Atrizes que já passaram dos quarenta revelam seus segredos e falam do que é preciso para continuar no topo
Elas já passaram dos quarenta. Mas, diferentemente do que acontece com muitas atrizes, que quando chegam à idade da loba só são chamadas para ser mãe da mocinha das tramas, um grupo seleto de belas e talentosas mulheres se mantém firme e forte como protagonistas ou, no mínimo, em algum outro papel de destaque. Vera Fischer, Bruna Lombardi, Ângela Vieira e Maitê Proença são algumas destas verdadeiras heroínas.
Vera Fischer se orgulha por ser requisitada para grandes papéis e vibra quando dizem que está maravilhosa: "Principalmente porque não sou chamada por ser amiguinha do diretor: é porque o público gosta do que faço pelo meu talento". Sua carreira começou lentamente, quase por acaso. "Eu nem queria ser atriz, só trabalhar. Fui aprendendo com os defeitos até chegar à maturidade. Gostam e me chamam porque boto isso na minha vida. Não posso ter uma vida pobre, para minhas personagens não serem pobres. Tudo o que se faz, soma. Muito sofrimento amadurece", afirma Vera. A estética também é importante. "Faço ginástica localizada em casa, massagem linfática, de vez em quando dieta com muita proteína e passo cremes variados para a pele não viciar".
Dons natos, beleza e talento devem estar afinados para garantir o brilho e a segurança no amadurecimento. Afinal, um rostinho bonito pode agradar por um tempo. Mas não por uma vida inteira. Apesar de que, como lembra Maitê Proença, há muitas atrizes talentosas que não se mantém no primeiro escalão. Então, o que vale? "É uma combinação em que há um peso importante de outras características", diz a atriz. "Hoje, a beleza está hipervalorizada e isso tem um peso a se considerar. Há muitas pessoas com muito talento que vão sendo jogadas para escanteio num determinado momento da vida. Acho também que nesta faixa etária, quando se tem o estigma da beleza mas não se é mais uma garotona nem uma matrona típica, eles não sabem muito bem o que fazer com você.
Eles, no caso, são aqueles que fazem as escalações de elenco, como autores e diretores. Como na maioria das vezes são homens, podem cair numa situação delicada na escolha das heroínas. Principalmente quando as melhores intérpretes passaram da época de fazer mocinhas. "Acho que eles não sabem o que sentem em relação à mulher que eles sabem que tem uma idade que não parece muito ter, é bonita, mas não é uma menininha", observa Maitê. "Mas a beleza, que nesta hora ajuda a manter estes papéis de maior destaque, também tira da atriz outros personagens, como uma grande mãe ou uma criatura estranha, mesquinha ou louca, que "eles" entendem que não pode ser também bonita".
HEROÍNAS - Exceções, no entanto, acontecem. Quem não se lembra de Bruna Lombardi, sem suas longas madeixas louras, vivendo Diadorim, a mulher que fingia ser cangaceiro em Grande Sertão Veredas? Brincando, ela diz que também já fez muitas heroínas que só choravam e beijavam. Mas seu trabalho foi sempre voltado para o universo feminino.
"As mulheres foram massacradas através dos séculos. Ergueram-se e estão cada vez mais inteiras. É um exercício diário, um malabarismo. A gente está sempre em cima do fio, mexendo mil pratinhos. Com a grande vantagem de saber rir disso tudo, de manter o humor. São muitos papéis, muitas cobranças,mas é um longo e fascinante aprendizado que só se revela com o tempo.
Os tempos são outros também na esfera masculina. É o que pensa Ângela Vieira, outra loba que acabou de disputar, com muita classe, o galã (Vladimir Brichta) de Coração de Estudante com a mocinha (Adriana Esteves). "Isso acontece não é só pelo ator ou a atriz, é o autor que proporciona. As pessoas estão mais "complacentes", acreditando que há vida inteligente após os quarenta", brinca ela. "A preocupação com o visual é resquício de uma coisa preconceituosa. Mas sempre tive cuidado com alimentação, exercícios. Não se pode parar porque, depois de uma certa idade, só sobe a gengiva, o resto desce (risos)".