Depois do banho
Nosso time de futebol de calçada e terreno baldio se chamava "Racing". Ou freqüentemente se chamava "Racing", pois assim como não tinha uma formação exata - o número de jogadores em ação podia oscilar entre três e treze, ou mais - o nome também variava. Mas eu gostava de "Racing". Não "reicim", "Racing", com a pronúncia francesa ou argentina. Cheguei a desenhar um escudo para o time, com as letras RFC, que nunca foi bordado nas nossas camisetas por uma única razão: não tínhamos camisetas.
Jogávamos com nossa roupa normal, e as chuteiras, naqueles tempos pré-tênis, eram os sapatos de todo dia, para desespero das mães. Sim, sou do tempo em que só se usava tênis para jogar tênis, e quem jogava tênis? Terminávamos os jogos suados, imundos, com roupas rasgadas e os sapatos mais arranhados do que as canelas desprotegidas.
Os jogos terminavam ao anoitecer, mas alguns jogadores saíam antes do tempo, pois precisavam "entrar", chamados para fazer a lição de casa, tomar banho - enfim, aquelas coisas que atrapalhama vida de qualquer atleta. E era comum um dos que saía voltar, de banho tomado e roupa mudada, enquanto o jogo ainda estava em andamento.
Lembra daquela sensação? Você voltava ao local onde antes trocava pontapés com outros selvagens ou rolava pelo chão sem se preocupar em poupar calça, camisa ou joelho, mas você era outro. Era você depois do banho, com ordens expressas para não se sujar de novo. Ao mesmo tempo um ser superior que olhava os outros com divertida condescendência - "Ah, sim, também já fui criança como vocês..." - e uma espécie de pária, segregado dos outros pelo seu novo status de limpo, penteado e pronto para o jantar.
Lembrei disso pensando no PT no poder. A sensação deve ser parecida. A de ter sido chamado a "entrar", deixando para trás o jogo da calçada ou do campinho com a sua alegre irresponsabilidade, e voltar depois do banho, cheio de recomendações para se comportar, não se misturar mais com a sua turma de peladeiros e, acima de tudo, não chutar nada com o sapato bom.