Edição de Sexta-Feira, 1 de Novembro de 2002
 

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Luta contra a fome

No primeiro pronunciamento à Nação, o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva disse que terá realizado a missão da vida se, ao fim do mandato, cada brasileiro puder fazer três refeições diárias. A ênfase no combate à fome mostra coerência com a trajetória política do ex-líder metalúrgico e com os compromissos assumidos durante a campanha eleitoral.

  Segundo o Ipea, 14,6% da população é indigente. Nada menos que 24,7 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza. Não têm casa nem roupa. E passam fome. Somados aos pobres - que comem, mas não se vestem nem moram - a cifra chega a 33,6%. São assustadores 57 milhões de pessoas.

  A promessa, tantas vezes feita e nunca concretizada, encontra eco em todas as camadas sociais do País. Há crescente desconforto com o triste espetáculo de homens, mulheres e crianças perambulando pelas ruas na busca desesperada de migalhas de sobrevivência.

  O cinturão de pobreza que estrangula os centros urbanos constitui fonte de constante preocupação. Ali se abrigam enormes contingentes de excluídos, presas fáceis do tráfico, maior empregador da atualidade e um dos grandes responsáveis pela crescente violência que toma conta das cidades brasileiras.

  O empresariado, que nunca teve a desigualdade social entre suas grandes preocupações, também se revela sensível ao problema. Se não por solidariedade, pelo menos por interesse. Manter 13,1% da riqueza nacional concentrada nas mãos de 1% da população e deixar que os 50% mais pobres sobrevivam com 14% traz enormes prejuízos.

  Além dos aspectos éticos envolvidos, a concentração de renda gera problemas econômicos porque reduz a parcela da população com acesso ao mercado de consumo. A adequada distribuição da riqueza possibilitaria notável expansão dos consumidores e, com ela, o crescimento acelerado indispensável ao cumprimento das promessas políticas de geração de renda.

  A renda possibilita eliminar - mediante salários ou programas assistenciais - grande parte da fome existente. O aumento da arrecadação de impostos, diretose indiretos, permite à União adotar políticas públicas suficientes para apagar da face do País o fantasma ultrajante da indigência reinante entre os contingentes mais humildes e segregados da população.

  A bandeira erguida por Luiz Inácio Lula da Silva revela-se mais que oportuna. É inadiável dar de comer a quem sofre privações do essencial. Mas é importante, também, que se busque a forma mais correta de fazê-lo. Talvez não sejam cupons nem cartões. O dinheiro é que dá cidadania. Com ele, a pessoa pode escolher, negociar, sentir o próprio poder. E, com isso, aumentar a auto-estima.

Presidente Lula

Amparo Caridade
PROFESSORA DA UNICAP

Havia um grito preso na garganta, por muito tempo contido na alma dos brasileiros. Hoje um olé do espírito está ecoando pátria afora, fazendo-se ouvir sob a forma de alegria, emoção e esperança. Grito de guerreira civilidade, processo valente que nos conduziu ao espetáculo de democracia mostrado ao Mundo nestas eleições. Agora, vivemos a emoção nova, de chamá-lo "presidente Lula". Sentimento inaugural, de quem saboreia pela primeira vez um grande feito, de quem enfim, chegou lá. É sensação de certa ternura histórica, de começo de uma outra página. O Brasil tem agora um presidente que vem do Nordeste, que é um operário, que nasceu em meio à simplicidade do povo de Caetés, ponto obscuro do mapa deste grande País.

  Nunca vi meu Brasil tão bonito como nessa eleição. Tranqüilo, maduro, educado, alegre, embandeirado e responsável. "O mesmo pé que dança o samba, se preciso vai à luta". O PT (e outros partidos), foi à luta. Pacientemente, acreditando e com muita alma. Essa é amarca da luta: muita alma. E como faz diferença esse amor à causa. Como era todo alegria e cumplicidade o bloco de militantes que fez a onda vermelha! Não foi de graça que fizemos a maior e a mais tranqüila eleição da História; não foi de graça que elegemos o presidente mais votado do Mundo; não foi de graça que quebramos o modelo consagrado de eleger doutores para o Planalto. Custou, mas a espera nos possibilitou um Lula mais sábio, mais maduro e sereno. Valeu a pena esperar. Estamos simplesmente felizes pelo Brasil.

