Motoboys e motogirls não largam as máquinas nem nas horas de folga
Aquiles Lopes
Da equipe do DIARIO
Poucas invenções do Século XX despertam tanta paixão quanto as motocicletas. Quem adora ficar sobre duas rodas não troca a tão falada sensação de liberdade por quase nada no mundo. Nem a comodidade e a segurança de um carro são argumentos convincentes para que um apaixonado largue sua motocicleta. Se alguém duvida é só perguntar a um motoboy o que ele faz no final de semana. Mesmo sendo obrigados a pilotar o dia inteiro, encarando o trânsito e o calor intensos, os motoboys não largam as máquinas nos finais de semana e gastam horas e horas de folga limpando, lustrando e passeando sobre rodas.
Entre uma entrega e outra, um motoboy gasta, em média, sete horas por dia ao guidão. Tempo suficiente, por exemplo, para ir até Natal (RN) e voltar. O mais difícil da profissão, no entanto, é suportar o sol forte, usando um capacete, além de ter que sempre driblar os congestionamentos, para garantir a rapidez na hora de entregar uma encomenda.
"Não é mesmo fácil, parece que a cabeça da gente vai derreter. Quando eu tiro o capacete dá um tremendo alívio", conta Eduardo Barros, 29 anos, que há cinco faz entregas para uma lanchonete no Espinheiro. Ele diz que ainda enfrenta os preconceitos dos motoristas que encontra nas ruas, pois muitos não respeitam os motoqueiros. "Parece que eles têm prazer em nos dar fechadas, pois sabem que qualquer escorregada nos coloca no chão".
Os motoboys, porém, reconhecem que muitos colegas de trabalho incentivam a fama de "cachorros loucos", como eles ficaram conhecidos, por andar sempre costurando entre os carros e não respeitar as leis de trânsito. "Muita gente recebe por entrega, especialmente o pessoal que trabalha com alimentação, aí eles precisam voltar logo para a empresa, para ganhar mais", explica Barros.
Cuidados - Apesar de todas as dificuldades do dia-dia os motoqueiros profissionais não largam a paixão nas horas de folga. Quando chega o sábado eles se preocupam em deixar a moto brilhando, para sair no final de semana. É o caso de José Roberto Lima, 31 anos, há 12 trabalhando no ramo. Roberto tem uma Honda Twister, modelo pouco comum entre os companheiros de asfalto, pois a maior parte prefere a CG 125 Titan, também fabricada pela Honda. "Estou com ela há cinco meses e cuido com muito carinho", revela.
A rotina de fim-de-semana é sempre a mesma: sábado pela manhã um boa lavagem, com direito a óleo e revisão básica. À tarde um passeio e encontro com os amigos. À noite, se tiver de sair, é sempre em cima dela. Apesar de pilotar durante quase 50 horas por semana ele garante que até hoje sofreu apenas um acidente, mesmo assim sem maiores conseqüencias. "O segredo é ter cuidado, atenção e respeitar as leis".
José Roberto já teve oito motocicletas, antes da Twister, começando com uma CG 125. Ele assegura que leva os veículos para fazer manutenção a cada três meses, para previnir surpresas desagradáveis, como falhas mecânicas. A paixão pelas duas rodas é tanta que Roberto garante que jamais pensou em ter um carro, pois não gosta de dirigir e sequer tem habilitação para automóveis.
Mulheres - Apesar de ser uma profissão essencialmente masculina, as mulheres também começam a mostrar que podem ser excelentes motogirls, além de apaixonadas pelo estilo motoqueiro. Os empresários que contratam as garotas garantem que elas são mais organizadas e dão conta do recado. "Elas também são mais educadas e gentis no trato com os clientes, isto é uma vantagem a mais", confirma Edvaldo Cavalcante, um dos donos da Mundial Moto Service, que conta com cerca de 40 funcionários, entre eles três mulheres.
A motogirl Cássia Lima, 25 anos, é um bom exemplo do sentimento que as motocicletas transmitem. Há seis anos ela largou um tranqüilo emprego de recepcionista pelo prazer de trabalhar na rua e pilotando o dia inteiro. Cássia garante que não se arrepende e que trabalha com o que gosta. Apesar de também ter um carro, um Escort, ela prefere mesmo é sair na Honda Titan 125, ainda que seja para fazer coisas simples, como ir à padaria. Em casa o cuidado com a Titan é tão grande que, uma vez por semana, sempre aos sábados, faz questão de lavar a moto pessoalmente, cuidando de cada detalhe.
Como filho de peixe, peixinho é, Cássia conta que o filho, o pequeno Carlos Eduardo, de apenas três anos já é louco por motos e não pode ver a mãe sair que pede para dar uma voltinha. "Ele não pode nem ouvir o barulho do motor que quer ir junto, é mais um fã de moto".