Novo filme do diretor espanhol estréia hoje nos Multiplex
Rodrigo Carrero
Da equipe do DIARIO
A abertura lírica e silenciosa de Fale Com Ela (Hable Con Ella, Espanha, 2002) revela bastante sobre as duas horas que virão a seguir. Trata-se de uma apresentação do espetáculo Café Müller, da coreógrafa alemã Pina Bausch. A câmera focaliza dois homens que estão sentados lado a lado, na platéia. Eles não se conhecem. Benigno (Javier Cámara), mais contido, percebe quando Marco (Dario Grandinetti) começa a chorar, emocionado. A cena o impressiona. Findo o espetáculo, cada um segue sua vida, sem saber que tornarão a se cruzar, meses mais tarde. A relação emocionada da platéia com a obra de arte emula a sensação do espectador diante de Fale Com Ela: é impossível sair imune do novo filme de Pedro Almodóvar.
O primeiro trabalho do cineasta após o Oscar, obtido com Tudo Sobre Minha Mãe, confirma um dado essencial a respeito da cinematografia do espanhol: ele se junta definitivamente a uma nata de diretores de cinema contemporâneos que, à moda de gênios cada vez mais raros (pense em Hitchcock, Kubrick, Anotonioni ou Fellino) e capazes de construir um estilo pessoal, único e singular. Esses são verdadeiros autores; gente como Woody Allen, Robert Altman e David Lynch, diretores que conseguem erguer todo um universo particular, onde os filmes funcionam como janelas. Almodóvar chama esse mundo privado de "naturalismo do absurdo". É uma boa auto-definição.
Claro, não se trata exatamente do mesmo Almodóvar de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos. O diretor amadureceu, não está mais eufórico. Ainda resvala numa estética kitsch, mas já não mergulha nela de cabeça. Fale Com Ela trafega, de forma refinada, na temática da condição humana: a solidão (o traço que, Almodóvar insiste, liga todos os personagens do filme), a loucura, o amor, o sexo, a morte. O filme permite diversas leituras diferentes, sempre amparado num tom de registro que passeia entre o melancólico e o trágico, ainda que usando uma leve ironia para amplificar e ecoar essas sensações.
Fale Com Ela poderia ser descrito como uma tragédia. A narrativa foge da ordem cronológica convencional e passeia, envolvente, entre passado, presente futuro, de forma fluida e imperceptível. A amizade entre Benigno e Marco nasce quando eles se encontram numa clínica em Madri. O primeiro é enfermeiro que dedica 24 horas por dia a uma paciente, a bailarina Alicia (Leonor Watling). O segundo acompanha a namorada, a toureira Lydia (Rosario Flores), depois que ela sofre um ferimento grave, ao ser atingida por um touro.
Almodóvar conduz o espetáculo com domínio absoluto sobre cada elemento cênico: música, fotografia, montagem e sobretudo roteiro agregam valor a uma tragédia que leva, ao final, a uma reflexão sobre condutas morais. A dupla de protagonistas desmente um velho preconceito, segundo o qual Almodóvar não consegue escrever bons personagens masculinos. Benigno e Marco são, cada um a seu modo, homens profundamente solitários. A amizade que nasce entre eles - tematizada de forma tocando num belo diálogo próximo ao final, entrecortado por lágrimas de parte a parte - é emocional e emocionante. E os atores - a ingenuidade desconcertante de Javier Cámara, os olhar vazio de Dario Grandinetti - nunca são menos que espetaculares.