  Nosso presidente não é doutor, não cursou universidade, queixam-se alguns. Sem dúvida, é maravilhoso poder cursar uma Universidade, mas isso não é tudo. Lula formou-se na universidade da vida, o que lhe dá sensibilidade para alcançar a inquietação que atravessa a alma do povo que vai governar. Possui um currículo de sabedoria que os jornais estampam ao Mundo, sem nenhum constrangimento. De ora em diante não é mais vergonhoso (nunca foi), ser vendedor ambulante, tintureiro, office boy, torneiromecânico. A partir dessa ascensão ao Planalto, "ninguém mais pode duvidar da classe trabalhadora desse País". Não estamos sentindo falta de seu diploma universitário, estamos sim, orgulhosos de seu "curriculum vitae" de operário do ABC, de homem Phd em diálogo, pela faculdade do exercício sindical. Não estamos com medo de seu governo, mas do momento que o Mundo atravessa. A falta de um diploma e de um dedo em sua mão esquerda, podem nos servir de metáfora, do quanto somos todos incompletos, e de quanto precisamos somar, para construirmos uma cultura de paz em nosso País. Elegemos com consciência um presidente incompleto sim, (quem é completo?), mas certos do quanto é capaz.

  "A esperança venceu o medo" e o Brasil revelou sua face madura e equilibrada, sinal da inequívoca potencialidade desta nação. Orgulho e emoção perpassam a experiência de ser brasileiro nesses dias. O " Brasil está mudando em paz", "o Brasil votou sem medo de ser feliz". Anima-nos a sabedoria que vem sendo anunciada de um diálogo amplo com o País, para governá-lo de forma digna e justa. Bendigo a vida que me fez participante desse momento histórico precioso. O mesmo Brasil que brinca o Carnaval, vira a página da História sem guerra ou derramamento de sangue. Agora já não dizemos "Lula presidente" mas, presidente Lula. Está virada a página da História, com paz, alegria e responsabilidade.

As musas

José Geraldo Carneiro Leão
ADVOGADO

Na Grécia não era necessário possuir conhecimento para viver, conviver nem mesmo sobreviver. Quando alguém precisava saber alguma coisa bastava ser capaz de, apropriadamente, invocar a musa correspondente ao seu desejo que certamente era atendido.

  Eram, na verdade, nove musas, todas semideusas e filhas do deus mitológico Zeus e sua mulher Mnemonize. Denominavam-se, pela ordem de nascimento, Clio, Euterpe, Talia, Melpomene, Terpsicore, Erato, Polinia, Urania e Caliope.

  Clio conhecia tudo sobre a História. Corretamente invocada e cortejada, era capaz de responder qualquer indagação sobre o passado das gentes,usos e costumes, além dos acontecimentos pretéritos.

  Já Euterpe sabia tudo sobre a música de ontem, hoje e de sempre. Os mortais que cultuavam não tinham em obter o que estavam necessitando.

  A Talia de tudo conhecia sobre a comédia, gênero teatral muito em voga na Grécia antiga. Por poucas oferendas,satisfazia aquela que pretendia se iniciar e vir a ser promotordo riso/alegria.

  Melpomene dominava a tragédia, outro gênero de teatro muito venerado entre os helênicos.Invocá-la não era tarefa fácil. Requeria muitos mimos e sacrifícios. Mesmo assim, o postulante nem sempre conseguia. Argumentava que a tragédia era coisa séria e especial, não se prestando a qualquer um. Se o mortal pretendia ser ator ou, de alguma forma exercer o ofício da representação recomendava que buscasse a comédia, com sua irmã Talia, por ser gênero interpretativo muito mais leve e solto.

  Terpsicore movia-se, alegremente, ainda que em espaço diminuto, como nenhuma outra musa. Dominava a dança. Quando solicitada,só dava por finda sua tarefa quando o pretendente não conseguia mais ficar imóvel. Notáveis eram seus movimentos, sempre graciosos, ritmados e harmoniosos, até mesmo sem música.

  Erato conhecia tudo sobre a elegia, principalmente se tinha como mote a tristeza. O luto e o eterno sofrimento eram minuciosamente descritos, tanto em prosa como em verso.

  Polinia ocupava-se da poesia pura. Causava empolgação e delírios pelo modo belo de se expressar, com palavras sincopadas, cheias de ritmo.

  Urania conhecia tudo sobre os astros. Aliás, as informações sobre astronomia eram de grande utilidade ao grego que empreendia viagens, por segurança e tranqüilidade.

  Caliope ensinava o grego a falar,com elegância, aliada à capacidade desmedida de convencer aos seus ouvintes. Para ela, a eloqüência era de grande significado, além de suma importância para quem precisava se comunicar.

  Desse modo, os gregos não careciam de se preocupar com conhecimento algum. Poderiam se dedicar e se entreter com outras coisas, pois as musas, filhas do deus mitológico Zeus e sua mulher Mnemonize, os atendiam satisfatoriamente.








 

 
 
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