"Sentou-se no banco, cruzou as mãos sobre a mesa e ficou esperando. Não tinha comido na noite anterior e estava faminta. O estômago roncava. Finalmente, perguntou a Peg:
- A que horas será o café da manhã?
Um suspiro forte veio de baixo da colcha azul.
- Quando você preparar alguma coisa.
É. Parece que acabou a moleza para Matilda, a garota da alameda sangue e osso. Ela não tinha sempre morado ali. Muito pelo contrário. Era a pupila do Padre Leufredus, desde que seus pais haviam morrido, e com quem aprendeu francês, latim, a vida dos santos.
Matilda existira confortavelmente da oração e do estudo, bem servida e alimentada, numa cidade medieval perto de Londres, até que seu tutor transferiu-se para a capital e ela foi entregue aos cuidados da Ruiva Peg, para quem passara a trabalhar como ajudante de consertadora de ossos.
Nada de moleza mesmo. Além de ter que dormir sobre uma esteira desconfortável numa casa fria, ela agora tinha que se contentar com a posição de serva! De comprar os ingredientese preparar as refeições e limpar a casa. Logo ela, tão culta e bela, ter que cuidar daquele povo sujo e ignorante, isso sem falar dos gatos, essas figuras do demônio!
O leitor de Matilda do Osso (Rocco, 200 pp., R$ 19,50) vai concordar que foi um golpe duro esse sofrido pela personagem central, que vive uma espécie de conto de fadas ao avesso, mas vai se divertir enquanto ela sofre para se adaptar à nova realidade e perceberá junto com Matilda que, às vezes, em ambientes de absoluta rusticidade há solidariedade e alegria entre as pessoas, ainda que estas não falem muitas línguas ou não estejam nem aí para o que se passa entre os santos.
A autora dessa novela, Karen Cushman, já teve o seu livro Aprendiz de Parteira batizado com o selo de Altamente Recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil. Assim como a Fedelho ou Bicho daquela história, ambientada em uma aldeia medieval inglesa - que acabou aprendendo o ofício de parteira e conquistando seu lugar no mundo - Matilda terá que se contentarcom o destino e saber que colocar os ossos dos doentes no lugar é muito mais que um ofício, mas um jeito de amá-los.
Muito boa, também, é a pesquisa sobre os procedimentos de cura naquele período histórico, que a autora insere com naturalidade no texto. No final do livro, há uma nota da autora, onde ela conta como coletou o material e ainda destrincha as informações sobre o mundo da medicina medieval. Delicioso de ler, porque inteligente, informativo e sensível.