Através de programetes, os vários sotaques espalhados pelos quatro cantos do País estarão reunidos na TV
O seriado Cidade dos Homens, um marco na teledramaturgia nacional, foi apenas o começo. Daqui para a frente, a Rede Globo quer investir em produções independentes, o que dará à emissora a chance de arejar sua programação e dar espaço para os sotaques fora do eixo Rio-São Paulo. O próximo passo será um projeto de Regina Casé, Guel Arraes e Hermano Vianna envolvendo produtoras de todas as partes do País. A seguir, podem vingar mais 12 programas feitos pela O2, produtora de Cidade dos Homens, e Domésticas, seriado inspirado no filme homônimo da mesma produtora.
"Queremos sempre ter os melhores talentos disponíveis no mercado ao nosso lado, independentemente de eles serem da emissora ou não", diz Luís Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação. A O2 é a produtora que mais enche os olhos dos executivos da Rede Globo no momento. Os ótimos índices de audiência dos quatro episódios de Cidade dos Homens (média de 28, 28, 29 e 31 pontos), exibidos após as 23h entre os dias 15 e 18 de outubro, animaram produtora e emissora a ir além.
A parceria começou com Palace II, exibido em 2000 dentro do Brava Gente, que já trazia Laranjinha e Acerola. Não necessariamente, porém, os personagens serão as estrelas de uma possível próxima leva de episódios. Para a O2, a parceria com a TV aberta é um achado. "Tínhamos um pouco de medo de que a Rede Globo nos tolhesse. Mas tivemos total liberdade de criação", diz Andréa Barata Ribeiro, uma das sócias da produtora. "A O2 surgiu há 11 anos e durante um bom tempo sobreviveu da publicidade. Depois, vieram o cinema e programas para os canais pagos. Agora, a parceria com a TV aberta abre um novo mercado para nós".
TERCEIRIZAÇÃO - Além da O2, de São Paulo, a Rede Globo assinou contrato de exclusividade por três anos com outras três produtoras: a carioca Videofilmes, a gaúcha Casa de Cinema, pertencente a Jorge Furtado, e a Criatura, de João Falcão, que funciona no Rio mas já fez muitos produtos com forte sotaque nordestino. O objetivo foi justamente reunir um grupo de visões diversificadas. As principais cabeças de todas elas já trabalharam para a emissora, de uma forma ou de outra. A idéia é que as produtoras atendam a encomendas e sugiram projetos em qualquer formato e para qualquer faixa horária.
A Rede Globo já vinha ensaiando a aproximação com os independentes há pelo menos uma década. Quando precisava gravar fora do Rio, muitas vezes recorria à estrutura de parceiros como a Casa de Cinema. "Desde 1990, fazemos trabalhos para a Globo aqui no Sul. Produzimos reportagens para o Programa Legal, a minissérie Luna Caliente, um Comédia da Vida Privada, três Brava Gente... Só que não era uma coisa estabelecida, não aparecíamos nos créditos como co-produtores", diz Jorge Furtado.
A Casa de Cinema já ofereceu dois projetos à Rede Globo e a Criatura, três. "Essa é uma prática saudável que já existe em vários países", diz João Falcão, da Criatura. "A Rede Globo percebeu o sinal dado pelo mercado". O sinal foi claríssmo: é que, com a demanda dos canais de TV paga, as produtoras independentespassaram a produzir mais e melhor, a ponto de poder ambicionar ter seus produtos expostos para milhões de pessoas na telinha das TVs abertas.