Nota do partido afirma que promessas de campanha serão cobradas ao futuro presidente
BRASÍLIA - A Executiva nacional do PFL oficializou ontem
a passagem para a oposição ao futuro Governo Luiz Inácio Lula da Silva
com a divulgação de uma nota concisa, que deixa claro o novo rumo: agir
na oposição de forma "responsável e fiscalizadora", defender as reformas
e o programa do partido e cobrar as promessas de campanha do candidato
vitorioso. E os integrantes da cúpula pefelista deram um conselho ao
PT: o primeiro ano de Governo deve ser de mão fechada, o partido apóia
medidas de corte de gastos, mas aumento de impostos não.
Assinada pelo presidente do partido, senador Jorge Bornhausen (SC),
o documento foi aprovado pela comissão executiva de manhã. A redação
final teve a participação de toda a cúpula, reunida na noite de anteontem
no Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente Marco Maciel.
Diplomático, o partido cumprimenta Lula pela "legítima e democrática"
vitória e afirma que o pronunciamento feito na última terça-feira pelo
presidente eleito representa um "compromisso solene" que deverá ser
acompanhado. "Essa é uma tomada de posição, uma bússola que o partido
dá a seus filiados", disse Bornhausen.
A decisão do PFL representa uma tentativa dos dirigentes de recuperar
a identidade do partido, que naufragou nas apostas feitas na eleição
presidencial - primeiro, Roseana Sarney e, depois, Ciro Gomes. Nessa
nova etapa, a ordem é valorizar e defender o programa partidário e valer-se
do poder no Parlamento, onde elegeu bancadas expressivas: será a segunda
força da Câmara, atrás do PT, e, no Senado, empata com o PMDB, com 19
senadores em 2003.
São números que garantem ao partido papel fundamental em qualquer
votação. "Talvez a mais importante manifestação da reunião de hoje (ontem)
tenha sido a da unidade. Um verdadeiro partido político se caracteriza
pelo alto nível de coesão interna, obviamente após debates", comemorou
Marco Maciel, refletindo as preocupações da cúpula.
posição - Bornhausen começou a desenhar esse perfil ontem mesmo. No
momento de apreciar o projeto orçamentário, porexemplo, a orientação
é analisar cada proposta do PT, mas partindo de uma premissa: para adaptar
as despesas à arrecadação, o corte de gastos é sempre preferível à elevação
dos tributos.
"Aumentar imposto significa transferir o problema para a sociedade
produtiva. Cortar significa ação governamental produtiva", observou
o presidente do PFL.
Os primeiros passos do PFL oposicionista poderão ser medidos em decisões
como o reajuste do salário mínimo e a proposta de manutenção da alíquota
do Imposto de Renda da Pessoa Física de 27,5% em 2003. O partido tende
a apoiar um mínimo de R$ 240, proposta vetada pelo presidente Fernando
Henrique na Lei de Diretrizes Orçamentárias, mas pode propor um valor
maior, chegando a R$ 250 ou R$ 260, como já anunciou o senador eleito
Antonio Carlos Magalhães (BA).
Na ocasião da apreciação do veto presidencial vamos nos manifestar.
A posição do PFL talvez seja de um salário mínimo maior", disse Bornhausen.
"O PT não vai abandonar uma tese que defendeu comigo e que também é
minha.Se o salário mínimo poderia aumentar no Governo Fernando Henrique,
porque não no Governo Lula?", provocou o senador baiano.
Na hora de mexer no Imposto de Renda, no entanto, o partido aproveita
para treinar o novo discurso. Vai seguir o programa e defender outras
alternativas para a obtenção de receitas que banquem as prioridades
da administração petista.
"A oposição responsável não pode ser a oposição do não. A cada solução
não aceita por nós, devemos apresentar uma proposta. Se somos contra
a alíquota de 27,5% para o Imposto de Renda, temos de dizer onde cortar:
diminuir ministérios, autarquias, sociedades de economia mista, cargos
em comissão. Diárias e passagens não devem ser usadas, a não ser quando
necessário. E não é preciso verbas publicitárias, a não ser em editais",
explicitou o senador.
O ponto de partida para o PFL em 2003 será o discurso feito por Lula
na terça-feira passada. Os compromissos que assumiu com as reformas,
com a responsabilidade fiscal, de não permitir a volta da inflação,
de exercer a soberania nas negociações internacionais serão cobrados
pelo partido. "Quem faz oposição responsável deve vigiar para que esses
compromissos sejam cumpridos. Jamais faremos oposição rancorosa", avaliou
Bornhausen.
Comentários dos leitores
"Por que voces não fizeram oposição durante todos
esses anos, a essa corrupção que aí se encontra, por que não fizeram
oposição as mordomias que voces tem o privilégio de ter...não consigo
entender, é tão fácil fazer esse tipo de opsosição barata...precisamos
nos unir, políticos do meu Brasil, a fome doi, doi não só no estomago,
mas, doi na dignidade do homem, voces nunca pensaram nisso, e agora,
querem fiscalizar... fiscalizar o que???", MVania, por e-mail.
"Me surpreende, cada vez mais o cinismo e hipocrisia
do pessoal do PFL. A meu ver, nunca colaboraram com nada de significativo
para o povo, mas sim para as elites, e agora querem dar uma de bonzinhos?!",
Marcelo Ramos de Oliveira Jr., por e-mail.