Edição de Quarta-Feira, 25 de Dezembro de 2002
 

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Opinião

Contra a fome

Em época de Natal torna-se propositado lembrar, sobretudo agora que no Brasil a fome passou a ser atacada mais de rijo pelo Governo, pelas ONGs e pelo povo, o texto do evangelista João, segundo o qual, lamentavelmente, "nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um", tal era o tamanho da população de famintos em torno do Mestre. Hoje, neste País, tão presente se faz o velho problema de não ter o que comer que se impõe, com permissão do Apóstolo, uma paródia à sua observação: nem toda a fortuna orçamentária, tirante o que vai para a satisfação das dívidas interna e externa, bastaria para dar um pedaço de pão a cada um necessitado, ou, dizendo de outra forma, nem toda a pecúnia pública que sobra do pagamento das dívidas daria para alimentar, persistentemente, os milhões que estão a exigir as três mil calorias regulamentares a cada dia.

  Porque a fome é problema que transcende as contas de somar e subtrair de economistas meticulosos. Os movimentos eclesiais e leigos para atenuá-la nos parecem inteiramente válidos, procedentes. De fato, escrevendo uma homilia sobre "O Tempo de Fome e Sede", São Basílio vulgarizou pelos séculos afora um dos mais eloqüentes clamores contra o flagelo que tratamos. Disse, e muito bem: "A fome é a principal dentre as calamidades humanas". Quem nunca passou fome não sabe com exatidão o que ela é na verdade.

  Se tudo quanto vimos é exato, não se perca de vista que programas de combate maciço à fome e iniciativas assemelhadas, que agora se anunciam com abrangência alargada, deverão contudo obedecer à regra da transitoriedade. Várias são as razões que recomendam a duração menor possível a essa estirpe de programas. Alguém já nos advertiu no Brasil: se a caridade é boa para a salvação da alma, não é entretanto terapêutica idônea para uma política social de Governo.

  Outro motivo é a degradação dos sistemas de controle na distribuição de benesses às multidões. Queiramos ou não, toda gratuidade é em si mesma degenerativa, deteriora com o tempo. A vigilância cansa,a fiscalização se acomoda. Outra razão apreciável é a tendência que têm programas dessa índole de alimentar, na pessoa do assistido, a idéia de que é uma maravilha comer sem fazer força, coisa por sinal execrada, grave e decididamente dita pelo Apóstolo Paulo aos tessalonicenses folgazãos: quem não trabalha que também não coma.

  É certo que aqui não se trata de preguiça institucionalizada, porém, de carências numerosas que perseguem milhões de compatrícios.Mas um Natal é pouco frente aos 365 dias do ano. Ensinar a pescar é mais relevante que dar o peixe para a comedura. Para tanto, 365 dias são insuficientes. Eis alguns problemas que suscita o assistencialismo leigo ou religioso.

Natal de preocupações e esperanças

Abelardo Baltar da Rocha
PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO ULYSSES GUIMARÃES

O ano de 2003 vai ser bastante difícil para sociedade brasileira. Os recursos disponíveis para realização de ações que favoreçam, diretamente, parcelas consideráveis da população serão escassos, enquanto as expectativas do conjunto da sociedade por grandes melhorias serão enormes. O povo espera uma "salvação" do País que não pode haver. Claro que num só ano, tendo tantos déficits ficado para trás,seria impossível corrigir todos os males. O novo governo pode, no máximo, começar a abrir os caminhos para tentar enfrentar as graves problemas existentes, mas nunca conseguir resolvê-los em tão pouco tempo. Em 2003 terá que haver um rigoroso ajuste fiscal, ajuste que inclui uma ampla reforma tributária, uma reforma previdenciária eficiente e outras modificações nesse campo das contas públicas. Sem tal ajuste a economia brasileira ficará bastante ameaçada, sobretudo porque o setor público terá uma obrigação difícil a cumprir oriunda do acordo com o FMI: obter um superávit primário correspondente a 3,75% do PIB. O próximo ano, não resta dúvida, será um período em que os esforços governamentais estarão bem mais voltados para se alcançar o equilíbrio da contabilidade pública do que para realização de novos e grandes empreendimentos. O "Programa Fome Zero" é uma exceção. Santa exceção!

  O ajuste das contas governamentais tem que ser feito o mais rápido possível, caso contrário a economia brasileira continuará completamente dependente de recursos externos para conseguir "funcionar". Não se pode negar que as melhorias que vêm ocorrendo nas contas de transações correntes com o Exterior, por causa da desvalorização cambial, aliviaram razoavelmente o adverso quadro macroeconômico até então existente, permitindo que diminuísse a dependência do setor externo. Mas, mesmo assim, essa dependência continua grande, pois necessita-se ainda muito de diversas linhas de financiamentos externos para "alimentar" um sem números de atividade produtivas , sobretudo as voltadaspara exportação, já que as poupanças internas são diminutas. É preciso, desse modo, gerar bem maiores poupanças internas, pois só assim a economia brasileira aumentará bastante o seu grau de autonomia em relação ao setor externo. Isso significa não ficarmos quase completamente atrelados às variações de humores dos mercados internacionais Mercados que, nos últimos tempos, vivem em crises permanentes. A garantia de financiamentos constantes para promover o crescimento deveria depender, basicamente, dos recursos oriundos das poupanças geradas dentro do País, já que o fluxo de capitais vindo de fora se acha ameaçado pelo clima recessivo que predomina na economia planetária. Por sua vez, fazer crescer a poupança interna é sinônimo da realização de reformas, sobretudo as da área fiscal.

