário dos serviços públicos em relação a essas mudanças?; os serviços que lhe são prestados vão melhorar? Há um quadro grave de deterioração dos serviços públicos no Brasil, caracterizado em muitos casos pelos baixos níveis de motivação e produtividade dos servidores.É simplório querer fazer um diagnóstico da questão nos limites deste texto, mas, seguramente, uma das razões do agravamento do problema é a descontinuidade administrativa a cada mudança de governo em termos estruturais, funcionais e gerenciais.
Estamos torcendo para que as alterações a serem implementadas se atenham ao estritamente necessário e que tenham saldo favorável. Evita-se, assim, a síndrome que afeta alguns governos, tomando a metade do mandato na adaptação às mudanças implantadas. A questão crucial que fica, sem dúvida extremamente complexa de resolver, é como melhorar a eficiência e eficácia dos serviços públicos. A solução envolve muitos aspectos e vai além das melhorias possíveis com uma reforma administrativa. A situação é tão crítica que alguns estudiosos chegam a falar na necessidade de "reinvenção" do Governo. Ressalta-se aí quão importante é a criatividade na busca de alternativas de solução do problema. Há que se considerar nesta "reinvenção" esta verdade hoje aceita por todos: a riqueza principal de qualquer organização pública ou privada são as pessoas que nela atuam e só através delas é possível melhorar a qualidade dos seus resultados.
Fome Zero, calote e etc
Edder Vianna
EMPRESÁRIO
O presidente eleito anuncia como prioridade de seu futuro governo o combate à fome. Tem razão o presidente. É pecado contra Deus e contra o próximo que as desigualdades em nosso Mundo e particularizando, em nosso País, envergonhem-nos a ponto de ver populações inteiras sendo dizimadas por doenças decorrentes da fome ou da subnutrição. Mas se analisarmos as coisas com maior profundidade,certamente teremos, para sermos por um bom momento ao menos, honestos à realidade, que a fome não é causa. É sim e tragicamente efeito. Na análise das causas, ressaltam aos olhos fatores históricos de nossa formação política, social e econômica, inclusive religiosa, a de que boas obras levam à salvação.
Em certo sentido, ter pobres ao nosso redor significa sempre uma oportunidade de "dar esmolas" e aí obter os "favores de Deus", ou dos eleitores. Não é bem assim. Deus não se deixa corromper por gestos pontuais (e atuais). Não é e nunca será o assistencialismo,que leva ao clientelismo político, a saídapara que nossos patrícios saiam da situação miserável em que se encontram.
É digna de nota a vontade do novo presidente em que seus ministros conheçam a real situação do povo que vão governar, não vista do alto, de aviões e helicópteros, mas caminhando pelos caminhos que formam nossa realidade. A chamada elite pensante do País, segundo Joãozinho Trinta, gosta de pobreza. Parece poético. Mas o grande desafio do novo Governo é o de transformar e quebrar paradigmas até hoje pouco combatidos. Vejamos um pequeno detalhe que reflete na sociedade como um todo; o calote.
Hoje, as empresas que trabalham para governos, pela displicência consciente ou não destes em pagar a seus fornecedores e prestadores de serviço com pontualidade, mesmo que obrigados pela Lei de Responsabilidade Fiscal, tornam-se os maiores responsáveis em, por um lado, alimentarem a gula do setor especulativo e financeiro, criando condições propícias para que o empresariado que produz, seja levado a negociar suas faturas a juros imorais, reduzindo a capacidade de aumentar a produção, melhor remunerar seus empregados, e, o pior, sendo obrigadas a enxugar seus quadros. atrasar faturas é a forma disfarçada de governos injustos aumentar a fome dos pobres, tornando-os escravos de uma sociedade cruel. Obter financiamentos de bancos pode gerar produção. Mas fazer migrar os lucros das empresas para os bancos em função da inadimplência governamental é sepultar postos de trabalho.
O setor financeiro é o que mais emagrece seus quadros de funcionários e engordam os lucros fantásticos a custo da conivência do Poder Público, que se nutre do dinheiro da fome do povo em suas campanhas milionárias. Cada nova medida, como a do Sistema Brasileiro de Pagamentos é um forte motivo para o aumento de taxas de serviços cobradas via Ted's e DOC's. Tudo em nome de uma modernidade e pára evitar o calote dos cheques sem fundos.. Mas e o calote do Governo que reduz a pó as faturas quando do efetivo pagamento de suas obrigações para com seus contratados, que os levam a demitir,mal remunerar e quebrar, gerando, como subproduto, a fome? Fome zero se resolve com trabalho, com empregos.
A corrupção neste "fim de festa" se tornou desenfreada em todos os escalões e nos tres poderes. A praga endêmica ataca de municípios à Federação, passando por estados. Do Executivo ao Judiciário, passando pelo Legislativo. Os jornais estão aí publicando supostas acusações de corrupção, todas sem uma resposta firme de uma elite geradora da fome. Mas medidas protecionistas de corruptos estão sendo trabalhadas: de prefeito a presidente, ninguém poderá ser julgado como iguais aos outros por improbidade. Nova usina de fome.
Precisamos mudar nossos conceitos. Não bastam programas assistencialistas. É preciso recobrar a cidadania. Urge que nosso povo, as autoridades constituídas e todas as forças da sociedade se unam no combate às causas da fome. Até lá, senhores governantes, pelo menos paguem as contas. O calote gera fome.