Especialistas
Quando o viúvo é uma pepita - menos de 40, milionário, sem herdeiros, e bonito a interessada deve abraçá-lo, beijá-lo e ficar a seu lado até que fechem o caixão
Não sei se é verdade, mas me contaram que existe gente especializada em prospectar viúvos para mulheres atrás de bons casamentos. Já seria uma ciência. A especialista diz até o que a mulher deve usar quando for abraçar o viuvo, no enterro. Recomenda-se um conjunto escuro e sóbrio, mas com um decote que mostre o rego dos seios. O rego dos seios é importantíssimo.
O viúvo precisa ter uma amostra do que existe por baixo do terninho compungido já nos pêsames. A especialista procura convites para enterro em que não conste "netos". De preferência nem "filhos". É um sinal de que a mulher morreu jovem. Falecida moça, viúvo moço. E precisando de consolo imediato.
O ideal é quando há mais de um convite no jornal. Quando a firma do marido também convida. E dá a posição do viúvo na vida. "Nosso gerente", ótimo. "Nosso diretor financeiro", melhor ainda. "Nosso diretor presidente", perfeito! Um diretor presidente com 40 anos ou menos é ouro puro. Segundo a especialista. Que trabalha em cima dos convites para enterro,empiricamente, com pouco tempo para organizar o ataque. Ela procura se informar o máximo possível sobre o viúvo, depois telefona para uma interessada e expõe a situação.
- O nome é bom. Parece que é advogado. Entre 55 e 60 anos. Aproveitável. Dois filhos, mas já devem ter saído de casa.
- Entre 55 e 60, sei não...
- É pegar ou largar. O enterro é às cinco.
A especialista vai junto com a cliente ao velório. Para dar apoio moral, e para se prevenir contra livre-atiradoras, que invadem o seu território sem método, sem classe, enfim, sem a sua orientação. Quando o viúvo é uma raridade, uma pepita - menos de 40, milionário, quatro ou cinco empresas participando o infausto evento, sem herdeiros conhecidos, e bonito - faz questão que sua orientada chegue cedo no velório, abrace o prospectado ("A nossa Ju! Eu não acredito!"), beije-o demoradamente perto da boca, por descuido, e fique ao seu lado até fecharem o caixão, alerta contra outros decotes. Não sei se é verdade, mas dois fatos são indiscutíveis. Vivemos a era dos especialistas, e vivemos dias difíceis.