Falta sinceridade
Fernando Calmon
E-mail:fernandocalmon@usa.net
Este ano não será bom para a indústria automobilística. Afinal, a queda prevista para o mercado interno total (automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus) é de 6%. A produção total deve se manter igual (1,8 milhão de unidades) à do ano passado, sustentada pelas exportações principalmente de veículos desmontados, cujo menor valor agregado significará uma queda de 2% no faturamento em dólares. A dúvida de muitos compradores é se vale a pena comprar agora ou esperar as definições políticas do País e o provável recuo do preço do dólar até o fim do ano.
Há fatos novos, a partir de 1 de novembro. Termina o prazo da diminuição provisória de um ponto percentual do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) que beneficiou os motores a gasolina de 1 litro de cilindrada. Só os motores a álcool permanecem com o IPI reduzido (9%). Também entra em vigor o recolhimento centrado na indústria de impostos em cascata (PIS/Cofins), o que pode impactar em até 1,5% os preços sugeridos. Como o mercado é livre, cada marca adotará uma estratégia diferente. Comprar agora pode ser um bom negócio, pois as promoções continuam e os aumentos mais pesados demoram um pouco para ir da tabela ao balcão.
E o que esperar do ano que vem? O seminário Perspectivas 2003, recém-realizado pela Editora AutoData em São Paulo, SP, mostrou uma bola de cristal mais embaçada do que nunca. Uma pesquisa interativa com a platéia de 400 executivos do setor automobilístico, maior parte de fornecedores, mostrou que a maioria aposta no mercado estagnado por mais um ano. Opinião diferente dos conferencistas ligados às montadoras. As previsões apontaram um crescimento que varia entre 3% (GMB), 4,5% (Fiat) e 7% (Peugeot-Citroën). A produção pode bater em 2 milhões de unidades porque os acordos comerciais assinados este ano pelo Brasil só se refletirão nas exportações de 2003.
Sempre é bom lembrar da importância do mercado externo. O País, hoje, exporta apenas 20% dos veículos que produz (a meta é de 40% em 2005). Se vendesse mais lá fora, além da receita em dólares para contrabalançar os repasses internos, traria um aumento de escala de produção benéfico no preço final aqui praticado. A crise argentina serviu, pelo menos, para a diversificação de mercados. América do Sul já representou 90% das exportações e hoje apenas 35%. Agora, o México é o nosso maior cliente, além da abertura para a Índia, Cingapura e outros.
Durante o seminário, voltou o racha entre as fábricas quanto ao IPI favorecido dos motores de baixa cilindrada. A Anfavea saiu chamuscada por tomar posições públicas dúbias. Só Fiat e Ford insistem no imposto diferenciado porque, no fundo, têm posições frágeis em outros segmentos. Alegam que o mercado não cresceu, apenas migrou para motores mais potentes nos primeiros dois meses do novo IPI. É cedo para afirmar isso, considerando a oferta insuficiente em função do tempo para redirecionamento da produção. Além disso, com a insegurança atual do consumidor fica difícil qualquer análise.
Ampliar a diferença do IPI criaria, de novo, distorções. O ideal seria que todos os carros pagassem uma alíquota única, como na maioria dos países. Que tal baixar dos atuais 16% para 10%? As duas dissidentes até concordam, mas não parecem sinceras.
RODA VIVA
Vem
Aí a contra-indústria de multas de trânsito. A ganância arrecadatória dos Estados e municípios acaba por estimular quem quer ganhar di-nheiro ensinando a fazer recursos para si e para os outros. Uma das propostas está no site http://www.recurso2002.kit.net . Prometem muito, mas é necessário ter bastante prudência antes de pagar os R$ 39,00 pelo livro que ensina a "técnica".
Nova
Convocação de 550.000 proprietários da família antiga do Corsa, que ainda não instalaram o reforço da fixação dos cintos de segurança, será feita pela GMB. Agora a fábrica terá acesso ao cadastro de proprietários. É parte do acordo na Justiça que inclui a doação de 22 Celtas como compensação de dano coletivo. Oito ex-diretores da empresa estavam ameaçados de processo criminal pela demora na avaliação do problema.
Diminuição
Da sonegação será um dos objetivos alcançados com a centralização do recolhimento do PIS/Cofins. Isto terminará com a indústria de liminares que beneficiava concessionárias consideradas mais "espertas". Ao mesmo tempo vai desone-rar as exportações, pela limitação do efeito cascata daqueles impostos, e criará mais um ônus para os importadores sem fábricas no Brasil.
Mais
Respeito ao consumidor seria muito bom na divulgação de durabilidade de peças e componentes. Cofap e ACDelco, por exemplo, insistem na troca de amortecedores, molas, juntas a intervalos fixos. Desconsidere qualquer tabela deste tipo. Tudo depende das condições de rodagem, que variam muito. Siga apenas o plano de revisões do manual do proprietário. Substituição preventiva é bobagem.
Continua
Cada vez mais competitivo o mercado de autopeças de reposição. ACDelco, marca da GM, ampliou para 16 as suas famílias de produtos. Chega agora aos componentes de freios com preços até 20% inferiores à média de três outros concorrentes da chamada primeira linha.