Você mora num edifício ou numa casa? Agora responda: você cumprimenta todos os seus vizinhos, não é? (Afinal, você é uma pessoa bem-educada e não sai de cara feia por aí.) Mas, quantos deles são seus amigos?
Se você é uma criança, certamente, a última pergunta do parágrafo acima vai vir toda enfeitada de resposta. Se você é um adulto... sei não, o negócio fica mais complicado. Porque adulto vai ficando trombudo, você já teve curiosidade de saber? Coisa chata, isso de a pessoa começar a se trancar no seu mundinho e não querer nem saber o que faz o companheiro da porta ao lado.
Vizinho, vizinha (Companhia das Letrinhas, 36 pp., R$ 21,50) fala justamente desse assunto. Dessa síndrome de solidão que bate na porta do vizinho. Ou melhor, que não bate na porta do vizinho. O texto é de Roger Mello, que desenhou a histórinha junto com Graça Lima e Mariana Massarani.
"Quem passa pela rua do Desassossego, número 38, nem percebe, mas... O vizinho do 101 toma café enquanto observa gravuras de bichos. A vizinha do102 já voltou da maratona". Começa assim e vai-se embora, mostrando que os universos individuais ficam sem compartilhamento, só porque a gente virou concha (e isso é muito pior em cidades grandes, sabe?).
O livro é comprido e as páginas são compostas por três cenários: do lado esquerdo, a casa do vizinho (desenhada por Mariana); no meio, o corredor (da pena de Roger Mello); do lado direito, a casa da vizinha (desenhista, Graça Lima). A gente sabe tudo que se passa com eles, mas eles, estão por fora um do outro. Quem chega para animar a solidão deles são a sobrinha do vizinho e o neto da vizinha. Alheios às fronteiras do corredor, abrem as portas das casas e fazem a maior brincadeira. Quem sabe os adultos não resolvem fazer o mesmo um dia e dar um chute nessa danada da solidão?