  A maior dificuldade para a realização dessas reformas são os inúmeros interesses que deverão ser contrariados. Portanto, o caminho macroeconômico para se ter a garantia da retomada do crescimento todos conhecem: é a implantação das reformas. As dificuldades para seguir esse caminho têm caráter eminentemente político e se originam, exatamente, das perdas que terão com as mesmas vários segmentos sociais representativos. Por exemplo, amplos setores das classes médias e das elites, atualmente "vibrando" com a vitória de Lula, não podem deixar de ser penalizados por reformas tributária e previdenciária sérias. Como reagirão esses setores? Por isso, em função desses conflitos ,que uma hora ou outra terão que se explicitar, fico preocupado. Fico preocupado com a possibilidade do Governo petista deixar de ter apoios que julgue importantes e, em decorrência, não acerte melhorar o País como se propõe. Mas também permaneço com esperança, já que a grande maioria da população brasileira continua determinada a tentar criar um País mais rico e justo sejam quais forem seus dirigentes do momento.O fato novo é, justamente, esse: o amadurecimento do povo. Fato observado , claramente, nesse último processo político-eleitoral.

Tudo pelo social

Tony Gel
PREFEITO DE CARUARU

Muita gente de Pernambuco ainda se pergunta por que o candidato a presidente José Serra obteve em Caruaru uma expressiva vitória, derrotando por mais de 20 mil votos de diferença o então candidato favorito e hoje presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. Já tive oportunidade de dizer pelos jornais que longe de mim a pretensão ou a vaidade de me arvorar o "pai" da vitória. Ela seguramente teve muitas causas, entre as quais eu poderia destacar a notável obra administrativa do governador Jarbas Vasconcelos em nossa região, o Agreste, sendo a duplicação da BR-232 a maior expressão desse seu trabalho.

  Todavia, não posso deixar de admitir também que dei minha modesta colaboração para a vitória do nosso sistema de forças em Caruaru. Enfrentamos a oposição unida e um candidato que já se sabia àquela época que iria ganhar a eleição mas, mesmo assim, obtivemos nas urnas uma vitória esmagadora.

  Seria o caso ainda de se perguntar: de que forma a prefeitura de Caruaru contribuiu para que os caruaruenses fizessem opção pela candidatura do ministro José Serra, que foi apoiado por mim e pelo nosso sistema de forças, do qual fazem parte o deputado reeleito Roberto Liberato e o vereador Demóstenes Veras Filho, entre outras pessoas?

  Poderia responder em poucas palavras dizendo que, em nossa administração, o social é prioridade. Vou citar aqui alguns exemplos do que conseguimos fazer em Caruaru nesses dois primeiros anos de governo. Na questão de assistência ao idoso, por exemplo, temos um trabalho pioneiro no município. O Brasil, históricamente, sempre cuidou muito mal das pessoas que atingem a terceira idade, mas em nossa gestão isso é diferente. Organizamos vários grupos de idosos, inauguramos uma policlínica específica só para atendimento médico a esse pessoal, incluindo terapia, unidade fisioterápica, plantão geriátrico, ambulância e urgência odontológica.

  Outro marco de nossa gestão foi o aterro sanitário, o primeiro de Pernambuco que se encontra em pleno funcionamento, obedecendo às rígidas normas internacionais. Essa providência que tomamos para tratar o lixo, organicamente, habilitou a prefeitura de Caruaru a receber o imposto sócio-ambiental, também conhecido como o "ICMS verde", de maneira que, hoje, em nosso município, não existe um só catador de lixo pelas ruas.

  Implantamos também através da Secretaria da Infância e da Juventude a "Mansão da Vida", que é um dos orgulhos da nossa administração. Trata-se de uma chácara nos arredores da cidade, que se encontra em vias de desapropriação para o acolhimento de crianças de rua. Lá se encontram abrigadas dignamente cerca de 70 crianças que se encontravam desamparadas, nas ruas, pedindo esmolas, fora da escola e praticando pequenos furtos. Hoje elas têm direito à alimentação, a assistência médica e odontológica, educação e lazer, e, de quebra, são estimuladas a abraçar alguma profissão. Agora mesmo, para nossa alegria e satisfação, 31 crianças do coral infanto-juvenil da "Mansão da Vida" acabam de gravar um CD com músicas natalinas, outra está indo para o Exército, e assim por diante.

