"Vou mandar um recado: voto em quem eu quero"
DIARIO de Pernambuco - Lançar o CD nas bancas é uma forma de se livrar das gravadoras?
Alceu Valença - Passei por todas as gravadoras. Mas a estética é minha. Em alguns momentos sondaram a possibilidade de mudar a minha sonoridade. Esse tipo de distribuição é muito mais viável. Já fui visto por 920 mil pessoas. Mas têm cidades de interior onde esses produtos não chegam. Pela primeira vez, em São Bento Una (terra-natal de Alceu) vai chegar um disco meu. E a reposição nas bancas é quase imediata. Vem com uma revista encartada. Então quem piratear não vai poder piratear a revista.
DP - Esse disco traz um frevo...
Alceu - As pessoas estão deixando de fazer frevo. As pessoas estão perdendo as referências. De tanta antropofagia, as pessoas estão se perdendo delas mesmas. Pernambuco não pode esquecer o maracatu, o frevo, o forró, o coco, isso faz o diferencial. Pernambuco não vai ser o diferencial pelo samba que fizer ou pelas baladas. Baladas todo mundo faz. O grande problema são as cópias mal-feitas ou a mesmice. O forró cearense é uma coisa ridícula. Deveriam por outro nome, botó ou potó. A música é um nada. As mulheres ficam imitando o estilo sertanejo, que já é uma caricatura dos texanos. Mas têm pessoas que estão fazendo um bom trabalho. Silvério Pessoa é maravilhoso, como o Mestre Ambrósio é maravilhoso. Maciel Melo é muito bom. Isso poderia estourar por aí.
DP - Dessa nova geração de artistas pernambucanos quem você curte?
Alceu - Gosto do Mestre Ambrósio. Lula Queiroga e Lenine, que são de uma geração posterior à minha. A voz de Lenine vem da alma. Essas coisas têm consistência. Estamos vivendo um momento único. Ah! Gostaria de aproveitar e mandar um recado, eu voto em quem eu quero. Pra bom entendedor isso basta. Votei em Ciro Gomes pra presidente. Mudei meu voto pro Rio de Janeiro. No segundo turno, votei em Lula. Em Pernambuco apoiei o senhor Jarbas Vasconcelos. Acho que ele fez uma grande administração. Lula ganhou com uma comoção nacional. O povo brasileiro está precisando de um Lula. No Brasil foramtantos desmandos, tantas frustrações e de repente você tem o Lula, que foi um retirante, operário, deputado federal, e ele sobe sem nenhuma mácula. Mas hoje você vê todas as composições. Todos os partidos fazem composições. A política é arte do possível. E a arte é a política do possível. Quem hoje está num palanque, amanhã pode estar no outro. As coisas vão se modificando. Como é bom ter um representante com uma quase unanimidade. Lula vai ter problemas daqui pra frente. Ele vai ter que arbitrar conflitos. A sociedade paga a convivência dos conflitos. O Brasil vai tentar se realinhar em termos de política internacional. Repensar o sistema em que estamos inseridos. Estamos vivendo um momento muito sério pro país, em todos os níveis, e mais no cultural. Porque por mais que os políticos não enxerguem, a cultura é a alma da nação. Com isto, não estou sendo xenófobo. Mas temos que preservar os aspectos nacionais. Os Estados Unidos são assim. Música de fora para eles é world music, é o resto do Mundo. Nós propagandeamos o gestual americanalhado, a música americanalhada.
DP - Como é esse livro que você escreveu?
Alceu - Cordel Virtual é uma coisa contemporânea. O livro é um musical, tem um roteiro pra cinema. Tem música pra caramba. Você sabe que eu tenho 300 músicas inéditas, que eu comecei a catalogar. Foi através disso que foi se delineando outro projeto, o disco Calendário. Nele cada música fala de um mês. Tenho preparado um longa-épico, que se passa numa estrada em São Bento do Una. Ele é todo falado em verso. Diálogos todos em verso. Eu sou súdito de uma cultura plural e singular. Discos urbanos e com sotaque pernambucanos todos singulares. Parto de Luiz Gonzaga e da sua síntese e daquilo que o gerou, aboiadores, do maestro que arranja, do músico que toca.