Cerca de mil desmembramentos profissionais aparecem na atual Classificação Brasileira das Ocupações
Roberto Cavalcanti
Da equipe do DIARIO
Quiropraxistas, gambistas, podólogos, afretadores. Embora a grande maioria das pessoas desconheça a natureza dessas atividades ou sequer tenha ouvido algumas dessas expressões anteriormente, elas fazem parte do novo Sistema Brasileiro de Classificação Ocupacional, lançado recentemente pelo Ministério do Trabalho. O levantamento, que contou com a participação da Organização das Nações Unidas, das universidades e das centrais sindicais, deverá ajudar no redirecionamento das políticas públicas, assim como servirá de suporte para a melhoria dos programas de qualificação e requalificação profissional, permitindo reformas no ensino técnico e universitário, adequando-os as reais necessidades do mercado de trabalho.
De acordo com a nova Classificação Brasileira das Ocupações (CBO), existem atualmente no País 3,2 mil atividades funcionais distribuídas em 600 famílias. Em 1994, eram apenas 2.356 funções classificadas, o que demonstra o surgimento e o reconhecimento de aproximadamente mil novos desmembramentos profissionais. No entanto, parte das ocupações cadastradas é velha conhecida da classe trabalhadora, constando no sistema classificatório apenas por assumirem uma nova nomenclatura. Nas áreas de agropecuária e extrativismo, por exemplo, as atividades de produtor rural e coletor extrativo assumiram especificações de acordo com a natureza do plantio ou criação. Surgem assim, ocupações como abacaxicultor, abelheiro e açaizeiro.
A coordenadora do CBO, Cláudia Paiva, revela que dentre as mais de três mil ocupações reclassificadas, apenas 84 são regulamentadas e que o registro das demais, além de significar um reconhecimento oficial de existência, pode ser o primeiro passo para uma futura regulamentação. "Embora esse processo não seja de responsabilidade do Ministério, tendo em vista que depende da aprovação do Congresso, muitas das profissões em ascensão, principalmente nas áreas tecnológicas, podem ser beneficiadas", garante.
Até mesmo profissões de grande reconhecimento, como engenheiros, advogados, médicos e economistas passam, com o lançamento da nova CBO, a contar com especificações que ajudam a identificar as suas áreas de atuação. Os economistas, por exemplo, assumem novas nomenclaturas, passando a ser reconhecidos e registrados oficialmente de acordo com suas atividades nas áreas agrícola, agroindustrial e ambiental. O mesmo acontece com os profissionais da área técnica, que ganham identificações relacionadas às suas especialidades. Tais subdivisões em uma mesma carreira profissional, permitem, segundo a coordenadora do CBO, que cada categoria possa agrupar-se em associações específicas, além de facilitar a formação de entidades representativas.
Cláudia Paiva explica que dentre as novas profissões registradas, cerca de 400 fazem parte das chamadas áreas emergentes e apresentam um grande potencial de empregabilidade. "Identificamos áreas que vêm registrando um acelerado crescimento nos últimos vinte anos, gerando a necessidade de trabalhadores cada vez mais especializados. Este é o caso dos setores de biotecnologia, meio ambiente, multimídia, telecomunicações e informática", exemplifica.
base - Para o pró-reitor para assuntos acadêmicos da UFPE, Roberto Coutinho, a CBO pode ser utilizada como base na criação de novos cursos de graduação e pós-graduação. Segundo ele, a universidade vem se antecipando às necessidade do mercado e lançado novos cursos a exemplo do bacharelado em engenharia biomédica e do mestrado em genética. "A pesquisa é um indicativo do caminho que vem sendo trilhado pelo mercado de trabalho brasileiro, e através dela pode-se redirecionar a formação profissional, privilegiando as áreas que apresentam maior potencial".
A diretora de ensino do Cefete-PE, Iracema da Costa Pimental, diz que a nova CBO vem confirmar a dinâmica do mercado profissional e funciona com um facilitador na hora de identificar as novas áreas em potencialidades. Ela argumenta que mesmo antes da divulgação do sistema de classificação ocupacional, o Cefete já vinha redirecionando os seus cursos. O de turismo, por exemplo, passou a ser direcionado para as áreas de eventos, administração hoteleira e agenciamento de viagens. "No entanto, a CBO não vem beneficiar apenas os cursos técnicos. O ensino básico também pode ser redimensionado, oferecendo um direcionamento profissional para atividades mais elementares", acrescenta.