  Implantamos também na rede municipal de saúde a consulta médica com hora marcada, já que a questão das filas em nosso País para o pessoal que depende do poder público para desfrutar de assistência médica e odontológica ainda deixa muito a desejar. Disponibilizamos ainda uma ambulância exclusiva para atendimento de urgência às parturientes, trabalho que era feito nas administrações anteriores pelo Corpo de Bombeiros, criamos programa "Dentista da família" e adotamos a merenda escolar regionalizada, fazendo com que os produtos que constam dela sejam adquiridos em nossa própria região.

  Por tudo isso, eu não estaria sendo leviano ou megalomaníaco se associasse o resultado eleitoral de Caruaru ao que a nossa administração tem feito na área social. Conseqüentemente, não terei dificuldade para trabalhar com o governo de Lula, nesses próximos dois anos, porque se a prioridade dele é o social a nossa também é. As urnas falam por si mesmas, mas os exemplos estão lá paraquem quiser ver.

Revolução do concreto

Eduardo Barbosa de Moraes
GERENTE DO NORTE E NORDESTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CIMENTO PORTLAND

No início dos anos cinqüenta do último século, Pernambuco foi o primeiro estado do Nordeste a utilizar o pavimento de concreto, ou pavimento rígido na construção de estradas. O trecho Recife-Caruaru e os extensos corredores de transportes, ligando o centro da capital aos mais longínquos subúrbios, constituíam os grandes exemplos de competência de nossa engenharia, embora as técnicas adotadas ana época fossem caracteristicamente artesanais.

  Muito tempo depois daquela revolução pioneira, Pernambuco reassumiu a liderança regional em obras de infra-estrutura, ao executar, por exemplo, o mais ousado programa de construção e recuperação de estradas de toda a sua história. Novamente, o destaque é a BR-232,cuja duplicação vai transformar a economia dos municípios que a margeiam até Caruaru, sobretudo porque implicará, logo, a elevação dos atuais patamares de renda e empregos produtivos. Nesse gigantesco esforço de investimento estadual,o pavimento de concreto vem sendo largamente aplicado em nível e qualidade semelhantes aos conhecidos em todas as partes do Mundo.

  O que surpreende, contudo, é que embora apresente indiscutíveis vantagens, o pavimento de concreto só representa 2% dos 148 mil quilômetros de estradas pavimentadas do país, marca flagrantemente inexpressiva ao considerar-se que a rede rodoviária nacional situa-se no entorno de 1,65 milhão de quilômetros. Nos Estados Unidos, a utilização do pavimento de concreto equivale a 20% do total da rede americana de estradas, mas a previsão é dobrar esse número em dez anos. Na América Latina, o Chile lidera o ranking do uso desses tipos de material e tecnologias. Na Alemanha, o pavimento de concreto já é utilizado na quase totalidade das grandes e médias auto-estradas desse país.

  No recente Seminário Pavimento de Concreto, realizado no recife, promovido pela Universidade de Pernambuco, especialistas dos mais renomados centros de pesquisas de tecnologias rodoviárias do País concluíram que são inigualáveis as vantagens do pavimento de concreto sobre qualquer outro tipo concorrente. Tendo as obras da BR-232 como laboratório dos debates, os especialistas concentraram suas atenções nas vantagens econômicas,técnicas, financeiras e de segurança, comparativamente às de outros tipos de pavimentos, testadas e comprovadas dentro e fora do Brasil, entre outras: vida útil cinco a sete vezes maior;custo de manutenção rotineira menor em até 85%;manutenção pesada ou reforço somente após 25 anos de uso; significativa redução de acidentes; maior conforto e segurança para o usuário, decorrente da aplicação contínua do pavimento rígido com o emprego de ultra-sensíveis máquinas industriais e avançadas técnicas de acabamento superficial; redução da distância de frenagem de até 40%, economia de 11% no consumo de combustível e economia de até 30% no consumo da energia elétrica usada na iluminação das pistas.

  À vista de todas essas vantagens, empreendedores públicos e privados começar a ver nopavimento de concreto a melhor e mais econômica solução para a construção e recuperação de estradas. O processo de concessão de nossas maiores e mais importantes rodovias deve mudar radicalmente esse cenário.

FRASES

Eu estou me preparando para me desencarnar da vice-presidência e assumir o Senado em fevereiro.
Marco Maciel, vice-presidente da República, descartando projeto de assumir presidência do Senado

A governabilidade está garantida. É a primeira vez que as forças políticas que apoiaram Lula chegam ao Governo com maioria absoluta.
José Genoíno, presidente do PT, sobre a maioria do futuro Governo na Câmara dos Deputados

Nos primeiros meses, que apertem os cintos e algumas coisas mais.
Antônio Palocci, futuro ministro da Fazenda, sobre as despesas que terá de cortar quando assumir o ministério

A confusão toda começou desde que surgiu essa tal de Liga. Querem fazer da Federação o bobo da corte.
Carlos Alberto Oliveira, presidente da Federação Pernambucana de Futebol, criticando o posicionamento da Liga do Nordeste








 

 
 
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