Edição de Sábado, 9 de Novembro de 2002
 
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Recife tem piratas sem maniqueísmo

Espetáculo infanto-juvenil baseado em livro de Robert Lous Stevenson estréia no teatro Armazém

Ivana Moura
Da equipe do DIARIO

Lances policialescos e humorísticos povoam o enredo do espetáculo A Ilha do Tesouro, que estréia hoje, às 17h, no Teatro Armazém. A trama do escocês Robert Louis Stevenson (mesmo autor de O Médico e o Monstro) ganha adaptação de Moisés Neto, com direitos a motim, perseguição e disfarces, piratas, mapa, tesouro e um cozinheiro de uma perna só. Jim, o protagonista que encontra o mapa, almeja, como muitos outros garotos encontrar a mina que possa mudar a situação de pobreza de sua família. Vira grumete de um navio e essa viagem, segundo Moisés Neto, representa o ritual de passagem da infância para a fase adulta.

  O livro original foi publicado em 1883 e embalou o desejo de aventura de garotos do mundo inteiro. Na versão pernambucana para o teatro, o poeta e dramaturgo Moisés Neto relativizou as porções boas e más das personagens. O diretor Carlos Bartolomeu, por sua vez, realçou essa característica do novo texto, ao pregar que o enfoque maniqueísta - de herói e vilão como entidades totalmente diferentes e separadas - é uma coisa superada no teatro infanto-juvenil.

  Moisés Neto, autor da peça Para Um Amor no Recife, transformou a narrativa de Stevenson em versos rimados, suprimiu personagens, fundiu outros e criou um coro feminino, já que o livro focaliza o universo masculino. Ele também caprichou no jogo de arquétipos sociais: Jim é o menino pobre que almeja mudar de vida; Long John é o pirata cruel e sanguinário, que cobiça o tesouro e está disposta a tudo. O juiz Dralaney representa o rei e o dr. Livesey, a burguesia em ascensão.

  O conflito é provocado pela ambição. As relações de força são deslocadas, quando o objeto de desejo de todos - no caso, o mapa mais cobiçado da Inglaterra vitoriana - é descoberto sob a tutela do pequeno Jim. Vontades ocultas são reveladas e desabam falsos alicerces.

  A montagem promete fazer a diferença na atual temporada de espetáculo infanto-juvenis. A produção aglutinou uma equipe formada por Ricardo Valença, jornalista e webdesigner, que assina a trilha sonora, que misturou violinos com mixagens eletrônicas. Os atores cantam em cima da trilha gravada, com preparação vocal de Múcio Callou, professor do Conservatório Pernambucano de Música.

  A coreografia foi criada e coordenada Maria Paula Costa Rêgo, bailarina e diretora do Grupo Grial de Dança. A obra do estilista John Galliano inspirou os figurinos de Marcos Lima e Henrique Celibi. As 180 peças do guarda-roupa trazem elementos do psicodelismo dos anos 1970 e traços do vestuário do século XVIII. Ainda fazem parte da equipe técnica a iluminadora Triana Cavalcanti e o cenógrafo Cláudio Cruz.

  A montagem reúne 15 atores no palco. São eles Gerson Lobo (Jim), Ivo Barreto (Long John Silver), Boby Mergulhão (Papagaio e pirata), Eduardo Japiassú (Velho Pirata, Ben Gunn), André Ricardo (Juiz), Pascoal Filizola (doutor), Sandra Rino (Corista 1), Ilka Porto (corista 2), Ana Medeiros (corista 3), Raimundo Branco (pirata 2), Antônio Rodrigues (pirata 3), Valter d'Souza (Pirata 4) e Bernardo Medeiros (pirata 5). A peça recebeu apoio do Sistema de Incentivo à Cultura do REcife e do programa Encena Brasil.


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