Fim de uma era
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A estabilização, que alguns desdenham hoje por falta de memória, livrou-nos do pesadelo dos preços subindo diariamente, da perda galopante do poder do dinheiro, dos tumultuados cortes de zeros e trocas de moedas, dos ministros que duravam apenas meses e toda a incerteza no país
A era que termina hoje começou antes do começo. O Governo Fernando Henrique iniciou-se quando ele reuniu a equipe que venceu a guerra que derrotara tantos. FH enfrentou crises externas desde o primeiro dia, passou pela mais violenta crise bancária do País, modernizou as políticas públicas na área social e pagou contas do passado: de esqueletos fiscais a indenizações políticas.
Pagar as velhas contas foi didático. Os esqueletos eram contas que o Governo fingia não ver, fantasmas contábeis que assombravam a vida fiscal da República. Foram feitas em outros governos e foram registradas nas contas do período Fernando Henrique. De tal forma, que ficará com ele o ônus de ter aumentado, de 30% para 60% do PIB, a dívida. Ele teve sua parcela nesta conta, pelo peso dos juros altos e dos títulos dolarizados. Aprendeu-se no processo que os gastos têm que ser explícitos, que a verdade contábil é parte da austeridade. As indenizações pagas às famílias dos desaparecidos políticos não pagam as vidas perdidas. Serviram paraque o Estado admitisse publicamente o erro cometido, fortalecendo a esperança de que jamais o cometa novamente.
A estabilização, que alguns desdenham hoje por falta de memória, livrou-nos do pesadelo dos preços subindo diariamente, da perda galopante do poder do dinheiro, dos tumultuados cortes de zeros e trocas de moedas, dos ministros que duravam apenas meses, das violências nos contratos entre particulares, do desrespeito constante ao direito líquido e certo. A inflação, que nos assusta ao bater este ano em 12%, era de milhares por cento. O PT promete agora não esmorecer na luta para levá-la de volta a um dígito; o mesmo PT que há nove anos diagnosticou a morte do real em poucos meses. Que o péssimo legista daquela época seja agora um bom médico.
Para vencê-la quando saíra tão completamente do controle, foi preciso Fernando Henrique chamar uma equipe de doutores: Pérsio Arida, Edmar Bacha, André Lara Resende, Gustavo Franco, Winston Fritsch, Pedro Malan e depois Chico Lopes, entre tantos outros que nãoiriam para o Governo se não fosse FH quem os convocasse. Com seu dom de seduzir, ele levou um a um. Tem gente que ainda levanta a controvérsia de que o Plano Real foi feito por Itamar, que alavancou a candidatura do seu então ministro da Fazenda. Ora, é preciso não ter tido a menor atenção aos fatos para acreditar nisto. Itamar mudava de ministros mensalmente às cegas. Fernando Henrique é que deu rumo ao Governo e foi ali, naquele instante, que começou a era que acaba hoje.
A inflação - ensinou o ministro Pedro Malan - era poeira, zumbido, zoeira, fumaça que nos impedia de ver e ouvir o que estava acontecendo no organismo econômico brasileiro. E nele havia uma infecção bancária. Anos de mentira contábil e distorções em bancos que o fim da inflação revelou. Entre os bancos que tinham fraudes, um era o Econômico, com fortes vinculações políticas dentro da base parlamentar; o outro, Nacional, era da família da então nora do presidente; o terceiro, o Bamerindus, era de um ministro do Governo. Nada disto foi constrangimento para a atuação do Banco Central. O BC não registra um único pedido do presidente de que se poupasse alguém ou algum banco. Banqueiros das três instituições perderam seus bancos. Os correntistas mantiveram seu dinheiro.
A privatização mudou a economia. Algumas, com êxito estrondoso. O setor de telecomunicações fez em quatro anos mais do que fora feito nos 40 anteriores em oferta de telefones aos usuários. Só não dá valor a isto quem nunca passou anos à espera de uma linha. A de energia foi feita sem visão estratégica, e pela metade, e virou um freio do futuro.
Erros foram vários. Acertos, muitos. Falei de ambos. As críticas não foram recebidas com hostilidade, nem os elogios como adesão. Vou sentir saudades da maneira elegante, e institucionalmente correta, com que FH tratou a Imprensa. Os encontros com ele eram sempre regados a notícia e cordialidade, mas mantendo-se a distância que presidente e jornalistas precisam guardar. Eram intermediados por Ana Tavares, uma das pessoas mais corretas que Brasília já viu. Um dos seus muitos méritos: o poder a manteve absolutamente igual à que sempre fora. Jamais exibiu poder, arrogância. Nunca se ouviu falar de FH que perseguisse jornalistas, pressionasse chefes, ou fizesse qualquer tipo de uso do poder, mesmo durante o período em que foi vítima de acusações que se provaram falsas. A democracia brasileira aprendeu com esta forma de relacionamento entre poder e Imprensa, sem cumplicidades, sem perseguições. Espero, sinceramente, que seja este o tom no próximo Governo, e não o turbulento método de perseguições a jornalistas que se viu no Governo do Estado do Rio Grande do Sul.
Ruth Cardoso foi professora de como conciliar a própria individualidade com o papel institucional difícil que se requer da mulher do presidente. Reinventou o papel de primeira-dama, título que sempre detestou pela carga de machismo que carrega. Ela mostrou que o tom certo é não ser estorvo, nem adorno. Andar corretamente vestida, mas não ser fútil. Trabalhar com a consciência de queo marido é que foi eleito, e não o casal. Ficar em segundo plano, mas jamais subordinada. Ser discreta, mas não omissa. Manter sua identidade e opiniões, mas nunca criar constrangimentos ao Governo. Cuidar de políticas sociais, mas de forma moderna: sem demagogia, sem exibicionismos, sem populismos.